A voz. Pode não ser tão importante como a imagem. Não precisamos de ser todos cantores líricos nem locutores de rádio, mas hoje tive a sensação que, digamos, numa escala de um a dez, a voz tem uma importância para aí de... bem, não sei.
Eu estava num restaurante, daqueles barulhentos, com muita gente, e algures no meio da confusão comecei a distinguir o som duma mulher que se lamentava e chorava. Achei estranho e varri a área com o olhar à procura do foco do drama. Bem ao contrário, o que se passava era que uma mulher jovem, loura e medianamente apresentável, duas mesas à frente da nossa, elogiava a carteira duma amiga, numa conversa totalmente banal:
- Tão gira! Onde compraste? Foi nos saldos? Ou já é da nova colecção?
A particularidade é que a criatura tinha uma voz horrível! De cada vez que abria a boca, parecia que estava em pranto, num choro esganiçado entre galinha choca e perú bêbedo! Imaginei-a a cantar um fadinho e contive-me para não desatar às gargalhadas. Loucura!
Mistério resolvido, desliguei dali e voltei a concentrar-me no meu peixe grelhado com migas e no meu vinho branco. Mas uns minutos depois, pareceu-me que de novo alguém chorava, mas desta vez num tom mais grave de quem acordou de manhã e emborcou três bagaços de seguida. Voltei a olhar na direcção do som e vinha da mesma mesa. Era a mãe da miúda anterior (de certeza, tirava-se pela pinta), que também tinha começado a falar.
A sério! - pensei eu - Aquelas duas estão a passar ao lado duma brilhante carreira de comediantes! Um sketch com as duas numa série da BBC nem precisava de texto, bastava pô-las a elogiar carteiras!
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

