sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Eu estava autorizada a usar saias muito curtas porque ainda era criança. Mas já estava avisada que depois de crescida não o poderia fazer. Apesar de, naquele tempo, a mini-saia ser um êxito absoluto no estrangeiro (ou "lá fora", como se dizia então a indicar que nós estávamos cá dentro, como sinónimo de fechados), nas aldeias e pequenas cidades de Portugal, só as muito ousadas e dispostas a abdicar dum casamento sério a usavam.
Eu, secretamente porque não podia dizê-lo, decidi que depois de crescida iria usar mini-saia, como a catequista que morava em frente e toda a gente dizia que não prestava e se enrolava com o padre. Basicamente, o que eu decidi foi que estava farta de sermos todos tão pequeninos e acinzentados, nada mais do que isso.
Para meu azar, quando os anos setenta desabrocharam e eu também, a mini-saia passou a ser uma coisa obsoleta. O que se usava era a maxi, a midi e as calças à boca de sino. E isto, enfim, há limites para tudo: Perdida é naquela, mas fora de moda é que nunca!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Quando o meu pai teve que partir para a guerra, surgiu uma questão que não tinha passado pela cabeça de ninguém até então: O carro, o nosso maravilhoso Fiat 600, ia ficar ao abandono sem ninguém que o conduzisse. Provavelmente, quando o meu pai voltasse um dia, já nem funcionaria. Então, teve início com a participação de todos os membros da família, dos mais chegados aos mais afastados, uma tertúlia destinada a concluir se, caso a minha mãe tirasse a carta de condução para andar com o carro na ausência do marido, continuaria ou não a ser uma mulher séria e respeitável e não caíria irremediavelmente nas bocas do mundo, com o seu nome arrastado pela lama. Em cima da mesa pousaram-se argumentos, contra e a favor. Procuraram-se exemplos de mulheres que já conduziam. Algumas eram, de facto, perdidas. Até fumavam. Mas outras não.
Finalmente, depois de muito debate, concluiu-se pelo sim. Oficialmente, a família decidiu que conduzir não era condição sine qua non para uma mulher do clã se perder. O que foi bom, porque outras aproveitaram a boa onda e se juntaram e foram tirar a carta todas ao mesmo tempo, aliviadas dum peso que carregavam há anos sem qualquer sentido.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Enquanto não atingi uma altura razoável, um dos meus maiores pesadelos era andar de autocarro sozinha. Naquele tempo, os autocarros, como muitas outras coisas, eram feitos só para adultos altos. Para tocar para parar, havia umas correias de couro que percorriam toda a viatura junto ao tecto e que era preciso puxar para fazer soar uma campainha ao lado do motorista. Não foram poucas as vezes em que me dirigi a um adulto pedindo para fazer o favor de tocar porque eu queria sair a seguir, e obtive como resposta envergonhada:
- Oh menina, mas eu também não chego lá!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

No meu top de restaurantes maus ou simplesmente inacreditáveis há um que é inultrapassável no que teve de surreal. Foi num tasco daqueles à beira-mar, com uma vista maravilhosa que, por si só, torna indesculpável a incompetência. Quem tem o privilégio de ter um estabelecimento num sítio daqueles, devia ser preso por não oferecer um serviço a condizer. Mas isto sou eu a falar, porque obviamente, eles não eramda minha opinião.
Era um daqueles fins-de-semana de Junho em que acordamos e achamos que queremos comer sardinhas assadas com pimentos e aquelas coisas todas que fazem parte da época. Entrámos e perguntámos à senhora que lá andava dum lado para o outro se tinham sardinhas. Resposta afirmativa, abancámos. Escolhemos o prato imediatamente pois já sabíamos o que queríamos e pedimos a carta de vinhos. Escolhemos. Entretanto, trouxeram-nos um cestinho com pão e uma travessinha com o que eles entendiam ser um menu de entradas: azeitonas rafeiras, manteiga e queijo Queru. Perguntámos se havia queijo e a resposta foi que sim, apontando para o dito. Ok.
Para aí um quarto de hora depois apareceu a empregada, que disse o seguinte, e juro que isto é verdade:
- Olhe, os senhores podiam escolher outro vinho? É que eu não consigo encontrar o que pediram, não sei onde está!
Escolhemos outro vinho.
Para aí meia hora depois, como não acontecia nada, algumas pessoas que estavam sentadas à espera começaram a levantar-se e a ir embora. A empregada, pateticamente, só dizia "Peço imensa desculpa! Peço imensa desculpa!", que parecia ser uma gravação que tinha engolido nessa manhã.
Finalmente, uma hora depois, chegaram as sardinhas. Amassadas e secas, bem ao estilo das congeladas. Mesmo ali, em frente ao mar, numa vila tradicionalmente piscatória. Quando perguntámos se as sardinhas eram congeladas, ouvimos a gravação: "Peço imensa desculpa! Peço imensa desculpa!"
No fim daquele mini-pesadelo, como é evidente, dispensámos a sobremesa e só queríamos ir embora. Mas ao sair, eu ainda espreitei para o balcão das ditas, onde umas mousses de chocolate secas e já separadas das taças nos rebordos esperavam um qualquer golpe de misericórdia.
- Estava tudo bem? - perguntou a tontinha da empregada.
- Não - respondemos - estava tudo mal.
- Ai! Peço imensa desculpa! Peço imensa desculpa!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A voz. Pode não ser tão importante como a imagem. Não precisamos de ser todos cantores líricos nem locutores de rádio, mas hoje tive a sensação que, digamos, numa escala de um a dez, a voz tem uma importância para aí de... bem, não sei.
Eu estava num restaurante, daqueles barulhentos, com muita gente, e algures no meio da confusão comecei a distinguir o som duma mulher que se lamentava e chorava. Achei estranho e varri a área com o olhar à procura do foco do drama. Bem ao contrário, o que se passava era que uma mulher jovem, loura e medianamente apresentável, duas mesas à frente da nossa, elogiava a carteira duma amiga, numa conversa totalmente banal:
- Tão gira! Onde compraste? Foi nos saldos? Ou já é da nova colecção?
A particularidade é que a criatura tinha uma voz horrível! De cada vez que abria a boca, parecia que estava em pranto, num choro esganiçado entre galinha choca e perú bêbedo! Imaginei-a a cantar um fadinho e contive-me para não desatar às gargalhadas. Loucura!
Mistério resolvido, desliguei dali e voltei a concentrar-me no meu peixe grelhado com migas e no meu vinho branco. Mas uns minutos depois, pareceu-me que de novo alguém chorava, mas desta vez num tom mais grave de quem acordou de manhã e emborcou três bagaços de seguida. Voltei a olhar na direcção do som e vinha da mesma mesa. Era a mãe da miúda anterior (de certeza, tirava-se pela pinta), que também tinha começado a falar.
A sério! - pensei eu - Aquelas duas estão a passar ao lado duma brilhante carreira de comediantes! Um sketch com as duas numa série da BBC nem precisava de texto, bastava pô-las a elogiar carteiras!

domingo, 23 de agosto de 2009

Naquele tempo, os carros também não tinham rádio. Quer dizer, tinham, mas só os muito muito bons, ou então quando os donos mandavam pôr. Havia rádios, leitores de cassettes, que eram uns objectos com umas fitas que andavam à roda e de vez em quando prendiam e desdobinavam-se todas e havia também os cartuchos. Os cartuchos, para quem não sabe, eram uns objectos enormes e misteriosos que pareciam armadilhas para baratas e davam música quando se metiam dentro dum aparelho que era o leitor de cartuchos. Mas adiante. O carro do meu pai tinha um leitor de cassettes e o meu pai tinha duas cassettes, que ia tocando alternadamente até nós chegarmos a saber todas as músicas de cor: Uma era dum conjunto (nesse tempo bandas era só as que tocavam nos coretos) chamado Marino Marini e outra era de música country americana, com a fotografia duma tipa mamalhuda só de botas e chapéu e uma guitarra à frente a tapar as coisas.
Mas a verdadeira anedota era um vizinho nosso que, sendo forreta como o Tio Patinhas, resolveu que era um desperdício de dinheiro mandar pôr uma aparelhagem no carro. Então, comprou um leitor de cassettes daqueles grandes de ter em casa e, de todas as vezes que ia a qualquer lado de carro, levava-o e pousava-o no banco de trás para ter música no carro. Lembro-me bem de toda a vizinhança se pôr à janela, por trás das cortinas, a rir discretamente quando o via a sair de casa a carregar aquilo. Nessas alturas, quem via primeiro chamava a família toda:
- Venham ver o M****** a transportar o leitor de cassettes!

sábado, 22 de agosto de 2009

...
Até que, naquele deserto, passou por nós uma outra família num outro carro mas quase de luxo. Era um Ford Escort. O senhor que vinha lá dentro com a mulher era mecânico e resolveu parar para perguntar se era preciso alguma coisa. Pois claro que era preciso alguma coisa, por exemplo, trocar o Ford Escort pelo nosso Fiat 600. Isso ele não fez, claro, mas pôs-se de volta do esgotadíssimo motor do nosso mini-carro e não saiu de lá até conseguir resolver o problema, e no fim nem quis que lhe pagassem.
Mas do que eu me lembro mesmo bem é da mulher dele. Uma espécie de bruxa das histórias que eu lia, de cabelo pintado de preto-azul e casaquinho de malha pelas costas apesar da brasa, que não se calou nem um minuto, sempre a dizer coisas simpáticas como - "Ai este homem faz sempre isto! Vê alguém enrascado, pára logo para ajudar. Que parvo! Eu bem me farto de lhe dizer, oh homem, deixa lá isso que não é nada connosco! As pessoas que resolvam os problemas delas, não é verdade? Mas ele não, tem que parar sempre! Que parvo me saiu este homem!"
Eu tenho ideia de ter pensado cá para comigo que não fazia parte do código dos adultos dizerem coisas daquelas, e que ela estava a ser um nadinha mal-educada, tanto connosco como com o marido. Mas estava de castigo e tinha que ficar calada.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Foi emocionante o dia em que o meu pai foi buscar o nosso primeiro carro. Era um Fiat 600 branco que parecia meio ovo com estofos vermelhos debruados a preto. Naquele tempo nenhum carro tinha cintos de segurança e muito menos airbags ou coisa que o valha. Nós íamos no banco de trás, de joelhos, a dizer adeus às pessoas que vinham a seguir como se as conhecêssemos de algum lado, ou então deitavamo-nos para ver a paisagem de outro ângulo. Um dia, fomos com o Fiat 600 a um sítio que eu já não me lembro como se chamava mas era uma montanha, e era verão. O pobrezinho, que tinha o motor atrás e a mala à frente, recusou-se a subir mais e ficámos todos apeados no meio da serra. Os adultos preocupadíssimos e nós, as crianças, divertidíssimas, aproveitando para correr pelo meio das árvores e apanhar plantas que não conhecíamos, certos de que os adultos arranjariam uma solução que nos pusesse em casa antes do anoitecer pois era isso que lhes competia. Mas quando o meu pai foi abrir o motor para ver o que se passava, deu-se uma pequena explosão que o deixou com a cara toda negra como nos desenhos animados do Bugs Bunny. Eu e o meu irmão desatámos a rir com a cena tão divertida e ficámos de castigo ali mesmo, no meio da imensidão, os dois sentados a um canto sem poder abrir a boca nem fazer qualquer investigação na natureza. Foi triste.
...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Às tantas eu comecei a reparar que todos os casais que eu conhecia tinham apelidos iguais e achei que era obrigatório casar com alguém que tivesse o mesmo sobrenome que nós. Fiquei preocupada, porque o meu último nome era (é) do mais estranho que há e só os homens da minha família o tinham. Como não é permitido, nem eu estava interessada em casar com um parente (aliás, nessa altura já tinha decidido que casaria com um príncipe encantado), entreguei as minhas dúvidas e os meus temores ao cuidado da pessoa que eu achava que me ia ajudar a resolver o problema, até porque também tinha tido um exactamente igual: A minha mãe.
- Mãe! - perguntei - Quando eu for grande e quiser casar com alguém, como é que eu vou fazer?
- Como assim?
- Onde é que eu vou arranjar um noivo que se chame C******* como eu? Não há! Como é que tu conseguiste arranjar?
A minha mãe abanou a cabeça e riu-se. Depois, mandou-me literalmente pastar, pois virou-me as costas e foi aos seus afazeres. Custava alguma coisa ter-me explicado como é que funciona a adopção de nomes do conjuge? Custava? Não. Mas graças a esse momento, passei mais algum tempo da minha vida a amaldiçoar não ter nascido numa família de Silvas ou de Santos, e a tentar conformar-me com a ideia de que iria ser uma solteirona daquelas que passam a vida em casa dos familiares a chatear. Ou pior ainda, iria para um convento ficar gorda e cozinhar doces tradicionais com ovos até ao fim dos meus dias!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

- Tenho tantas coisas para tratar! Os terrenos, as casas, a papelada! Isto dá tanto trabalho! Se a gente vende qualquer coisa tem logo uma carga de trabalhos! E logo agora a minha filha quer que eu vá aos Estados Unidos. Vai ser um transtorno. Amanhã já vou!
- Deixe lá! - respondi eu - Aproveita para passear e esquecer as chatices por uns tempos!
- Pois... Mas é para ir ao funeral da minha netinha.

Quando ouvi isto, juro que pensei que estava a ouvir mal. Olhei para ela aparvalhada, à espera de mais qualquer coisa que me esclarecesse sobre tamanha descontracção. Ela começou a remexer na carteira à procura duma fotografia para me mostrar.

- Tinha 19 anos... Mas estava doente... Ah! Está aqui!

E passou-me para a mão a foto duma jovem negra, deitada num sofá com um ar bastante debilitado. Eu continuava sem palavras.

- E é assim. - continuou ela como se nada fosse - Eu por mim nem ia, não vou lá fazer nada! Mas a minha filha insistiu, insistiu... Paga-me as passagens e tudo!

A seguir, mesmo logo a seguir, voltámos à conversa sobre os registos dos terrenos.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A senhora à minha frente era particularmente faladora.

- Vocês aqui têm um trabalho que não é nada fácil, não é não! É o que eu digo, não deve ser nada fácil estar aí atrás desse balcão!
- ...
- Mas também é o que eu digo, o que interessa é gostar do que se faz! A gente gostando, facilita tudo! Eu gosto muito do meu trabalho!
- Então e o que é que a senhora faz?
- Eu sou auxiliar no hospital! Adoro ver aquelas feridas fundas, que deitam pus! Aquelas que é preciso estar lá a ajudar a enfermeira a limpar com as gazes! Ai o que eu gosto daquilo, a sério!
- Ah... Eu prefiro trabalhar aqui...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

- Tens que fazer!
- Mas agora não me apetece! - lamentava-se o nosso irmãozinho mais novo.
- Mas tens que fazer! Leva a caixa! Faz força!

Nós, os mais velhos, ficávamos do lado de fora da casa de banho à espera, até que ele aparecia com a caixa.

- Só consegui fazer este bocadinho! - e exibia um pequeno excremento.
Nós virávamos a cara de nojo.
- Ok! Chega assim, fecha isso!

A seguir, fazíamos um bonito embrulho, com lacinho e tudo, e íamos pô-lo lá fora no chão, como se tivesse sido perdido. Depois, ficávamos na varanda a ver o que acontecia até alguém o apanhar.

Caramba! A vida tornou-se tão mais saudável quando os miúdos passaram a ficar horas diante dos computadores!