O homem fazia lembrar muito vagamente uma personagem dum recente anúncio de telemóveis, que anda na praia a urrar dum lado para o outro. Era seguramente mais novo do que eu, o que com o evoluir da conversa me veio a surpreender profundamente. Sentou-se à minha frente e eu assustei-me um bocadinho. Mas só um bocadinho.
ELE: Librete!
EU: Como?
ELE: Librete!
EU (a fazer exercícios mentais de relaxamento): Vamos lá ver, o que é que o senhor pretende? É alguma coisa relacionada com um ciclomotor, certo?
ELE: Deram-ma!
EU: Deram-lhe um ciclomotor, é isso? E o senhor quer regularizar a situação, é isso?
ELE: Mudar de nome!
EU: Muito bem. Tem alguma coisa aí que eu possa ver? Algum documento?
Ele sacou dum papel muito encardido, rasgado de outro maior, cheio de números rabiscados e rasurados.
EU: Isto aqui é a matrícula?
ELE: Motor! – e apontou para outro número mais abaixo.
EU: Sim, mas isto é a matrícula não é?
ELE: Hu!
EU: Pronto, estou a ver que isto é a matrícula. Só que há um problema, esta matrícula não é daqui. O senhor tem que ir a O******* do ******.
ELE: Mas eu não sei!
EU: Pode ir de comboio. O senhor é de cá?
ELE: Sou de C******** de B****.
EU: Sabe ir daqui para a estação?
ELE: Eu não sei ler. Vim de mota. Eu perdi-me c*ralho!
A partir daí, aquele homem grosseiro de mãos calejadas e olhos pequeninos e juntos, desatou num pranto à minha frente e, enquanto que as lágrimas lhe rolavam pela barba mal feita, repetiu as mesmas duas frases: - “Eu perdi-me c*ralho!”, “Eu não sei ler e perdi-me!”
Fui à internet e imprimi-lhe um mapa com o percurso assinalado. Indiquei-lhe a direcção do primeiro ponto e aconselhei-o a ir perguntando às pessoas pelo caminho. Fiquei amarga para o resto do dia. Isto não devia acontecer, não depois de terem inventado a inteligência artificial.


