O calor. O pátio coberto por um pérgola de videiras. Os pés de piri-piri a rebentar de malaguetas vermelhas. Os coelhos fofinhos. As galinhas tolas a lançar penas por todo o lado quando lhe atirávamos pedras à socapa. O baloiço feito pelo meu avô debaixo da figueira. O telheiro. Os raminhos de chá a secar debaixo do telheiro. As árvores de fruto. As frutas carnudas com cheiros doces. As filas de alface a delimitar talhões de tomates, pepinos e cenouras. Os poços e as bombas manuais de tirar água fresca. Os gafanhotos verdes. As lagartixas verdes. As lagartas da couve. As couves onde nasciam as crianças mas só quando eu não estava a olhar. A relva com a roupa a corar. A minha mãe a bater nos tapetes pendurados com uma raquete. o tanque enorme. O milho. A terra. Os nossos brinquedos espalhados no pátio. O triciclo. O Anglia bege telecomandado do meu irmão. A minha boneca espanhola que dizia "te quiero mucho". O muro alto. As pedras salientes onde nós subíamos o muro alto para espreitar a rua. O alecrim. A erva-doce. A tília. Os gatos vadios. A casa amarela de janelas grandes viradas ao sol. Os meus vestidos frescos. As minhas sandálias azuis e brancas. As floreiras no corredor. A colcha bordada a lã de muitas cores. As moscas furiosas. As tiras à porta a travar as moscas. Os lírios. Os malmequeres. Os grilos a cantar nas noites quentes. A roupa a secar. O meu avô a matar coelhos para o jantar. A minha tia a matar galinhas. Eu a fugir para dentro de casa para não ver morrer os coelhos nem as galinhas. Eu a acariciar o pelo dos coelhos mortos como se lhes aliviasse a dor que já não tinham. O calor.
Recordações de verão numa casa que já não existe numa aldeia que já não o é.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês


