Era na porta da mesinha-de-cabeceira, aquele local insuspeito que não muitos anos antes só servia para guardar o bacio, que o meu pai escondia as leituras proibidas. Descobri isso numa das vistorias que fiz à procura das prendas de Natal e que acabou por ter um resultado muito mais suculento. Nem me lembrei mais das averiguações que levava a cabo para saber se sempre ia receber um gira-discos ou uma máquina fotográfica. O achado que tinha acabado de fazer bem mais importante. Os meus pais não estavam em casa nesse dia e a única pessoa que estava a tomar conta de mim era, felizmente, fanática por tachos e afins, pelo que dificilmente sairia da cozinha para vir à minha procura. Então, sentadinha no tapete de "carpélio" cor-de-rosa, calada como um rato, eu fui descobrindo o mundo naquele tempo inacessível das anedotas muito sujas, fotografias inqualificavelmente e chocantes e Vilhena. Sim. Acima de tudo apaixonei-me por Vilhena. Pelos textos irrepreensivelmente bem escritos a contrastar com o conteúdo escandaloso, pela crítica ácida e pelos desenhos perfeitos. Imaginei, sem o conhecer, que por trás daquelas criações refinadissimamente abjectas, estaria um cavalheiro, e isso anulava o sentimento de culpa. Voltei muitas vezes àquela mesinha-de-cabeceira, sempre que os meus pais saíam. Apenas sabia que tinha que decorar sem falha o lugar de cada livro e de cada revista, e o lado para o qual estavam voltados, para depois voltar a arrumar tudo exactamente como estava. O meu pai era muito meticuloso!
O que eu não aprendi sentada naquele tapete cor-de-rosa!...
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

