quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Eu estava a ver um tele-filme na televisão sobre um menino que era preto e queria ser branco. Depois de várias peripécias, concluía-se que a cor da pele não interessa quando se tem um bom coração e eu até já estava a ficar um bocadinho emocionada. A única coisa de que tive pena foi que ele não tivesse conseguido, efectivamente, ficar branco. Aí sim, seria o perfeito final feliz. Perguntei à minha mãe se não havia nenhum tratamento que transformasse os pretos em brancos e ela respondeu-me negativamente. Lembro-me que fiquei angustiada e com pena deles como se se tratasse duma doença horrível com que se nasce. Lembro-me que a minha mãe me respondeu qualquer coisa sobre não me preocupar com isso pois tinha nascido branca. Hoje, esta memória arrepia-me. Mas depois penso que não, nós não éramos uns monstros, nem eu nem mesmo a minha mãe que pensava assim já depois de adulta. Nós éramos apenas o resultado dum país que vivia de colonizar e onde não era permitido introduzir variantes ao pensamento dominante. Ponto final.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A MINHA COLEGA: Ontem vi-te com a tua filha! Está tão alta!
EU: Sim, a minha filha é alta. Não muito, mas é alta.
A MINHA COLEGA: Está enorme!!!
EU: Oh mulher, a minha filha tem vinte anos! Já está daquela altura há montes de tempo!
A MINHA COLEGA: Ai mas eu vou-te dizer... Ela e o meu Nuno os dois "emparedados", não sei qual seria o maior!
EU: Emparedados?!
A MINHA COLEGA: Sim! Os dois lado a lado!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

- Então vocês vão-me dar isso a cores? - perguntou ele.
- Sim, vamos. A impressora a preto e branco está avariada. Mas vamos-lhe cobrar só o custo do preto e branco.
- Mas eu não quero isso a cores!
- Não quer?! Mas o senhor costumava reclamar sempre quando lhe dávamos isto a preto e branco!
- Pois. Mas eu queria que me dessem a cores porque me tinham dado razão. Não porque a impressora avariou!

domingo, 4 de outubro de 2009

Uma das coisas que sempre tive dificuldade em entender nas lições de história foi a instauração da república. A professora contava-nos que um tipo chamado José Relvas tinha ido à varanda da Câmara Municipal de Lisboa em 1910 anunciar o fim da monarquia e o princípio da república. Até aqui tudo bem. Mas este episódio suscitava-me dúvidas muito mais profundas que nunca nenhum adulto me soube explicar de forma convincente:
- Quem mandou o José Relvas à varanda dizer aquilo?
- Porque é que uma coisa tão importante foi resolvida assim com uma pessoa a ir à varanda gritar?
- Quem estava cá em baixo para o ouvir?
- Como é que um país inteiro, cuja população estava esmagadoramente longe da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, se tornou republicano assim sem mais nem menos?
- As pessoas sabiam? Alguém lhes perguntou se queriam? Ou o José Relvas foi para a varanda dizer aquilo sem ninguém lhe ter encomendado o sermão?
- Porque é que a república passou a ser uma coisa boa de repente em 1910, se durante a escola toda eu tinha andado a aprender os feitos heróicos dos nossos reis? Afinal o que era bom e o que era mau?
- Porque é que o presidente da república era melhor do que os antigos reis, se na verdade ninguém gostava dele e toda a gente dizia mal mas só baixinho e dentro de casa para não ir para a cadeia?
Aquela história toda cheirava-me a esturro. E mais. Levava-me inevitavelmente a algumas perguntas mais pertinentes ainda:
- Basta uma pessoa sozinha ir à varanda da câmara gritar qualquer coisa para ela passar a ser verdade?
- Se eu conseguir subir à varanda da câmara da minha terra e gritar que todas as crianças passam a receber chocolates todos os dias e deixa de ser obrigatório ir à missa, isso torna-se verdade assim tão facilmente? Ou tem que ser um adulto a fazer isso?
Mas estava visto que os adultos só iam às varandas anunciar coisas que não tinham interesse nenhum, por isso nem valia a pena ir por aí.

sábado, 3 de outubro de 2009

O velho cine-teatro ficava na praça central da cidade. Era grande. Levava mais de mil pessoas ao mesmo tempo a vibrar com as aventuras do James Bond, a chorar baba e ranho com as desgraças dum filme indiano ou a trautear as músicas do Grease. Era velho. As escadas já rangiam um bocadinho e as casas de banho estavam aquém do admissível em termos sanitários e ficavam na cave. O segundo balcão tinha a alcunha popular de "piolho" porque ditava a tradição que era para lá que iam ver cinema as pessoas que não tomavam banho e eram mais propensas a criar relações íntimas com o animal homónimo. Tinha camarotes. Primeiro balcão. Plateia para os remediados. Quando eu era criança, adorava ir ao cine-teatro. Gostava de cinema, mas mais do que isso, gostava de estar na fila B do primeiro balcão a ver as luzes gigantes do tecto altíssimo a apagar devagarinho e o pano pesado a abrir indolente. Mentalmente fazia um exercício: Olhava lá para cima, para umas aberturas redondas de onde vinha a luz e que eu imaginava serem túneis de luz sem fim que só acabavam nas núvens, e logo a seguir percorria rapidamente com o olhar todo o pé-direito do edifício até acabar lá em baixo na plateia com muitas cabeças pequeninas em fila e isso provocava-me uma vertigem que me fazia cócegas pequeninas no estômago.
Ao lado da sala principal havia um salão de baile com um palco para a orquestra e vários sofás de veludo vermelho à volta que era onde as donzelas esperavam o convite para dançar. Nunca fui a um baile daqueles mas era assim que eu imaginava. Pares felizes a rodar no soalho muito brilhante e encerado. Nos dias de cinema era para o salão de baile que as pessoas iam no intervalo do filme, conversar e fumar. Nesse tempo fumava-se em qualquer lado, não havia leis anti-tabaco nem preocupação com isso.
Foi no cine-teatro que eu vi o meu primeiro filme de cinema, foi lá que fiz o primeiro ensaio de namoro e foi também lá que eu ri como doida e chorei baldes de lágrimas com as tragédias e as alegrias das personagens que de tão grandes me pareciam verdadeiras.
No cine-teatro trabalhavam algumas senhoras de bata azul que já toda a gente conhecia e um senhor que usava uma farda e um boné e tinha uma lanterna para levar ao lugar as pessoas que chegavam atrasadas. Mais discreto, nos bastidores, trabalhava o Sr. Luís, que era quem projectava os filmes. Eu olhava para trás, para a janelinha lá em cima de onde saíam raios coloridos que percorriam o ar até à tela onde se transformavam magicamente em imagens, e imaginava o Sr. Luís lá dentro, no meio de máquinas complicadas com quilómetros de película que girava em rodas sucessivas. Nunca ninguém o via, mas eu sabia quem era. Porque no final da última sessão, ele vinha cá fora com um balde de letras e um escadote, mudar o título do filme para o do dia seguinte. Era um trabalho de paciência, porque tinha que subir e descer várias vezes, tirar as letras que já não interessavam e pendurar outras e ir avançando com o escadote. O que ele fazia pachorrentamente. Quando acabava, descia, afastava-se um pouco e olhava para a obra terminada. Por detrás dos seus óculos muito graduados, o senhor Luís afagava o rosto pensativo, que era como quem diz que a ortografia não devia estar para vinte valores mas não fazia mal.
Um dia, o cine-teatro ficou tão velho e já ia lá tão pouca gente que teve que fechar. Mais tarde, as pessoas que mandavam na cidade e que tinham com certeza as mesmas memórias que eu, teimaram em não o demolir e fizeram-lhe obras. Ficou bonito, moderno, irrepreensível. Mas nunca mais foi a mesma coisa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A televisão costumava dar uns desenhos animados em que as personagens eram os Beatles, que eu por acaso até gostava muito de ver mesmo não sendo tão giros como os do Pitosga. O genérico desses desenhos animados era umas imagens dos quatro rapazes a fugir por ruas e becos de um bando de raparigas histéricas e esta era a parte que eu não percebia. Tentei obter explicações por parte dos adultos sobre o assunto. Se eles tinham feito mal a alguém e lhe queriam bater e porque é que eram só mulheres a correr atrás deles. Principalmente, porque é que eles fugiam das mulheres daquela maneira desesperada. Ainda se fosse animais selvagens, ou polícias zangados, ou criminosos com tatuagens nos braços!...
Não tive qualquer êxito, no entanto, e continuei sem perceber a lógica de todo aquele quadro. O meu pai limitou-se a dizer que eles eram um bando de piolhosos, o que não justificava absolutamente nada, antes pelo contrário. Quanto à minha mãe, era de opinião que eles eram uns estúpidos e uns inúteis, pois com tantas raparigas a andar atrás deles, algumas tão jeitosinhas e provavelmente boas donas-de-casa, todos tinham escolhido ficar com raparigas feias.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O programa de televisão estava chato por demais e eu entretinha-me por ali a rabiscar desenhos em folhas de papel. Até que uma observação de um dos adultos captou a minha atenção:
- Isto é que vai ser a música clássica do futuro! - dizia alguém - Daqui a uns duzentos anos, quando as pessoas forem a um concerto de música clássica, é isto que vão ouvir!
Detive-me então no homenzinho de figura quase ridícula que fazia soar nuns instrumentos uns sons sintéticos sem qualquer harmonia e até mesmo desagradáveis. Era mais ou menos como os barulhos que fazia o portão das traseiras do nosso quintal quando alguém resolvia abri-lo. Eu, sempre opinativa, intrometi-me na conversa:
- Não! Eu acho que a música clássica do futuro vai ser a dos Beatles.
- Tu não sabes o que dizes - respondeu-me alguém com um sorriso condescendente.
Não discuti, não estava em dia de me arriscar a uma lambada. Mas no meu íntimo fiquei com a certeza que tinha razão. E tinha os argumentos todos a meu favor: Ninguém sabia quem era aquele homenzinho, mas toda a gente sabia quem eram os Beatles. Ninguém conseguia trautear a música daquele homenzinho no duche, mas toda a gente conseguia trautear o "Yesterday", até os mais duros de ouvido. Os Beatles já eram tão velhinhos que faziam músicas desde que eu era muito bebé e se calhar até antes e eu já estava bem crescida. E no entanto ainda eram conhecidos e provavelmente continuariam conhecidos por mais uns trinta ou quarenta anos até eu ser muito velhinha. Isso sim, é clássico!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Era na porta da mesinha-de-cabeceira, aquele local insuspeito que não muitos anos antes só servia para guardar o bacio, que o meu pai escondia as leituras proibidas. Descobri isso numa das vistorias que fiz à procura das prendas de Natal e que acabou por ter um resultado muito mais suculento. Nem me lembrei mais das averiguações que levava a cabo para saber se sempre ia receber um gira-discos ou uma máquina fotográfica. O achado que tinha acabado de fazer bem mais importante. Os meus pais não estavam em casa nesse dia e a única pessoa que estava a tomar conta de mim era, felizmente, fanática por tachos e afins, pelo que dificilmente sairia da cozinha para vir à minha procura. Então, sentadinha no tapete de "carpélio" cor-de-rosa, calada como um rato, eu fui descobrindo o mundo naquele tempo inacessível das anedotas muito sujas, fotografias inqualificavelmente e chocantes e Vilhena. Sim. Acima de tudo apaixonei-me por Vilhena. Pelos textos irrepreensivelmente bem escritos a contrastar com o conteúdo escandaloso, pela crítica ácida e pelos desenhos perfeitos. Imaginei, sem o conhecer, que por trás daquelas criações refinadissimamente abjectas, estaria um cavalheiro, e isso anulava o sentimento de culpa. Voltei muitas vezes àquela mesinha-de-cabeceira, sempre que os meus pais saíam. Apenas sabia que tinha que decorar sem falha o lugar de cada livro e de cada revista, e o lado para o qual estavam voltados, para depois voltar a arrumar tudo exactamente como estava. O meu pai era muito meticuloso!
O que eu não aprendi sentada naquele tapete cor-de-rosa!...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ser uma das mais velhas no local de trabalho confere-nos, para além de alguma autoridade, o estatuto oficial de contadora de histórias. Se não fosse por nós, como é que os mais novos iam ficar a saber dos grandes escândalos de tempos idos? Quem lhes ia contar que aquela senhora respeitável de meia-idade já tinha sido apanhada na cantina a amar em cima das hortaliças do almoço? Como ficariam informados sobre a estranha vida sexual dos que já se reformaram? Dos engates clandestinos que toda a gente soube mas se perderam no tempo? Como? Porque ainda que alguns possam estar a pensar que isto são futilidades desnecessárias, eu não concordo nada! É muito importante manter viva a tradição oral dentro da organização e assim criar o sentimento de pertencer a um local com história. Ora nem mais!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu e a Cristina vínhamos da escola e, contrariando as constantes advertências dos nossos pais, decidimos entrar no parque e ficar um bocadinho a andar de baloiço antes de irmos para casa. Nunca tínhamos entendido o porquê da preocupação. Coisa de pais, desmancha-prazeres que fazem tudo para nos tornar infelizes, só podia ser! Então, pousámos as mochilas num canto, debaixo duma árvore e, divertidas como só as crianças conseguem ficar com tão pouco, voámos como loucas no baloiço.
A certa altura reparámos num homem duns cinquenta anos que, atrás duns arbustos ali perto, nos olhava fixamente com um aspecto alucinado. Abrandámos a velocidade do voo e ficámos a olhar para ele também. Na verdade, além de nos fixar, ele produzia com a mão direita dentro da braguilha, um movimento ritmado e repetido.
- O que será que ele está a fazer? - perguntou a Cristina.
- Sei lá! - respondi eu - Deve estar com problemas de bexiga. A minha mãe de vez em quando também tem.
E continuámos a andar de baloiço despreocupadamente, durante mais um bocado, com as nossas minúsculas saias a esvoaçar e levantando as pernas quando atingíamos a maior altura, dando gritinhos inebriados.

domingo, 27 de setembro de 2009

Não me parecendo que a senhora à minha frente tivesse qualquer tipo de deficiência, nem estivesse grávida, tive que lhe perguntar por que motivo tinha tirado tiquet de atendimento prioritário.
- Porque estou com pressa! - respondeu ela muito despachada.
- Vai-me desculpar, mas a pressa não é um motivo válido para tirar tiquet de atendimento prioritário.
- Então tiro qual? - continua ela - Se não tirar uma destas não sou atendida antes dos outros!
- Pois. O atendimento prioritário é para deficientes, grávidas, idosos, pessoas com crianças de colo e advogados.
- Então e quem está com pressa?
- Vem numa altura em que não esteja com tanta pressa. Eu não posso atendê-la com esse tiquet. Há muitas pessoas que chegaram primeiro.
- Sim, mas se não tiram tiquet prioritário é porque não têm pressa não é?

E enquanto argumentava com a mulher que não queria entender a lógica objectiva das prioridades, eu pensava como seria bom viver num mundo em que as pessoas fossem tão honestas consigo e com os outros, que até a pressa podia ser um motivo válido para atendimento prioritário nas repartições.

sábado, 26 de setembro de 2009

Eram oito da manhã, eu tinha acabado de tomar banho e ainda não sabia exactamente como me chamava, de onde vinha nem para onde ia, quando o telefone lá de casa tocou. Estranhei, não era costume àquela hora, e por uma fracção de segundo pensei que devia ter acontecido uma desgraça qualquer. Fui atender e do outro lado uma voz feminina perguntou se era eu.
- A própria - respondi.
- Bom diaaa!!! Eu sou a catequista do seu filho!
- Sim?...
- Sabe, eu tenho andado aqui a pensar... o Joãozinho disse um dia destes na catequese que a mãe não acredita em Deus nem vai à missa. A senhora acredita numa coisa destas?
- Acredito porque é verdade. Eu deixo-o ir à catequese porque ele quer, mas não faço questão nenhuma nem quero saber de nada disso.
Do outro lado, "ouvi" um silêncio. Imaginei que a megera tivesse caído para o lado e, satisfeita, preparei-me para desligar e ir à minha vida. Mas no último segundo, ela ressuscitou.
- Eu gostava de falar com a senhora sobre esse assunto! Posso ir aí a casa?
- Vai-me desculpar, mas nós não temos nada a conversar sobre este assunto. Eu não quero saber da religião para nada!
- Está bem - estas víboras sabem bem dar a volta aos assuntos - Mas eu gostava de falar consigo na mesma! Conhecê-la, só... Posso?
Nesta fase bem me tramou. Como é que uma pessoa que ainda se vai considerando bem-educada vai dizer a outra que não pode entrar lá em casa?
- Está bem, pode...
- Então logo às nove e meia da noite estou aí!
- Estou tramada! - pensei - Isto a mim só destes cromos e falta de dinheiro!
Mas que podia eu fazer? Já tinha fraquejado perante o inimigo. E às nove e meia em ponto, tal como tinha ameaçado, lá estava ela e o marido, também beato, a tocar-me à campainha. E mais ou menos até à meia-noite, enquanto comia os meus biscoitos e se alambazava no meu chá, a criatura insistiu com o dedinho indicador a apontar para o tecto que "Quem sabe se não será através desta criança que Deus vai entrar nesta casa?", enquanto que eu lhe tentava explicar que não perdesse tempo, nem o dela nem o meu, mas em vão. Às vezes não tenho mesmo sorte nenhuma!