À minha frente estava o presidente da junta duma freguesia pequenina nos confins dos limites concelhios. Vinha com uma senhora assustada demais e humilde demais para se apresentar sozinha numa repartição. Ele, de dentro dum fato muito largo e de xadrez castanho, falava alto e com palavras "caras" enfiadas à força no discurso. Tratava-me por doutora. Não porque me respeitasse ou desrespeitasse de forma particular, mas porque a senhora tinha que ter a certeza do investimento feito ao solicitar a sua companhia. Se vinha à cidade para falar com doutoras, ainda bem que tinha vindo protegida. O senhor presidente exibia com modéstia mal treinada a sua faceta de homem do povo, igual embora iluminado.
- Eu, aqui onde me veêm, já fui um sem-abrigo!
A senhora, que desde a sua chegada ainda não tinha tirado a malinha de cima dos joelhos bem apertados e a agarrava com ambas as mãos como se estivesse com medo de um assalto naquele meio inóspito, mostrou-se impressionada. Olhou para ele como se olha para as imagens dos santos nas igrejas e exclamou um "Vejam só!".
No seguimento da conversa, foi fácil concluir que a experiência de sem-abrigo do senhor presidente se resumia a ter levado uma coça do pai aos catorze anos e ter passado alguns dias a dormir num celeiro com medo de voltar a encarar a fúria paterna.
Não posso dizer que gostei deles sem parecer paternalista nem que não gostei sem parecer snob. Por isso, não digo nada nessa matéria. É um facto que há vários mundos que só se tocam ao de leve, aqui e ali.