segunda-feira, 19 de outubro de 2009

- Quero um gelado que não tenha chocolate! - dizia o puto fofinho com uma vozinha infantil para a empregada do restaurante, perante o sorriso enternecido de todos os clientes.
- O meu pai não me deixa comer chocolate porque eu estou com uma grande diarreia! - completou ele logo a seguir, achando que se tratava de informação importante.

domingo, 18 de outubro de 2009

A minha avó, que já não está connosco, gostava de dar longos passeios a pé, a ver quintas e casas que imaginava um dia comprar. Tão longos que chegou a acontecer ver-se no meio de aldeias vizinhas que já não conhecia e ter que pedir ajuda para voltar. Um dia vinha muito indignada. Num desses passeios, ela e uma amiga, já cansadas e com calor, resolveram entrar num cafezinho, que pela descrição dela era mesmo uma taberna, para tomar uma laranjada.
Chegaram-se ambas ao balcão de pedra e esperaram. O taberneiro, ainda que rude mas num gesto de cavalheirismo que era o melhor que conseguia dar, quando viu duas senhoras bem postas e desconhecidas ali ao balcão do seu modesto estabelecimento, chamou-as com um movimento de olhos para um lugar mais recatado, lá dentro ao pé dos barris, e numa voz muito discreta para que não o ouvissem os quatro homens que jogavam dominó numa mesa com uma toalha de oleado, chegando-se a elas com um cotovelo apoiado na pedra e um pano da loiça ao ombro, perguntou:
- Branco ou tinto?

sábado, 17 de outubro de 2009

Quando apareceram as notas de dez contos (quem se lembra?), a minha avó ficou ao mesmo tempo tão maravilhada e tão consternada por ser possível, com um só papelinho, fazer as compras todas do mês, que decretou ser um pecado gastá-las. Por isso, de cada vez que o meu avô lhe dava uma, ela guardava-a dentro da terrina e, simplesmente, esquecia o assunto.
Um belo dia o meu avô, vislumbrando uma ponta de papel esverdeado a sair de dentro da terrina que decorava a mesa da sala-de-jantar, levantou a tampa curioso, e o que viu foi dinheiro suficiente para comprar um bom carro.
Quando me lembro desta história, penso como seria bom eu poder fazer isto com as actuais notas de quinhentos. Isto se elas se dignassem a aparecer por cá. E se eu tivesse uma terrina.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

- Eu não tenho balança em casa. Não preciso.
Pasmei. Se uma balança é um companheiro inseparável de qualquer mulher que não goste de ser chamada João Manuel ou Zé Augusto, nunca imaginei que justamente para ela, sempre tão preocupada com a aparência, não o fosse.
- Mas tu passas a vida a fazer dietas! Como não tens balança?!
- Não tendo. Eu não avalio o meu estado físico em kilos, é em números de roupa.
- Sim, claro. Mas isso é perigoso. Eu consigo engordar uns cinco kilos à vontade antes das minhas calças me deixarem de servir.
- Ah, mas isso és tu que usas sacos de batatas! - explicou ela - Eu só compro roupa que me fique tão justa mas tão justa que eu me veja à rasquinha para apertar! O que é que pensas? Eu só respiro em condições depois de chegar a casa e vestir um fato de treino!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A senhora falava ao telemóvel. Alto demais para o tema de certa forma delicado que estava a tratar.
- A Teresa tem dois pais! Não! Três! A Teresa tem três pais!
- (...)
- Tem três pais não tem? Eu bem sabia! É uma mãe e três pais, aponta aí!
- (...)
Quando se sentou na minha mesa explicou. Era professora e estava a falar com alguém da escola sobre os atendimentos a engarregados de educação que uma das suas colegas tinha que fazer naquele dia: Uma mãe e três pais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

À minha frente estava o presidente da junta duma freguesia pequenina nos confins dos limites concelhios. Vinha com uma senhora assustada demais e humilde demais para se apresentar sozinha numa repartição. Ele, de dentro dum fato muito largo e de xadrez castanho, falava alto e com palavras "caras" enfiadas à força no discurso. Tratava-me por doutora. Não porque me respeitasse ou desrespeitasse de forma particular, mas porque a senhora tinha que ter a certeza do investimento feito ao solicitar a sua companhia. Se vinha à cidade para falar com doutoras, ainda bem que tinha vindo protegida. O senhor presidente exibia com modéstia mal treinada a sua faceta de homem do povo, igual embora iluminado.
- Eu, aqui onde me veêm, já fui um sem-abrigo!
A senhora, que desde a sua chegada ainda não tinha tirado a malinha de cima dos joelhos bem apertados e a agarrava com ambas as mãos como se estivesse com medo de um assalto naquele meio inóspito, mostrou-se impressionada. Olhou para ele como se olha para as imagens dos santos nas igrejas e exclamou um "Vejam só!".
No seguimento da conversa, foi fácil concluir que a experiência de sem-abrigo do senhor presidente se resumia a ter levado uma coça do pai aos catorze anos e ter passado alguns dias a dormir num celeiro com medo de voltar a encarar a fúria paterna.
Não posso dizer que gostei deles sem parecer paternalista nem que não gostei sem parecer snob. Por isso, não digo nada nessa matéria. É um facto que há vários mundos que só se tocam ao de leve, aqui e ali.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tinha catorze anos quando um colega me emprestou "O Último Tango em Paris", numa edição de bolso que ele tinha roubado ao pai e já tinha rodado meio liceu. Era um livro "lido", não um livro daqueles em bom estado, bom para ter na estante da sala. Estava gasto e via-se bem que muitos dedos tinham passado por aquelas folhas e muitos olhos tinham devorado aquelas letras. Os cantos exibiam uma ligeira curvatura e as folhas tinham amarelecido. Por qualquer motivo que não sei explicar, é mais convidativo ler um livro assim com aspecto de ter acabado de sair do alfarrabista do que um com aspecto de ter acabado de sair da livraria. Mas por isso mesmo, o benemérito que emprestava o livro à comunidade escolar vivia no dilema entre voltar a arrumá-lo no sítio de onde o tinha tirado e ser apanhado ou não o voltar a arrumar e ser apanhado na mesma quando o pai se desse ao trabalho de os contar.
No dia em que me coube a mim a vez de o ler, fui para a cama mais cedo, fechei a porta à chave e disse a todos que estava muito cansada porque tinha tido dois testes. Pela noite dentro, umas vezes espantada, outras incrédula, fiz uma das minhas primeiras incursões ao mundo desconhecido dos adultos. Mas nenhuma cena me deixou tão escandalizada como aquela já clássica da manteiga. Não sei quantas vezes voltei atrás para a ler de novo, na esperança de que afinal tivesse lido mal e não fosse aquilo. Mas não, era mesmo aquilo.
No dia seguinte, ensonada pela directa, entrei às oito e meia na aula de francês. Olhei para professora quarentona e com uns óculos na ponta do nariz. Era a primeira adulta que via sem ser os meus pais, que esses não faziam de certeza absoluta aquelas coisas. Senti uma desconfiança nova.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Uma coisa que eu acho que devia ser mais divulgada, se possível com spots publicitários na televisão e na rádio, é que uma pessoa pode ter mais do que um endereço electrónico. Devia-se explicar às pessoas que podiam ter um email para a brincadeira, para os hi-fives e os blogs e outro para quando andassem "à civil". Assim, eu escusava de mandar emails a dizer, por exemplo, que uma certidão está pronta para um charmoso50, para uma diabinha_sexy ou para uma fu.dilhona.maluka. É que não havia mesmo necessidade.

domingo, 11 de outubro de 2009

(continuação)
São duas horas, uma em Portugal, já ali a uns quilómetros de distância. Sem nada que o justifique, a vida começa a desaparecer. As lojas fecham, trancam-se portões e grades, recolhem-se toldos. Cada vez há menos gente nas ruas e os que permanecem são estrangeiros. Vamos deixando de ouvir as interjeições típicas. Mira, hombre! Que aconteceu? Pensamos que vai haver um ataque terrorista com armas químicas e só não nos avisaram a nós. Sentimo-nos perdidos. Afinal não. Por volta das cinco recomeça o burburinho da cidade sem que nada de grave tenha acontecido. Acreditemos ou não, eles foram dormir. Dormir? Sim, dormir! Como nas anedotas, como nas comédias de televisão, foram fazer a siesta. E quando entramos na primeira loja ouvimos um "Hola!" sem culpa. Não um cumprimento acabrunhado de quem pede desculpa por se ter deixado adormecer a ter perdido três horas de trabalho em pleno dia, como esperávamos, mas sim um "Hola!" de quem está a começar o dia fresquinho. É estranho, muito estranho! Somos tão iguais e tão diferentes!

sábado, 10 de outubro de 2009

(continuação)
Na mesa ao lado um casal conversa baixinho, mais do que nós. Tão baixinho que não dá para distinguir a língua em que falam. Andaram às compras e têm duas mesas ocupadas com sacos vários. Uma mulher aproxima-se a pedir uma cadeira: - "Está alguien sentado ahi?" - pergunta apontando. "No." - é a resposta que obtém, com ar enjoado, da rapariga que nem se mexe para tirar os sacos, como quem diz: - "És mesmo estúpida! Não vês que isto não é alguém, são sacos?". Fazemos apostas, são portugueses! Só um português é capaz deste exercício de sarcasmo, nunca um espanhol. Para um espanhol uma cadeira é uma cadeira, ou se pode tirar ou não se pode. Um português diz em média metade daquilo que pretende dizer, o resto cabe ao receptor adivinhar. Disse-me uma vez alguém que para os espanhóis os portugueses e os galegos são tipos que quando estão numa escada, ninguém sabe se vão a subir ou a descer. Visto do outro lado, talvez seja. Lembrei-me disso ao ver esta cena. Apurámos o ouvido, muito atentos, a partir daí. Afinal não acertámos. Com muita dificuldade, conseguimos distinguir. Não são portugueses, são espanhóis. Surpresa! Excepções? Não! Como bons portugueses que somos, logo desenvolvemos uma teoria. Devem ser catalães, ou bascos. Nunca extremeños, muito menos andaluzes. Assunto resolvido com os espanhóis antipáticos da mesa ao lado.
(continua)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Duas crianças corriam uma atrás da outra por entre as mesas. Gritavam muito como se não houvesse amanhã. Ninguém ligava excepto nós, que concordávamos na necessidade de pregar dois estalos nos fedelhos para que parassem de importunar os demais. Os pais nem os viam. Sentados à volta duma mesa com muitas cervejas a que chamam cañas e alguns amigos, conversavam também animadamente, com o mesmo furor com que em Portugal se vende cobertores e colchas nas feiras com microfone, nunca numa conversa de amigos. De vez em quando ouve-se um "Mira!", um "Venga!" um "Hombre!"ou um "Vale!", mais sonoros ainda do que o resto da conversa. A empregada corre debaixo dum calor insuportável para conseguir atender toda a gente. Levanta as mesas e atira para o chão guardanapos usados e pacotes de açúcar vazios que são levados pela brisa que corre a espaços. Os pacotes de açúcar são enormes. Davam para três cafés dos nossos, mas não para os cafés con leche de quem mata toiros na arena, berra desesperado nas procissões ou atira toneladas de tomates aos vizinhos numa festa. Tudo tem que ser maior, mais dramático e mais exagerado. Acho que um espanhol chora tão desesperadamente por morrer a mãe como por perder um guarda-chuva. Ri com tanta alegria por ganhar a lotaria como por ter chegado sexta-feira.
Os miúdos pararam de correr. Estão agora a um canto a fazer negócios de "cromos", que vão separando em montinhos de "Ja lo tengo" e "No lo tengo". A lenga-lenga deve ouvir-se até ao fim da rua, mas eles não têm culpa. É impossível dizer "No lo tengo" com a discrição com que se diz "Não tenho". "No lo tengo" tem que levar um ponto de exclamação no final, e a palavra "tengo" tem que ser dita com a música dum flamenco. Imagino a lenga-lenga dos pivetes acompanhada de bater de pés no chão e palmas. Aaaaaaiiiiiiiii!!! Que vontade de rir!
(continua)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O calor do sul de Espanha... Não o sul das praias e dos resorts, mas sim o sul das cidades históricas que não têm mar. Um calor que dá a quem vem de fora a impressão de se ter instalado ali há muitos séculos, com as oliveiras e as laranjeiras, as catedrais e as mesquitas. Vencidos pelo cansaço, parámos numa esplanada à sombra duma parede branca cheia de pequenos vasos pendurados. À volta ouviam-se muitas línguas diferentes. Aqui e ali sobressaía uma mesa de nativos, sempre superiores em decibéis como é sabido. O local era agradável e fresco. Pedimos refrescos, recostámo-nos e estudámos mais uma vez o mapa para planear as visitas seguintes. De vez em quando, passava uma charrette a cavalos com turistas. Até que uma delas se deteve um pouco, o suficiente para que um dos animais aliviasse os intestinos, de forma audível e abundante. Ao retomar a marcha, deixou no meio da estreita estrada, mesmo em frente aos turistas que gozavam dum momento de relaxe, o produto resultante, que por força do calor encheu o ar dum cheiro insuportável em poucos segundos. Em poucos segundos também pousou no local um bando de pardais, para quem o "presente" representava um inesperado festim de nutrientes. Enojados e desagradados com a interrupção do seu descanso, os turistas voltavam a cara. Os nativos, esses, continuavam a conversar entre si sonoramente como se nada tivesse acontecido. E na verdade, pensando bem, nada aconteceu de relevante.