A M******** era a mais velha. Quase na idade da reforma, era ela que nos ensinava os mistérios da vida, duma forma que só as mulheres daquela geração sabiam fazer, convencidas de que o facto de terem conhecido um homem com quem casaram lhes conferia uma supremacia sobre as solteiras em matéria de assuntos obscuros. Era também ela a saber as novidades em primeira mão e a passar a informação ao grupo.
- A S**** está-se a divorciar, - disse-nos um dia à laia de bom dia - e a culpa é toda dela.
- Porquê??? Como é que sabes a vida da S****???
- Por causa do sexual (era assim que ela construía as frases). Ele contou-me várias vezes, coitadinho, que se "chegava" a ela e a cabra lhe dizia que não.
- Se calhar é porque não lhe apetecia...
- Apetecer?! Oh meninas! Se fosse por aí os desgraçados nunca faziam, porque a nós, depois de casadas, nunca nos apetece! Temos é que fazer esse sacríficio! É a nossa obrigação!
- Obrigação???!!!
- Ah pois! Vocês não pensem que a vida é um mar de rosas! Eu cá, sabe Deus, as vezes que estou cheia de nojo daquilo e a fingir que estou a gostar muito! E sabem o que é que eu faço? Conto as pecinhas do candeeiro de cristal que tenho no quarto. Já as contei umas poucas de vezes! E nunca me dá igual! Tenho ali com que me entreter até ele um dia se fartar! Mas sou uma boa mulher!