domingo, 25 de outubro de 2009

Ao longo de muitos anos a trabalhar em profissão mal paga, aprendi um sem número de expressões utilizadas para designar o estado de "sem dinheiro". Todas elas eufemismos, que é a arte de fazer de conta que o mau é bom ou pelo menos divertido.
Uma das primeiras que ouvi foi a um colega que puxava o forro dos bolsos para fora e dizia: "Tenho imenso cotão! Acho que o vou investir na bolsa antes que desvalorize!". Por essas alturas, um outro contava, uns dias antes de receber que "Tive que vir a correr porque, teso como ando, se algum cão ma apanha parado mija-me nas pernas!". Depois, num registo menos filosófico, tínhamos aquele que jurava andar, pelo menos uma semana por mês, a "tirá-las do cu com um gancho", às notas, entenda-se. Mais recentemente, aprendi que ficar nas lonas antes do dia de receber, é uma sensação equiparada à de "andar a travar no ferro".
Tudo isto, no fundo, se resume a uma só expressão: Pobrete mas alegrete.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ouvi esta numa loja dum centro comercial, entre duas amigas, e fiquei enternecida com tanta sinceridade:

- E depois ela pôs-se a mandar bocas!
- Ah foi?
- Foi! - e depois a fazer aquela voz fininha, requebrando-se, como quem imita alguém que detesta mesmo que esse alguém tenha voz de trovão - Ai não sei quê! Há gajas que são apanhadas a pôr os cornos ao marido e não sei quê!...
- Xi! E era para ti???
- Para mim não devia ser, eu nunca fui apanhada!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A M******** era a mais velha. Quase na idade da reforma, era ela que nos ensinava os mistérios da vida, duma forma que só as mulheres daquela geração sabiam fazer, convencidas de que o facto de terem conhecido um homem com quem casaram lhes conferia uma supremacia sobre as solteiras em matéria de assuntos obscuros. Era também ela a saber as novidades em primeira mão e a passar a informação ao grupo.
- A S**** está-se a divorciar, - disse-nos um dia à laia de bom dia - e a culpa é toda dela.
- Porquê??? Como é que sabes a vida da S****???
- Por causa do sexual (era assim que ela construía as frases). Ele contou-me várias vezes, coitadinho, que se "chegava" a ela e a cabra lhe dizia que não.
- Se calhar é porque não lhe apetecia...
- Apetecer?! Oh meninas! Se fosse por aí os desgraçados nunca faziam, porque a nós, depois de casadas, nunca nos apetece! Temos é que fazer esse sacríficio! É a nossa obrigação!
- Obrigação???!!!
- Ah pois! Vocês não pensem que a vida é um mar de rosas! Eu cá, sabe Deus, as vezes que estou cheia de nojo daquilo e a fingir que estou a gostar muito! E sabem o que é que eu faço? Conto as pecinhas do candeeiro de cristal que tenho no quarto. Já as contei umas poucas de vezes! E nunca me dá igual! Tenho ali com que me entreter até ele um dia se fartar! Mas sou uma boa mulher!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

- Eu nunca tomo banho quando estou com o "chico"! - afirmava muito séria a C***** enquanto passava ao de leve o pano do pó pelos armários de arquivo como quem acaricia velhos amigos.
- Oh mulher! - respondíamos nós disfarçando o nojo - Isso já nem se usa!
- Os cuidados não têm modas! A minha avó já contava de mulheres que foram tomar banho, ou lavar a cabeça, e morreram!
- C*****! De certezinha que se eu lavar a cabeça hoje hei-de morrer um dia! Mas se não lavar também morro!
- Ah! Vocês são mas é parvas. - insistia ela - eu não tomo banho "nesses dias" e ponto final!
- Mas... - exclamou uma de nós - Isso é... é... muito...
- Eu sei! - arrumou ela despachada - No fim daquilo pareço uma ovelha que se deitou na lama e depois foi para o sol. Mas não quero saber!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Lembro-me sempre dela com um sorriso e nessas alturas penso que espero que ninguém se lembre nunca de mim com um sorriso igual. Já não me lembro como se chamava mas toda a gente a tratava, menos do que carinhosamente, por "Bolinha". Aparecia nas instalações quando nós estávamos a sair, para fazer a limpeza. No pino do verão, despia-se e limpava os vidros das grandes montras em soutien e cueca, ambos beges ou brancos com muito elástico e reforços, enquanto cá fora os transeuntes ficavam a apreciar a cena única de ver a mulher do boneco Michelin a fazer a lida. Era loira e muito branca e o calor em exagero provocava-lhe alergias e irritações cutâneas constantes.
Um dia apareceu sem o sorriso habitual e confidenciou como costumava fazer (em alta voz e à frente de todos), que tinha desenvolvido uma infecção genital e não sabia como pois há três meses que já não traía o marido. Entrou na casa-de-banho e, uns minutos depois, chamou uma das nossas colegas. Ela foi expedita, cuidando que a Bolinha se tivesse sentido mal. Quando entrou, estava ela sentada na sanita, com as cuecas nos tornozelos e a saia bem subida com a ajuda de ambas as mãos. Muito preocupada perguntou-lhe em jeito de quem pede a opinião:
- Estás a ver? Tenho tudo vermelho!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A minha mãe saiu de casa disposta a comprar uma carteira nova. E levou-me com ela. Erro de estratégia. Porque depois de eu a ter ouvido dizer numas dez lojas que "Gosto muito desta. Vou dar mais uma volta e, se não encontrar nenhuma melhor, venho buscá-la", já sem paciência nenhuma, resolvi dar com a boca no trombone e dizer ao senhor da loja, muito penteadinho e de fato como se apresentavam dantes os trabalhadores do comércio, todos com ar de boas pessoas, que era mentira:
- É mentira. - disse eu quase com um sentido de missão dentro de mim - Ela diz isto em todo o lado!
A minha mãe, qual camaleão, mudou de cor para um tom que até aí só tinha nas faces graças ao "rouge", desculpou-se sem saber muito bem como e saímos para a rua onde levei a maior reprimenda da minha vida.
Achei injusto. Pois se a minha mãe, a minha própria mãe, aquela que me dava educação e não me deixava mentir nem fazer mal a ninguém, andava de loja em loja a enganar aquelas pobres almas depois delas terem desarrumado todas as carteiras que lá tinham só para lhe mostrar! E eu bem sabia como era um massacre arrumar os legos depois de brincar! A verdade tinha que ser reposta!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

- Quero um gelado que não tenha chocolate! - dizia o puto fofinho com uma vozinha infantil para a empregada do restaurante, perante o sorriso enternecido de todos os clientes.
- O meu pai não me deixa comer chocolate porque eu estou com uma grande diarreia! - completou ele logo a seguir, achando que se tratava de informação importante.

domingo, 18 de outubro de 2009

A minha avó, que já não está connosco, gostava de dar longos passeios a pé, a ver quintas e casas que imaginava um dia comprar. Tão longos que chegou a acontecer ver-se no meio de aldeias vizinhas que já não conhecia e ter que pedir ajuda para voltar. Um dia vinha muito indignada. Num desses passeios, ela e uma amiga, já cansadas e com calor, resolveram entrar num cafezinho, que pela descrição dela era mesmo uma taberna, para tomar uma laranjada.
Chegaram-se ambas ao balcão de pedra e esperaram. O taberneiro, ainda que rude mas num gesto de cavalheirismo que era o melhor que conseguia dar, quando viu duas senhoras bem postas e desconhecidas ali ao balcão do seu modesto estabelecimento, chamou-as com um movimento de olhos para um lugar mais recatado, lá dentro ao pé dos barris, e numa voz muito discreta para que não o ouvissem os quatro homens que jogavam dominó numa mesa com uma toalha de oleado, chegando-se a elas com um cotovelo apoiado na pedra e um pano da loiça ao ombro, perguntou:
- Branco ou tinto?

sábado, 17 de outubro de 2009

Quando apareceram as notas de dez contos (quem se lembra?), a minha avó ficou ao mesmo tempo tão maravilhada e tão consternada por ser possível, com um só papelinho, fazer as compras todas do mês, que decretou ser um pecado gastá-las. Por isso, de cada vez que o meu avô lhe dava uma, ela guardava-a dentro da terrina e, simplesmente, esquecia o assunto.
Um belo dia o meu avô, vislumbrando uma ponta de papel esverdeado a sair de dentro da terrina que decorava a mesa da sala-de-jantar, levantou a tampa curioso, e o que viu foi dinheiro suficiente para comprar um bom carro.
Quando me lembro desta história, penso como seria bom eu poder fazer isto com as actuais notas de quinhentos. Isto se elas se dignassem a aparecer por cá. E se eu tivesse uma terrina.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

- Eu não tenho balança em casa. Não preciso.
Pasmei. Se uma balança é um companheiro inseparável de qualquer mulher que não goste de ser chamada João Manuel ou Zé Augusto, nunca imaginei que justamente para ela, sempre tão preocupada com a aparência, não o fosse.
- Mas tu passas a vida a fazer dietas! Como não tens balança?!
- Não tendo. Eu não avalio o meu estado físico em kilos, é em números de roupa.
- Sim, claro. Mas isso é perigoso. Eu consigo engordar uns cinco kilos à vontade antes das minhas calças me deixarem de servir.
- Ah, mas isso és tu que usas sacos de batatas! - explicou ela - Eu só compro roupa que me fique tão justa mas tão justa que eu me veja à rasquinha para apertar! O que é que pensas? Eu só respiro em condições depois de chegar a casa e vestir um fato de treino!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A senhora falava ao telemóvel. Alto demais para o tema de certa forma delicado que estava a tratar.
- A Teresa tem dois pais! Não! Três! A Teresa tem três pais!
- (...)
- Tem três pais não tem? Eu bem sabia! É uma mãe e três pais, aponta aí!
- (...)
Quando se sentou na minha mesa explicou. Era professora e estava a falar com alguém da escola sobre os atendimentos a engarregados de educação que uma das suas colegas tinha que fazer naquele dia: Uma mãe e três pais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

À minha frente estava o presidente da junta duma freguesia pequenina nos confins dos limites concelhios. Vinha com uma senhora assustada demais e humilde demais para se apresentar sozinha numa repartição. Ele, de dentro dum fato muito largo e de xadrez castanho, falava alto e com palavras "caras" enfiadas à força no discurso. Tratava-me por doutora. Não porque me respeitasse ou desrespeitasse de forma particular, mas porque a senhora tinha que ter a certeza do investimento feito ao solicitar a sua companhia. Se vinha à cidade para falar com doutoras, ainda bem que tinha vindo protegida. O senhor presidente exibia com modéstia mal treinada a sua faceta de homem do povo, igual embora iluminado.
- Eu, aqui onde me veêm, já fui um sem-abrigo!
A senhora, que desde a sua chegada ainda não tinha tirado a malinha de cima dos joelhos bem apertados e a agarrava com ambas as mãos como se estivesse com medo de um assalto naquele meio inóspito, mostrou-se impressionada. Olhou para ele como se olha para as imagens dos santos nas igrejas e exclamou um "Vejam só!".
No seguimento da conversa, foi fácil concluir que a experiência de sem-abrigo do senhor presidente se resumia a ter levado uma coça do pai aos catorze anos e ter passado alguns dias a dormir num celeiro com medo de voltar a encarar a fúria paterna.
Não posso dizer que gostei deles sem parecer paternalista nem que não gostei sem parecer snob. Por isso, não digo nada nessa matéria. É um facto que há vários mundos que só se tocam ao de leve, aqui e ali.