sábado, 31 de outubro de 2009

-Eu estou a cargo duma menina que está a estudar mas o pai dela é burro e não fala. O que faço?

Isto foi-me perguntado assim, mesmo com estas palavras e esta simplicidade, com um profundo sotaque angolano, e no fim a minha interlocutora olhou para mim e ficou à espera duma resposta como se me tivesse perguntado as horas.
É nestas alturas que me apetece ser eu a perguntar: O que faço?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A senhora aproximou-se da minha mesa e, muito compenetrada do seu papel, perguntou-me:
- Dê-me uma informação por favor. A polícia mandou-me parar, pediu-me a carta de condução, mas como ela estava "ranhosada", disse-me para a vir trocar. É aqui?
Eu, achando que não era muito elegante perguntar-lhe o que entendia ela por carta "ranhosada", pedi-lhe para a ver. Estava danificada. Por momentos ainda pensei que seria rasurada, começava pela mesma letra... Mas não. Estava danificada. Como se pode trocar essa palavra por "ranhosada"?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Na esplanada daquele café de bairro, pouco cuidado e também não muito limpo, onde juramos que não vamos consumir nada que não venha já embalado, na mesa ao nosso lado, conversavam animadamente dois rapazes jovens. Um deles era brasileiro e notava-se no seu discurso algum nível de instrução. O outro era português. Falavam sobre planos para o futuro, tema de que falamos geralmente de peito aberto quando temos aquela idade. O primeiro dizia que só queria estar em Portugal mais alguns anos, para amealhar algum dinheiro e se estabelecer no seu país como empresário. Até que afirmou uma coisa que foi a que verdadeiramente me levou a considerar aquele momento singular. Disse que tencionava abrir um café, assim num conceito europeu, como aquele em que estávamos. Para mim vulgaríssimo. A gente senta-se, o empregado chega com uma bandeja na mão, pergunta o que queremos, volta para dentro e regressa depois com o pedido. A partir daí, uma pergunta ficou a bater na minha cabeça: Como são os cafés no Brasil? Sim. Se não são assim, são como? Concluí que tenho viajado pouco.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conhecíamo-nos há pouco tempo. Por isso, a nossa relação ainda era feita de gentilezas e formalidades. Ela era mulata, filha dum militar português e duma negrinha duma sanzala angolana. De pele escura demais para ser branca e clara demais para ser negra, tinha um nariz aquilino a contrastar com uma farta cabeleira em carapinha. Podia dizer-se que era uma mulher bonita sim. Era mãe solteira. Também fruto de um envolvimento com um militar em missão. Casado. Condição que ela só descobriu após alguns meses de gravidez. Ele voltou para a família e ela jurou que odiaria homens para todo o sempre.
Um dia, mostrou-me uma fotografia onde apareciam várias meninas todas tom de lixívia. Algumas loiras outras nem por isso. No meio delas, uma criança de olhar negro muito brilhante e pele escura fitava-me com uma farta cabeleira em carapinha.
- Adivinha qual é a minha filha - disse ela.
Eu apontei imediatamente a pequena mulatinha, imbuída do mesmo sentimento de lógica com que afirmamos que dois e dois são quatro.
- É esta! - respondi.
De repente, o olhar da Sofia (era assim que ela se chamava) toldou-se duma raiva que eu ainda não lhe tinha visto.
- Porquê? - vociferou furiosa - Porque é que assumiste imediatamente que a minha filha é preta? O meu pai era branco! Ela podia sê-lo também! Perfeitamente!
- Mas - respondi confusa - a tua filha não é aquela?
- É! Mas podia perfeitamente ser uma das outras!
- Bem, foi só um palpite. Se não fosse tu dizias-me que não era e pronto. Se eu te mostrasse uma fotografia cheia de crianças negras e uma branca e te perguntasse qual era a minha filha, o que é que tu dizias?
- Pois fica sabendo que tu até podes vir a ter uma filha preta! Tu não sabes os antecedentes da tua família. Ou sabes?
- Oh Sofia, na boa! Quero lá saber da cor das crianças que posso ou não vir a ter, mulher!
A conversa continuou por mais alguns minutos, nos quais se trocaram mais alguns argumentos surreais. A possibilidade de virmos a ser qualquer coisa mais do que conhecidas, essa, ficou por aí.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Íamos ter uma visita de estudo à maior fábrica dos arredores e as professoras, tomando-nos por vegetais, incentivaram-nos continuamente nas aulas anteriores:
- Oh meninos, vocês aproveitem! Façam perguntas! Mostrem curiosidade!
- Então não? - pensava eu cá com os botões da minha camisa de flanela à ideóloga da revolução - Claro que faço!
Eu já as tinha todas fisgadas, que não era parva, não perdia pitada das novas tendências e via televisão todos os dias. E no dia da visita lá estava eu, na linha da frente, de caderninho em punho, pronta para me tornar mártir da verdade e da defesa dos mais fracos como no dia em que tinha ido comprar uma carteira com a minha mãe.
No final da ronda em que me mantive caladinha, o senhor que nos guiou mandou-nos fazer uma rodinha à volta dele e fez o convite de circunstância:
- Alguém quer pôr alguma questão?
Eu queria. Várias.
- Qual é a diferença entre o ordenado mais baixo e o mais alto dos trabalhadores desta fábrica?
- Qual a média dos ordenados das mulheres? E a dos homens?
- Os trabalhadores têm direito a férias e folgas?
E a professora de português que tinha ido connosco, coitadinha, tão frágil e delicada, a pôr as mãos à cabeça e a dizer num queixume sumido:
- Oh D...!... Francamente!...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

- Sabe... - justificava-se ele humildemente por não ter sido capaz de explicar ao que vinha e só muito a custo termos conseguido descobrir - eu não tenho estudos nenhuns.
E depois, como que em jeito de explicação:
- Eu sou de 1966...
Disse aquilo como se estivesse a falar dum ano terrível, que tivesse ficado famoso pelas más colheitas e por tragédias terríveis que não permitiram que nada bom tivesse germinado e crescido.
Ninguém entendeu muito bem. Mas toda a gente achou que era melhor não entrar em pormenores.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ao longo de muitos anos a trabalhar em profissão mal paga, aprendi um sem número de expressões utilizadas para designar o estado de "sem dinheiro". Todas elas eufemismos, que é a arte de fazer de conta que o mau é bom ou pelo menos divertido.
Uma das primeiras que ouvi foi a um colega que puxava o forro dos bolsos para fora e dizia: "Tenho imenso cotão! Acho que o vou investir na bolsa antes que desvalorize!". Por essas alturas, um outro contava, uns dias antes de receber que "Tive que vir a correr porque, teso como ando, se algum cão ma apanha parado mija-me nas pernas!". Depois, num registo menos filosófico, tínhamos aquele que jurava andar, pelo menos uma semana por mês, a "tirá-las do cu com um gancho", às notas, entenda-se. Mais recentemente, aprendi que ficar nas lonas antes do dia de receber, é uma sensação equiparada à de "andar a travar no ferro".
Tudo isto, no fundo, se resume a uma só expressão: Pobrete mas alegrete.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ouvi esta numa loja dum centro comercial, entre duas amigas, e fiquei enternecida com tanta sinceridade:

- E depois ela pôs-se a mandar bocas!
- Ah foi?
- Foi! - e depois a fazer aquela voz fininha, requebrando-se, como quem imita alguém que detesta mesmo que esse alguém tenha voz de trovão - Ai não sei quê! Há gajas que são apanhadas a pôr os cornos ao marido e não sei quê!...
- Xi! E era para ti???
- Para mim não devia ser, eu nunca fui apanhada!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A M******** era a mais velha. Quase na idade da reforma, era ela que nos ensinava os mistérios da vida, duma forma que só as mulheres daquela geração sabiam fazer, convencidas de que o facto de terem conhecido um homem com quem casaram lhes conferia uma supremacia sobre as solteiras em matéria de assuntos obscuros. Era também ela a saber as novidades em primeira mão e a passar a informação ao grupo.
- A S**** está-se a divorciar, - disse-nos um dia à laia de bom dia - e a culpa é toda dela.
- Porquê??? Como é que sabes a vida da S****???
- Por causa do sexual (era assim que ela construía as frases). Ele contou-me várias vezes, coitadinho, que se "chegava" a ela e a cabra lhe dizia que não.
- Se calhar é porque não lhe apetecia...
- Apetecer?! Oh meninas! Se fosse por aí os desgraçados nunca faziam, porque a nós, depois de casadas, nunca nos apetece! Temos é que fazer esse sacríficio! É a nossa obrigação!
- Obrigação???!!!
- Ah pois! Vocês não pensem que a vida é um mar de rosas! Eu cá, sabe Deus, as vezes que estou cheia de nojo daquilo e a fingir que estou a gostar muito! E sabem o que é que eu faço? Conto as pecinhas do candeeiro de cristal que tenho no quarto. Já as contei umas poucas de vezes! E nunca me dá igual! Tenho ali com que me entreter até ele um dia se fartar! Mas sou uma boa mulher!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

- Eu nunca tomo banho quando estou com o "chico"! - afirmava muito séria a C***** enquanto passava ao de leve o pano do pó pelos armários de arquivo como quem acaricia velhos amigos.
- Oh mulher! - respondíamos nós disfarçando o nojo - Isso já nem se usa!
- Os cuidados não têm modas! A minha avó já contava de mulheres que foram tomar banho, ou lavar a cabeça, e morreram!
- C*****! De certezinha que se eu lavar a cabeça hoje hei-de morrer um dia! Mas se não lavar também morro!
- Ah! Vocês são mas é parvas. - insistia ela - eu não tomo banho "nesses dias" e ponto final!
- Mas... - exclamou uma de nós - Isso é... é... muito...
- Eu sei! - arrumou ela despachada - No fim daquilo pareço uma ovelha que se deitou na lama e depois foi para o sol. Mas não quero saber!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Lembro-me sempre dela com um sorriso e nessas alturas penso que espero que ninguém se lembre nunca de mim com um sorriso igual. Já não me lembro como se chamava mas toda a gente a tratava, menos do que carinhosamente, por "Bolinha". Aparecia nas instalações quando nós estávamos a sair, para fazer a limpeza. No pino do verão, despia-se e limpava os vidros das grandes montras em soutien e cueca, ambos beges ou brancos com muito elástico e reforços, enquanto cá fora os transeuntes ficavam a apreciar a cena única de ver a mulher do boneco Michelin a fazer a lida. Era loira e muito branca e o calor em exagero provocava-lhe alergias e irritações cutâneas constantes.
Um dia apareceu sem o sorriso habitual e confidenciou como costumava fazer (em alta voz e à frente de todos), que tinha desenvolvido uma infecção genital e não sabia como pois há três meses que já não traía o marido. Entrou na casa-de-banho e, uns minutos depois, chamou uma das nossas colegas. Ela foi expedita, cuidando que a Bolinha se tivesse sentido mal. Quando entrou, estava ela sentada na sanita, com as cuecas nos tornozelos e a saia bem subida com a ajuda de ambas as mãos. Muito preocupada perguntou-lhe em jeito de quem pede a opinião:
- Estás a ver? Tenho tudo vermelho!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A minha mãe saiu de casa disposta a comprar uma carteira nova. E levou-me com ela. Erro de estratégia. Porque depois de eu a ter ouvido dizer numas dez lojas que "Gosto muito desta. Vou dar mais uma volta e, se não encontrar nenhuma melhor, venho buscá-la", já sem paciência nenhuma, resolvi dar com a boca no trombone e dizer ao senhor da loja, muito penteadinho e de fato como se apresentavam dantes os trabalhadores do comércio, todos com ar de boas pessoas, que era mentira:
- É mentira. - disse eu quase com um sentido de missão dentro de mim - Ela diz isto em todo o lado!
A minha mãe, qual camaleão, mudou de cor para um tom que até aí só tinha nas faces graças ao "rouge", desculpou-se sem saber muito bem como e saímos para a rua onde levei a maior reprimenda da minha vida.
Achei injusto. Pois se a minha mãe, a minha própria mãe, aquela que me dava educação e não me deixava mentir nem fazer mal a ninguém, andava de loja em loja a enganar aquelas pobres almas depois delas terem desarrumado todas as carteiras que lá tinham só para lhe mostrar! E eu bem sabia como era um massacre arrumar os legos depois de brincar! A verdade tinha que ser reposta!