sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Quando cheguei ao ciclo preparatório tinha uma disciplina chamada matemática que, segundo os adultos da minha família, era uma coisa moderna. Foi então com bastante expectativa que assisti pela primeira vez a uma dessas aulas. Coisas modernas era o que a gente queria, porque de ensaios de rancho e de catequese já estávamos mesmo fartinhos. E na verdade as suspeitas confirmaram-se. O professor passou uma hora inteirinha a desenhar rodas no quadro e a dizer que aquilo eram conjuntos. Um conjunto de cinco bolinhas, outro de três estrelinhas, depois mais outro de dez triângulos... "É canja!" - pensei eu, habituada a problemas que metiam sempre agricultores que plantavam batatas e as vendiam e nós tínhamos que adivinhar por quanto e quantos quilos - "Isto vai ser como decorar o Pai Nosso na catequese, ou ainda mais fácil!"
Bem me enganei! Acabada a treta dos conjuntos vieram outras, mais complicadas e ainda mais inúteis do que as das colheitas agrícolas!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Na minha escola havia prémios para as melhores alunas no final do ano e o podium era decidido pelo número de vintes que se tinha tido nos ditados e nos exercícios de aritmética (nesse tempo ainda não se chamava matemática). Os desenhos, os lavores e as redacções não contavam porque estavam a meio caminho entre o trabalho e a brincadeira. Mesmo assim, só se podia fazer redacções sobre a vaca, a primavera, as férias grandes e o Natal, os lavores só variavam entre as colagens (uma modernice), as construções com fósforos, o tricot e o ponto-de-cruz, e os desenhos só se faziam quando a professora tinha acordado muito bem disposta.
Houve um ano em que, por um mísero vinte, um único, fiquei em segundo lugar e ganhei um livro da Anita em vez dum globo terrestre que rodava e tinha os nomes dos países e as capitais. Acho que foi na segunda classe. Como eu gostava de decorar capitais! Acho que era mesmo a coisa que eu mais gostava de decorar a seguir aos reis.
Nesse ano senti-me derrotada como se me tivessem posto umas orelhas de burro e me tivessem mandado para trás da porta virada para a parede durante uma hora inteira. Ainda que no tempo em que eu andei na escola já não se pusesse as orelhas de burro a ninguém. "É anti-pedagógico" - explicou-nos uma vez a professora. Por isso limitava-se a pôr-nos de castigo viradas para a parede que não tinha janela sem nos podermos mexer nem olhar para trás.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A avozinha, sem ninguém lhe perguntar nada mas entusiasmada pelo calor da festa de aniversário, resolveu desvendar um dos segredos mais bem guardados da família:
- Sabes quantos anos faço hoje? Setenta e nove!
A neta manteve-se calada.
- Sei o que deves estar a pensar - continuou a avó - deves estar a pensar que eu sou mesmo velha!
- Não - pensou a neta - estou a pensar que és mesmo mentirosa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Foi a minha segunda experiência literária. Depois dum conto que escrevi como trabalho de casa na disciplina de português, resolvi abalançar-me numa novela. E mais uma vez também, num tema de que não sabia nada, não tinha qualquer experiência nem fazia a menor ideia do que fosse. Assim, de peito aberto e com catorze ou quinze anos de existência sobre o planeta, compenetradíssima no meu papel de escritora, inventei e passei ao papel uma história de adultério. Melhor, achava eu, que as do Eça. Era sobre um homem que contratava um detective particular para seguir a mulher, que ele desconfiava ser-lhe infiel. No fim, descobria-se que ela andava justamente com o detective contratado. Escrevi tudo num caderninho e achei-me um pequeno génio. Depois escondi com muito cuidado. Se alguém lá em casa lesse aquilo ia ser o fim do mundo.
Meu Deus, porque é que eu não guardei estas coisas?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estão a ver aquelas histórias entre o número de circo em que o palhaço pobre tropeça e cai e a anedota da Dica da Semana? Aquela situação clássica em que uma pessoa muito, mas mesmo muito surda, entende tudo ao contrário? Não tem piada nenhuma, dizem vocês. Pois não, respondo eu. Mas isso é na teoria. Na prática, quando perguntei ao senhor idoso à minha frente "Onde é a sua casa?", e ele, com a mão em concha na orelha me respondeu "O quê? Se eu já fui à caça?", eu tive que pedir licença, retirar-me lá para trás e dar com a cabeça na parede até perder a vontade de rir.

domingo, 1 de novembro de 2009

Um dos meus tios jogava futebol num clube da terceira divisão. Eu sabia que ele jogava porque ouvia as conversas e via-o de vez em quando com um penso na cabeça ou um olho negro. Ele explicava, ou que tinha caído, ou que tinha levado com uma pedra atirada da assistência e que se destinava ao árbitro. Essa parte eu percebia, e ia concluindo que o futebol não tinha tanta piada como brincar com as minhas bonecas. A parte que eu nunca entendia era quando ouvia alguém perguntar-lhe:
- Jogaram em casa hoje?
E ele respondia:
- Jogámos.
Como é que a minha avó, tão ciosa das suas coisas e da limpeza e da arrumação, deixava uma quantidade de matulões entrar assim à vontade e jogar à bola dentro da casa dela?

sábado, 31 de outubro de 2009

-Eu estou a cargo duma menina que está a estudar mas o pai dela é burro e não fala. O que faço?

Isto foi-me perguntado assim, mesmo com estas palavras e esta simplicidade, com um profundo sotaque angolano, e no fim a minha interlocutora olhou para mim e ficou à espera duma resposta como se me tivesse perguntado as horas.
É nestas alturas que me apetece ser eu a perguntar: O que faço?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A senhora aproximou-se da minha mesa e, muito compenetrada do seu papel, perguntou-me:
- Dê-me uma informação por favor. A polícia mandou-me parar, pediu-me a carta de condução, mas como ela estava "ranhosada", disse-me para a vir trocar. É aqui?
Eu, achando que não era muito elegante perguntar-lhe o que entendia ela por carta "ranhosada", pedi-lhe para a ver. Estava danificada. Por momentos ainda pensei que seria rasurada, começava pela mesma letra... Mas não. Estava danificada. Como se pode trocar essa palavra por "ranhosada"?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Na esplanada daquele café de bairro, pouco cuidado e também não muito limpo, onde juramos que não vamos consumir nada que não venha já embalado, na mesa ao nosso lado, conversavam animadamente dois rapazes jovens. Um deles era brasileiro e notava-se no seu discurso algum nível de instrução. O outro era português. Falavam sobre planos para o futuro, tema de que falamos geralmente de peito aberto quando temos aquela idade. O primeiro dizia que só queria estar em Portugal mais alguns anos, para amealhar algum dinheiro e se estabelecer no seu país como empresário. Até que afirmou uma coisa que foi a que verdadeiramente me levou a considerar aquele momento singular. Disse que tencionava abrir um café, assim num conceito europeu, como aquele em que estávamos. Para mim vulgaríssimo. A gente senta-se, o empregado chega com uma bandeja na mão, pergunta o que queremos, volta para dentro e regressa depois com o pedido. A partir daí, uma pergunta ficou a bater na minha cabeça: Como são os cafés no Brasil? Sim. Se não são assim, são como? Concluí que tenho viajado pouco.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conhecíamo-nos há pouco tempo. Por isso, a nossa relação ainda era feita de gentilezas e formalidades. Ela era mulata, filha dum militar português e duma negrinha duma sanzala angolana. De pele escura demais para ser branca e clara demais para ser negra, tinha um nariz aquilino a contrastar com uma farta cabeleira em carapinha. Podia dizer-se que era uma mulher bonita sim. Era mãe solteira. Também fruto de um envolvimento com um militar em missão. Casado. Condição que ela só descobriu após alguns meses de gravidez. Ele voltou para a família e ela jurou que odiaria homens para todo o sempre.
Um dia, mostrou-me uma fotografia onde apareciam várias meninas todas tom de lixívia. Algumas loiras outras nem por isso. No meio delas, uma criança de olhar negro muito brilhante e pele escura fitava-me com uma farta cabeleira em carapinha.
- Adivinha qual é a minha filha - disse ela.
Eu apontei imediatamente a pequena mulatinha, imbuída do mesmo sentimento de lógica com que afirmamos que dois e dois são quatro.
- É esta! - respondi.
De repente, o olhar da Sofia (era assim que ela se chamava) toldou-se duma raiva que eu ainda não lhe tinha visto.
- Porquê? - vociferou furiosa - Porque é que assumiste imediatamente que a minha filha é preta? O meu pai era branco! Ela podia sê-lo também! Perfeitamente!
- Mas - respondi confusa - a tua filha não é aquela?
- É! Mas podia perfeitamente ser uma das outras!
- Bem, foi só um palpite. Se não fosse tu dizias-me que não era e pronto. Se eu te mostrasse uma fotografia cheia de crianças negras e uma branca e te perguntasse qual era a minha filha, o que é que tu dizias?
- Pois fica sabendo que tu até podes vir a ter uma filha preta! Tu não sabes os antecedentes da tua família. Ou sabes?
- Oh Sofia, na boa! Quero lá saber da cor das crianças que posso ou não vir a ter, mulher!
A conversa continuou por mais alguns minutos, nos quais se trocaram mais alguns argumentos surreais. A possibilidade de virmos a ser qualquer coisa mais do que conhecidas, essa, ficou por aí.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Íamos ter uma visita de estudo à maior fábrica dos arredores e as professoras, tomando-nos por vegetais, incentivaram-nos continuamente nas aulas anteriores:
- Oh meninos, vocês aproveitem! Façam perguntas! Mostrem curiosidade!
- Então não? - pensava eu cá com os botões da minha camisa de flanela à ideóloga da revolução - Claro que faço!
Eu já as tinha todas fisgadas, que não era parva, não perdia pitada das novas tendências e via televisão todos os dias. E no dia da visita lá estava eu, na linha da frente, de caderninho em punho, pronta para me tornar mártir da verdade e da defesa dos mais fracos como no dia em que tinha ido comprar uma carteira com a minha mãe.
No final da ronda em que me mantive caladinha, o senhor que nos guiou mandou-nos fazer uma rodinha à volta dele e fez o convite de circunstância:
- Alguém quer pôr alguma questão?
Eu queria. Várias.
- Qual é a diferença entre o ordenado mais baixo e o mais alto dos trabalhadores desta fábrica?
- Qual a média dos ordenados das mulheres? E a dos homens?
- Os trabalhadores têm direito a férias e folgas?
E a professora de português que tinha ido connosco, coitadinha, tão frágil e delicada, a pôr as mãos à cabeça e a dizer num queixume sumido:
- Oh D...!... Francamente!...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

- Sabe... - justificava-se ele humildemente por não ter sido capaz de explicar ao que vinha e só muito a custo termos conseguido descobrir - eu não tenho estudos nenhuns.
E depois, como que em jeito de explicação:
- Eu sou de 1966...
Disse aquilo como se estivesse a falar dum ano terrível, que tivesse ficado famoso pelas más colheitas e por tragédias terríveis que não permitiram que nada bom tivesse germinado e crescido.
Ninguém entendeu muito bem. Mas toda a gente achou que era melhor não entrar em pormenores.