terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma história que eu sempre achei estúpida mas não podia dizer era a de S. Martinho. Naquele tempo não podíamos dizer que achávamos imbecil uma coisa que vinha no nosso livro de leitura. Mas a mim, ninguém metia na cabeça que Deus era uma pessoa de bem e muito menos que tivesse os cinco litrinhos aferidos. Cabe na cabeça de alguém que quem tem poder para tudo e mais alguma coisa...

a) deixe que faça frio e chova em cima dum mendigo quase nu?
b) espere que um cavaleiro corte ao meio uma capa que deve ter sido super-cara para logo a seguir fazer parar a chuva e abrir o sol?

Deus anda a gozar com isto tudo? Se fosse filho do meu pai e da minha mãe, já estava a levar um ralhete! Dos grandes!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A minha mãe estava a arranjar o jantar.
- Mãe! O que é isso?
- Carapau.
- De corrida?
- O quê?!
- Se esse carapau era de corrida.
- Não...
- Os de corrida têm um número nas costas?
- Não há carapaus de corrida!
Não foi exactamente como no dia em que descobri que não havia Pai Natal, mas também foi com um certo grau de decepção que descobri que o animal de que o meu pai mais falava... não existia.

domingo, 8 de novembro de 2009

Perguntei à minha mãe:
- Quando for grande vou ter bilau? - Bilau era a palavra usada para pénis lá em casa.
- Não! - respondeu a minha mãe horrorizada, talvez a antecipar o estigma de ter uma filha que viesse a querer ser camionista.
- Mas o P**** tem! - retorqui, implorando por uma explicação lógica para as diferenças óbvias entre mim e o meu irmão mais novo.
- Mas tu não!
As crianças às vezes são umas incompreendidas. Eu só queria mesmo perceber se estava muito atrasada no desenvolvimento em relação ao meu irmão porque ele tinha nascido há poucos meses e tinha bilau, enquanto que eu já tinha quase cinco anos e ainda não tinha!

sábado, 7 de novembro de 2009

Passei por uma fase em que queria ser a Anita. Sim, a Anita das histórias, que tinha a vida que todas as crianças desejavam. Ia sozinha à feira popular, com dinheiro no bolso, ia à praia, deixavam-na em casa à vontade para mexer em tudo, incluindo o fogão e demais electrodomésticos, e à vontade para se vingar como quisesse do irmãozinho mais novo. A Anita tinha um jardim só dela e aulas de dança onde fazia pontas sem nenhum esforço. Tinha uma quinta com porquinhos que não cheiravam mal e patos que não corriam como loucos atrás das pessoas. Ia às compras sem a mãe, o sonho mais louco que se podia concretizar...
Sim, a seguir a aparecer-me o Peter Pan à janela a convidar-me para ir à terra do Nunca, o que eu mais queria era mesmo ser a Anita!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Quando cheguei ao ciclo preparatório tinha uma disciplina chamada matemática que, segundo os adultos da minha família, era uma coisa moderna. Foi então com bastante expectativa que assisti pela primeira vez a uma dessas aulas. Coisas modernas era o que a gente queria, porque de ensaios de rancho e de catequese já estávamos mesmo fartinhos. E na verdade as suspeitas confirmaram-se. O professor passou uma hora inteirinha a desenhar rodas no quadro e a dizer que aquilo eram conjuntos. Um conjunto de cinco bolinhas, outro de três estrelinhas, depois mais outro de dez triângulos... "É canja!" - pensei eu, habituada a problemas que metiam sempre agricultores que plantavam batatas e as vendiam e nós tínhamos que adivinhar por quanto e quantos quilos - "Isto vai ser como decorar o Pai Nosso na catequese, ou ainda mais fácil!"
Bem me enganei! Acabada a treta dos conjuntos vieram outras, mais complicadas e ainda mais inúteis do que as das colheitas agrícolas!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Na minha escola havia prémios para as melhores alunas no final do ano e o podium era decidido pelo número de vintes que se tinha tido nos ditados e nos exercícios de aritmética (nesse tempo ainda não se chamava matemática). Os desenhos, os lavores e as redacções não contavam porque estavam a meio caminho entre o trabalho e a brincadeira. Mesmo assim, só se podia fazer redacções sobre a vaca, a primavera, as férias grandes e o Natal, os lavores só variavam entre as colagens (uma modernice), as construções com fósforos, o tricot e o ponto-de-cruz, e os desenhos só se faziam quando a professora tinha acordado muito bem disposta.
Houve um ano em que, por um mísero vinte, um único, fiquei em segundo lugar e ganhei um livro da Anita em vez dum globo terrestre que rodava e tinha os nomes dos países e as capitais. Acho que foi na segunda classe. Como eu gostava de decorar capitais! Acho que era mesmo a coisa que eu mais gostava de decorar a seguir aos reis.
Nesse ano senti-me derrotada como se me tivessem posto umas orelhas de burro e me tivessem mandado para trás da porta virada para a parede durante uma hora inteira. Ainda que no tempo em que eu andei na escola já não se pusesse as orelhas de burro a ninguém. "É anti-pedagógico" - explicou-nos uma vez a professora. Por isso limitava-se a pôr-nos de castigo viradas para a parede que não tinha janela sem nos podermos mexer nem olhar para trás.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A avozinha, sem ninguém lhe perguntar nada mas entusiasmada pelo calor da festa de aniversário, resolveu desvendar um dos segredos mais bem guardados da família:
- Sabes quantos anos faço hoje? Setenta e nove!
A neta manteve-se calada.
- Sei o que deves estar a pensar - continuou a avó - deves estar a pensar que eu sou mesmo velha!
- Não - pensou a neta - estou a pensar que és mesmo mentirosa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Foi a minha segunda experiência literária. Depois dum conto que escrevi como trabalho de casa na disciplina de português, resolvi abalançar-me numa novela. E mais uma vez também, num tema de que não sabia nada, não tinha qualquer experiência nem fazia a menor ideia do que fosse. Assim, de peito aberto e com catorze ou quinze anos de existência sobre o planeta, compenetradíssima no meu papel de escritora, inventei e passei ao papel uma história de adultério. Melhor, achava eu, que as do Eça. Era sobre um homem que contratava um detective particular para seguir a mulher, que ele desconfiava ser-lhe infiel. No fim, descobria-se que ela andava justamente com o detective contratado. Escrevi tudo num caderninho e achei-me um pequeno génio. Depois escondi com muito cuidado. Se alguém lá em casa lesse aquilo ia ser o fim do mundo.
Meu Deus, porque é que eu não guardei estas coisas?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estão a ver aquelas histórias entre o número de circo em que o palhaço pobre tropeça e cai e a anedota da Dica da Semana? Aquela situação clássica em que uma pessoa muito, mas mesmo muito surda, entende tudo ao contrário? Não tem piada nenhuma, dizem vocês. Pois não, respondo eu. Mas isso é na teoria. Na prática, quando perguntei ao senhor idoso à minha frente "Onde é a sua casa?", e ele, com a mão em concha na orelha me respondeu "O quê? Se eu já fui à caça?", eu tive que pedir licença, retirar-me lá para trás e dar com a cabeça na parede até perder a vontade de rir.

domingo, 1 de novembro de 2009

Um dos meus tios jogava futebol num clube da terceira divisão. Eu sabia que ele jogava porque ouvia as conversas e via-o de vez em quando com um penso na cabeça ou um olho negro. Ele explicava, ou que tinha caído, ou que tinha levado com uma pedra atirada da assistência e que se destinava ao árbitro. Essa parte eu percebia, e ia concluindo que o futebol não tinha tanta piada como brincar com as minhas bonecas. A parte que eu nunca entendia era quando ouvia alguém perguntar-lhe:
- Jogaram em casa hoje?
E ele respondia:
- Jogámos.
Como é que a minha avó, tão ciosa das suas coisas e da limpeza e da arrumação, deixava uma quantidade de matulões entrar assim à vontade e jogar à bola dentro da casa dela?

sábado, 31 de outubro de 2009

-Eu estou a cargo duma menina que está a estudar mas o pai dela é burro e não fala. O que faço?

Isto foi-me perguntado assim, mesmo com estas palavras e esta simplicidade, com um profundo sotaque angolano, e no fim a minha interlocutora olhou para mim e ficou à espera duma resposta como se me tivesse perguntado as horas.
É nestas alturas que me apetece ser eu a perguntar: O que faço?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A senhora aproximou-se da minha mesa e, muito compenetrada do seu papel, perguntou-me:
- Dê-me uma informação por favor. A polícia mandou-me parar, pediu-me a carta de condução, mas como ela estava "ranhosada", disse-me para a vir trocar. É aqui?
Eu, achando que não era muito elegante perguntar-lhe o que entendia ela por carta "ranhosada", pedi-lhe para a ver. Estava danificada. Por momentos ainda pensei que seria rasurada, começava pela mesma letra... Mas não. Estava danificada. Como se pode trocar essa palavra por "ranhosada"?