terça-feira, 17 de novembro de 2009

Depois de aconselhar uma senhora sobre a melhor estratégia para resolver um problema burocrático que lhe atormentava a vida, ela mostrou-se agradecida e comentou:
- A senhora está mais apática nestas coisas não é?
Surpreendida, tentei entender:
- Desculpe?!
- Mais apática - repetiu ela, e depois explicou uma vez que era óbvio que eu não atingia aquele nível mais elevado de vocabulário - Quer dizer que está mais a par!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Telefonou-me uma senhora que me perguntou se me podia fazer um inquérito de satisfação de cliente. Era do concessionário da marca do carro que eu comprei há algum tempo. Acedi. Com pouca vontade mas acedi. Tenho por hábito pelo menos tentar respeitar o trabalho dos outros. Ela fez-me talvez umas vinte perguntas, não menos, e no fim de cada uma delas, religiosamente, colocou-me todas as hipóteses de resposta: "Plenamente satisfeito, muito satisfeito, satisfeito, pouco satisfeito, nada satisfeito". Eu tentei calcular mentalmente o número de vezes que aquela mulher tem que pronunciar a palavra "Satisfeito" num dia de trabalho. Na verdade, para ela, a palavra "satisfeito" deve estar completamente esvaziada de sentido, de tanto a repetir. Como se fosse um conjunto de sílabas sem significado algum.
Pensei que finalmente tinha encontrado alguém com um emprego pior que o do papel higiénico.

domingo, 15 de novembro de 2009

Num dos momentos menos fáceis da minha vida, daqueles em que tive que puxar pela cabeça e fazer qualquer coisa para pagar as contas, dediquei-me ao já velho negócio das explicações. Tinha o décimo segundo ano mais um ano de universidade em letras, não tinha sido má aluna, tinha aprendido qualquer coisa, talvez pudesse também ensinar qualquer coisa aos outros. E foi assim que decidi colocar um anúncio numa montra. Os clientes não tardaram a aparecer mas, para meu desespero, queriam explicações de matemática, aquela coisa pavorosa que tanto me tinha custado a levar sem dor até ao nono ano. Mas como é uso dizer-se, a necessidade aguça o engenho. Aceitei. Peguei nos livros de matemática e fiz-me à tarefa de aprender sozinha. Eu, os meus botões e o meu desespero, no meio de fórmulas e algarismos, a tentar compreender algo que antes só tinha compreendido pela rama dos dez valores. E mal.
Ao fim de alguns dias já tinha conseguido desvendar alguns dos diabólicos segredos da lógica. E ensinei-os aos meus pupilos seguindo os mesmos raciocínios que eu própria tinha feito para lá chegar, cheios de aproximações ao mundo concreto. Na verdade, foi um sucesso. Com algumas aulas minhas qualquer miúdo conseguia, se não ser um Einstein, pelo menos tirar notas positivas nos testes.
Foi nessa fase da minha vida que concluí brilhantemente que o problema dos professores de matemática... é saberem demasiado daquilo.

sábado, 14 de novembro de 2009

A minha profissão assemelha-se muitas vezes à de barman, mas sem álcool. Quando uma pessoa nos abre o coração e a vida sem o auxílio do torpor que a bebida causa, é porque o quer fazer. Porque de alguma maneira estranha confiou em nós para nos contar um segredo, ou uma angústia, ou uma alegria. Muitas vezes, sentimos que temos que respeitar aquele momento como uma confissão.
Por isso, por sentir que seria quase uma violação, não fui capaz de contar aqui a história de emigração que me contou hoje aquela mulher russa que insistiu em preencher sozinha o formulário quase sem conhecer o português escrito e que constatou que depois de seis anos a trabalhar como operária já não sabia reproduzir a caligrafia irrepreensível de quando era professora. Às vezes fico assim. Acontece.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

EU: Bom dia!
ELA: Bom dia.
EU: Eu estou a falar da ****** *********. Estou a ligar para lhe comunicar que foi aprovado um pedido seu para colocação duma garrafa gigante na via pública para fins publicitários.
ELA: Ah, obrigada!
EU: Vou só precisar de uma informação, para calcular o valor da taxa a cobrar.
ELA: Sim, faz favor de dizer.
EU: Queria saber quantos metros quadrados o objecto vai ocupar.
ELA: Minha senhora, o objecto não pode ocupar metros quadrados!
EU: Não?! Porquê?
ELA: Porque é redondo!
EU: Mas é possível calcular a área dum objecto redondo.
E depois de alguns momentos de silêncio esmagador do lado de lá:
EU: Vamos fazer assim, diga-me a medida do diâmetro.
ELA: Diâmetro?! Que diâmetro?
EU: Pronto, diga-me então a medida do raio.
ELA: Mas qual raio?
EU: Olhe, diga-me só quanto mede a garrafa dum lado ao outro.
ELA: São nove metros de altura.
EU: Sim, e de largura?
ELA: Quatro.
EU: Obrigada. Bom dia.
ELA (visivelmente enfastiada): Bom dia.
E desligou. E eu quase que a conseguia imaginar a contar a toda a gente como são burros os funcionários públicos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Naquele tempo os restaurantes chineses não eram comuns e eu nunca tinha ido a nenhum. Aliás, na minha cidade ainda não havia nenhum. Assim, como estava fora em viagem, vi um e resolvi experimentar.
Sentámo-nos e logo apareceu uma mocinha muito baixinha e de olhos amendoados dar conta do que havia nesse dia para almoçar. Havia vários pratos de frango. Azar. Se fosse vaca, ou peixe, tudo tinha corrido bem, mas frango??? De cada vez que a pobre criatura pronunciava "felaaango" duma maneira que eu nunca tinha ouvido na vida a não ser em rábulas revisteiras, eu ria-me que nem uma saloia. E sem conseguir evitar. É chato. Muito chato.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quando os meus filhos eram pequenos, o meu pai, já reformado, levava-os a dar uns passeios pelos arredores. Com uma particularidade: Assim que chegavam à aldeia ou vila mais próxima, a uns dois ou três quilómetros de distância, dizia-lhes que tinham chegado ao Japão. Deste modo, os meus filhos passaram uma parte das suas infâncias convencidos que o Japão era um lugar com um largo, uma casa do povo, um café e uma capela, onde se chegava em menos de um quarto de hora.
Um dia fizemos as nossas primeiras férias no Algarve. O meu filho tinha na altura uns cinco anos e passou as cinco horas da viagem toda a massacrar-me, de dez em dez minutos, com a pergunta: "Ainda falta muito?"
Quando chegámos finalmente a Vilamoura, o puto estava mais do que desesperado e jurava a pés juntos que nunca, mas nunca mais, mesmo sem ter experimentado as praias nem as piscinas, iria ao Algarve. "Mas porquê?" - perguntei-lhe. "Isto é mais longe do que ir ao Japão!" - respondeu-me ele, agastadíssimo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma história que eu sempre achei estúpida mas não podia dizer era a de S. Martinho. Naquele tempo não podíamos dizer que achávamos imbecil uma coisa que vinha no nosso livro de leitura. Mas a mim, ninguém metia na cabeça que Deus era uma pessoa de bem e muito menos que tivesse os cinco litrinhos aferidos. Cabe na cabeça de alguém que quem tem poder para tudo e mais alguma coisa...

a) deixe que faça frio e chova em cima dum mendigo quase nu?
b) espere que um cavaleiro corte ao meio uma capa que deve ter sido super-cara para logo a seguir fazer parar a chuva e abrir o sol?

Deus anda a gozar com isto tudo? Se fosse filho do meu pai e da minha mãe, já estava a levar um ralhete! Dos grandes!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A minha mãe estava a arranjar o jantar.
- Mãe! O que é isso?
- Carapau.
- De corrida?
- O quê?!
- Se esse carapau era de corrida.
- Não...
- Os de corrida têm um número nas costas?
- Não há carapaus de corrida!
Não foi exactamente como no dia em que descobri que não havia Pai Natal, mas também foi com um certo grau de decepção que descobri que o animal de que o meu pai mais falava... não existia.

domingo, 8 de novembro de 2009

Perguntei à minha mãe:
- Quando for grande vou ter bilau? - Bilau era a palavra usada para pénis lá em casa.
- Não! - respondeu a minha mãe horrorizada, talvez a antecipar o estigma de ter uma filha que viesse a querer ser camionista.
- Mas o P**** tem! - retorqui, implorando por uma explicação lógica para as diferenças óbvias entre mim e o meu irmão mais novo.
- Mas tu não!
As crianças às vezes são umas incompreendidas. Eu só queria mesmo perceber se estava muito atrasada no desenvolvimento em relação ao meu irmão porque ele tinha nascido há poucos meses e tinha bilau, enquanto que eu já tinha quase cinco anos e ainda não tinha!

sábado, 7 de novembro de 2009

Passei por uma fase em que queria ser a Anita. Sim, a Anita das histórias, que tinha a vida que todas as crianças desejavam. Ia sozinha à feira popular, com dinheiro no bolso, ia à praia, deixavam-na em casa à vontade para mexer em tudo, incluindo o fogão e demais electrodomésticos, e à vontade para se vingar como quisesse do irmãozinho mais novo. A Anita tinha um jardim só dela e aulas de dança onde fazia pontas sem nenhum esforço. Tinha uma quinta com porquinhos que não cheiravam mal e patos que não corriam como loucos atrás das pessoas. Ia às compras sem a mãe, o sonho mais louco que se podia concretizar...
Sim, a seguir a aparecer-me o Peter Pan à janela a convidar-me para ir à terra do Nunca, o que eu mais queria era mesmo ser a Anita!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Quando cheguei ao ciclo preparatório tinha uma disciplina chamada matemática que, segundo os adultos da minha família, era uma coisa moderna. Foi então com bastante expectativa que assisti pela primeira vez a uma dessas aulas. Coisas modernas era o que a gente queria, porque de ensaios de rancho e de catequese já estávamos mesmo fartinhos. E na verdade as suspeitas confirmaram-se. O professor passou uma hora inteirinha a desenhar rodas no quadro e a dizer que aquilo eram conjuntos. Um conjunto de cinco bolinhas, outro de três estrelinhas, depois mais outro de dez triângulos... "É canja!" - pensei eu, habituada a problemas que metiam sempre agricultores que plantavam batatas e as vendiam e nós tínhamos que adivinhar por quanto e quantos quilos - "Isto vai ser como decorar o Pai Nosso na catequese, ou ainda mais fácil!"
Bem me enganei! Acabada a treta dos conjuntos vieram outras, mais complicadas e ainda mais inúteis do que as das colheitas agrícolas!