terça-feira, 24 de novembro de 2009

De todas as histórias de que me lembro e conto, aos outros e a mim, não consigo identificar nenhuma que tenha contribuído para a minha maior fobia, que só os muito íntimos conhecem. Sei que vou viver assim até ao fim. A recuar, a afastar-me discretamente em determinadas circunstâncias, a disfarçar um horror tão ridículo quanto real, para mim. E não vale a pena andar a vasculhar nos armários da minha vida. Há coisas que se escondem sem remédio. Já me habituei.
Na verdade, como já devem ter visto, isto não é uma história. É só uma tentativa de descobrir se toda a gente tem segredos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quando nos mudámos para um apartamento, daqueles com quarto e casa de banho de criada ao pé da cozinha, a maior novidade foi a campainha de chamada. Para os meus pais, aquilo foi um objecto exótico que eles não tencionavam usar, para nós foi um fascínio e fonte de inúmeras e animadas brincadeiras. Uma delas era ver quem conseguia, em menos tempo, percorrer a casa toda a tocar a campainha de chamar a criada até todos os números terem caído no mostrador da cozinha. Eram cinco. Claro que hoje em dia continuamos a brincar, como todos os adultos fazem, mas perdemos a capacidade de abrir um sorriso sincero com estas coisas simples.

domingo, 22 de novembro de 2009

Quando os meus pais não estavam em casa, fazíamos um restaurante. As mesas eram os bancos da cozinha e as cadeiras eram cadeiras mesmo, mas daquelas miniatura, de madeira, que na altura se compravam nas feiras e romarias por cinco escudos. Eu era a dona do restaurante e acumulava com o cargo de cozinheira. Os meus irmãos eram os clientes. Eu ia ao frigorífico e fazia omoletes recheadas de pão ralado, cascas de fruta ou bolachas maria, que eles comiam (de verdade). No fim, eu levava-lhes a conta e eles pagavem-me com notas que nós próprios tínhamos desenhado e recortado. Nesse tempo não havia ASAE nem livros de reclamações.

sábado, 21 de novembro de 2009

Esqueci-me de mencionar. Não estou ainda habituada a estas coisas. Mas este blog fez um ano no passado dia 18. Ainda é pequenino. Mas pronto, já tem pelo menos um aniversário na sua história. Obrigada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A minha tia (que era a costureira oficial lá de casa) fazia arranjos, bainhas e passajava as meias. Sim, deitar meias para o lixo num tempo em que as famílias eram numerosas, ainda que mais ou menos desafogadas, era impensável.
O problema com a minha tia é que ela fazia às meias aquilo que eu acho que se pode designar por passajadela de autor. Se a meia fosse azul, ela passajava de vermelho, se fosse amarela passajava de verde. Usava sempre uma cor contrastante, como que a deixar a sua assinatura na obra. Chegava mesmo ao requinte de malvadez de passajar a mesma meia de várias cores diferentes. Eu, pessoalmente, só me apetecia chorar quando pensava que ia ter que tirar os sapatos na aula de educação física, e acho que acabei por bater o record mundial de velocidade entre tirar os sapatos e calçar as sapatilhas só para ninguém ver as obras de arte costuradas nas minhas meias.
Hoje em dia, pensando melhor, acho que a minha tia foi a percursora do estilo "Desigual".

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cresci num tempo em que não havia pudor de tratar as pessoas pelos defeitos ou limitações que apresentavam. Não por maldade ou intenção de ferir, mas sim com a mesma naturalidade com que hoje chamamos Chico a um Francisco ou Fáfá a uma Fátima. Na minha rua, que era uma rua onde toda a gente se conhecia duma ponta à outra, havia um conjunto de pessoas das quais eu nunca soube o nome de baptismo. Era a "Mãos Aleijadinhas", o "Maneta", o "Gordo das Bicicletas", a "Dos Cães e dos Gatos" e o "Retornado". Que eu me lembre, eram estes.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ainda certas coisas como os telemóveis e outras coisas do género eram coisas para além da imaginação de qualquer mortal, já o meu pai me dizia que se não aprendesse a trabalhar com computadores seria uma analfabeta como quem naquele tempo não sabia ler nem escrever. Eu não entendia o que ele queria dizer com aquilo porque os únicos computadores que conhecia eram os dos filmes e das séries de ficção científica e, quando me imaginava, qual mister Spock em versão feminina, a descodificar cartões perfurados que saíam de máquinas gigantescas cheias de bobines numa qualquer nave espacial, achava que o meu pai, coitado, não devia andar a bater bem. Apesar disso aquela mensagem entranhou-se-me na cabeça de tal forma que fui uma das primeiras a comprar um spectrum e os respectivos calhamaços que ensinavam linguagem BASIC, divertindo-me então a fazer programas complexíssimos que permitiam dizer qual era o maior de dois algarismos ou fazer uma conta de somar. Mais tarde, assim que tive uma oportunidade, fui aprender MS-DOS, UNIX, e depois a versão mais primitiva do Windows. No fundo, vivia um bocadinho preocupada com a ideia de vir a ser uma analfabeta apesar de saber ler e escrever sem erros.
Há muito que pude concluir que o meu pai, muito antes do tempo, estava cheio de razão. Só me espanta que ele próprio não tenha qualquer interesse em aprender informática e só se digne a passar por um computador a uma distância segura.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Depois de aconselhar uma senhora sobre a melhor estratégia para resolver um problema burocrático que lhe atormentava a vida, ela mostrou-se agradecida e comentou:
- A senhora está mais apática nestas coisas não é?
Surpreendida, tentei entender:
- Desculpe?!
- Mais apática - repetiu ela, e depois explicou uma vez que era óbvio que eu não atingia aquele nível mais elevado de vocabulário - Quer dizer que está mais a par!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Telefonou-me uma senhora que me perguntou se me podia fazer um inquérito de satisfação de cliente. Era do concessionário da marca do carro que eu comprei há algum tempo. Acedi. Com pouca vontade mas acedi. Tenho por hábito pelo menos tentar respeitar o trabalho dos outros. Ela fez-me talvez umas vinte perguntas, não menos, e no fim de cada uma delas, religiosamente, colocou-me todas as hipóteses de resposta: "Plenamente satisfeito, muito satisfeito, satisfeito, pouco satisfeito, nada satisfeito". Eu tentei calcular mentalmente o número de vezes que aquela mulher tem que pronunciar a palavra "Satisfeito" num dia de trabalho. Na verdade, para ela, a palavra "satisfeito" deve estar completamente esvaziada de sentido, de tanto a repetir. Como se fosse um conjunto de sílabas sem significado algum.
Pensei que finalmente tinha encontrado alguém com um emprego pior que o do papel higiénico.

domingo, 15 de novembro de 2009

Num dos momentos menos fáceis da minha vida, daqueles em que tive que puxar pela cabeça e fazer qualquer coisa para pagar as contas, dediquei-me ao já velho negócio das explicações. Tinha o décimo segundo ano mais um ano de universidade em letras, não tinha sido má aluna, tinha aprendido qualquer coisa, talvez pudesse também ensinar qualquer coisa aos outros. E foi assim que decidi colocar um anúncio numa montra. Os clientes não tardaram a aparecer mas, para meu desespero, queriam explicações de matemática, aquela coisa pavorosa que tanto me tinha custado a levar sem dor até ao nono ano. Mas como é uso dizer-se, a necessidade aguça o engenho. Aceitei. Peguei nos livros de matemática e fiz-me à tarefa de aprender sozinha. Eu, os meus botões e o meu desespero, no meio de fórmulas e algarismos, a tentar compreender algo que antes só tinha compreendido pela rama dos dez valores. E mal.
Ao fim de alguns dias já tinha conseguido desvendar alguns dos diabólicos segredos da lógica. E ensinei-os aos meus pupilos seguindo os mesmos raciocínios que eu própria tinha feito para lá chegar, cheios de aproximações ao mundo concreto. Na verdade, foi um sucesso. Com algumas aulas minhas qualquer miúdo conseguia, se não ser um Einstein, pelo menos tirar notas positivas nos testes.
Foi nessa fase da minha vida que concluí brilhantemente que o problema dos professores de matemática... é saberem demasiado daquilo.

sábado, 14 de novembro de 2009

A minha profissão assemelha-se muitas vezes à de barman, mas sem álcool. Quando uma pessoa nos abre o coração e a vida sem o auxílio do torpor que a bebida causa, é porque o quer fazer. Porque de alguma maneira estranha confiou em nós para nos contar um segredo, ou uma angústia, ou uma alegria. Muitas vezes, sentimos que temos que respeitar aquele momento como uma confissão.
Por isso, por sentir que seria quase uma violação, não fui capaz de contar aqui a história de emigração que me contou hoje aquela mulher russa que insistiu em preencher sozinha o formulário quase sem conhecer o português escrito e que constatou que depois de seis anos a trabalhar como operária já não sabia reproduzir a caligrafia irrepreensível de quando era professora. Às vezes fico assim. Acontece.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

EU: Bom dia!
ELA: Bom dia.
EU: Eu estou a falar da ****** *********. Estou a ligar para lhe comunicar que foi aprovado um pedido seu para colocação duma garrafa gigante na via pública para fins publicitários.
ELA: Ah, obrigada!
EU: Vou só precisar de uma informação, para calcular o valor da taxa a cobrar.
ELA: Sim, faz favor de dizer.
EU: Queria saber quantos metros quadrados o objecto vai ocupar.
ELA: Minha senhora, o objecto não pode ocupar metros quadrados!
EU: Não?! Porquê?
ELA: Porque é redondo!
EU: Mas é possível calcular a área dum objecto redondo.
E depois de alguns momentos de silêncio esmagador do lado de lá:
EU: Vamos fazer assim, diga-me a medida do diâmetro.
ELA: Diâmetro?! Que diâmetro?
EU: Pronto, diga-me então a medida do raio.
ELA: Mas qual raio?
EU: Olhe, diga-me só quanto mede a garrafa dum lado ao outro.
ELA: São nove metros de altura.
EU: Sim, e de largura?
ELA: Quatro.
EU: Obrigada. Bom dia.
ELA (visivelmente enfastiada): Bom dia.
E desligou. E eu quase que a conseguia imaginar a contar a toda a gente como são burros os funcionários públicos.