segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Uma amiga minha contou-me que foi a uma sex-shop e quando estava a ver os vibradores a dona aproximou-se e o diálogo foi qualquer coisa como isto:
- Posso ajudá-la?
- Não obrigada, estou só a ver.
- Se precisar de alguma coisa esteja à vontade.
- Bem... procuro um presente para uma despedida de solteira...
- Ah... então estes vibradores aqui são muito bons! É preciso é ter cuidado e nunca deixar as pilhas lá dentro. Eu por exemplo tiro-as sempre e o meu está impecável! Já a minha filha tinha o hábito de as deixar lá dentro e já teve que levar um novo...

domingo, 29 de novembro de 2009

E diz o homem de boné numa mão, de pé à minha frente, e com uma licença na outra mão estendida na minha direcção:
- Vocês fizeram aqui um colapso!

sábado, 28 de novembro de 2009

A mulher do bolo-doce percorria diariamente as ruas da cidade na sua carrinha branca. Conduzia muito devagar e, quando passava à porta das clientes habituais (como era o caso da minha avó), abrandava ainda mais, buzinava longamente, punha a cabeça de fora e gritava num vozeirão que só ela:
- Bolo-doooooooooooooooooooooce!!!
Dizia-se que, persistente, tinha feito exame de condução trinta vezes até os tipos se fartarem dela e lhe darem a carta de condução.
Ainda hoje, quando ouço alguém buzinar assim, mesmo que certamente não o faça com tão boas e doces intenções, ouço imediatamente na minha cabeça aquele longo pregão da mulher mais teimosa que conheci:
- Bolo-doooooooooooooooooooooce!!!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A minha filha tinha três anos quando, numa certa noite, ouvi um grande barulho vindo do quarto dela. Corri para lá e, quando abri a porta, dei com ela deitada no chão, embrulhada no edredon que pendia, choramingando levemente sem saber muito bem o que lhe tinha acontecido.
- Oh filha! O que te aconteceu? - perguntei enquanto a levantava do chão.
- Foi a cama! - repondeu-me ela queixosa - A cama acabou!
É um ponto de vista como qualquer outro...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O filho único de catorze anos da minha amiga arranjou a sua primeira namorada. A mãe descobriu, como sempre descobrem tudo as chatas das mães. E interrogou-o. Queria saber quem era, como era, qual o nome, que idade tinha. O miúdo, como sempre fazem todos os miúdos, fechou-se em copas e da boca dele não saiu um som. Mas a minha amiga não é das que desistem. O seu instinto maternal à mistura com o cabrão do sexto sentido que dizem que as mulheres têm, levou-a a concluir que se tratava duma colega da equipa feminina de andebol e não perdeu um minuto, tratou de ir assistir ao treino. Já no pavilhão, sentada na bancada a tentar esquadrinhar todas as raparigas que via, na tentativa de descobrir de quem se tratava, foi vista pelo filho que, nervoso, se apressou a ir ter com ela para a convencer a ir para casa:
- Mãe! O que fazes aqui???
- Vim conhecer a tua namorada! Qual é? Qual é?
E o rapaz, completamente à toa, aproximou-se e em surdina, suplicou:
- Está calada! A mãe dela está mesmo atrás de ti!
Sempre discreta, a minha amiga virou-se para trás e deu de caras com uma altiva mulher negra de turbante cor-de-laranja à volta da cabeça. Completamente surpresa, olhou o filho e exclamou sem preocupação nenhuma:
- A tua namorada é preta???

E pronto. Assim ficou o rapaz com uma história que há-de um dia contar aos netos ao serão, no meio de grande risota.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Saímos para caminhar um pouco aproveitando uma noite menos má neste outono que já começa a esfriar. A certa altura, numa rua pouco movimentada apenas com alguns bares e restaurantes, vimos adiante uma mulher muito jovem com aspecto preocupado que pareceu um pouco aliviada por nos ver. Quando nos aproximámos ela abordou-nos. Estava um bocadinho envergonhada, o que reforçou a ideia de que fez aquilo porque estava numa situação limite. Que tinha mesmo que abordar o primeiro estranho que aparecesse:
- Desculpem - disse ela com as mãos encrespadas junto à gola do casaco - eu sei que isto vai parecer um bocadinho estranho mas... podiam tirar aquela aranha do meu saco?
Olhámos na direcção que ela apontava e lá estava, atirado no chão, um saco de viagem sobre o qual passeava despreocupada uma pequena aranha, daquelas que o povo classificou como portadoras de dinheiro.
O meu marido enxotou a aranha com um jornal. Ela agradeceu. Eu, numa reacção primária e imediata, ri-me. Mas arrependi-me logo a seguir.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

De todas as histórias de que me lembro e conto, aos outros e a mim, não consigo identificar nenhuma que tenha contribuído para a minha maior fobia, que só os muito íntimos conhecem. Sei que vou viver assim até ao fim. A recuar, a afastar-me discretamente em determinadas circunstâncias, a disfarçar um horror tão ridículo quanto real, para mim. E não vale a pena andar a vasculhar nos armários da minha vida. Há coisas que se escondem sem remédio. Já me habituei.
Na verdade, como já devem ter visto, isto não é uma história. É só uma tentativa de descobrir se toda a gente tem segredos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quando nos mudámos para um apartamento, daqueles com quarto e casa de banho de criada ao pé da cozinha, a maior novidade foi a campainha de chamada. Para os meus pais, aquilo foi um objecto exótico que eles não tencionavam usar, para nós foi um fascínio e fonte de inúmeras e animadas brincadeiras. Uma delas era ver quem conseguia, em menos tempo, percorrer a casa toda a tocar a campainha de chamar a criada até todos os números terem caído no mostrador da cozinha. Eram cinco. Claro que hoje em dia continuamos a brincar, como todos os adultos fazem, mas perdemos a capacidade de abrir um sorriso sincero com estas coisas simples.

domingo, 22 de novembro de 2009

Quando os meus pais não estavam em casa, fazíamos um restaurante. As mesas eram os bancos da cozinha e as cadeiras eram cadeiras mesmo, mas daquelas miniatura, de madeira, que na altura se compravam nas feiras e romarias por cinco escudos. Eu era a dona do restaurante e acumulava com o cargo de cozinheira. Os meus irmãos eram os clientes. Eu ia ao frigorífico e fazia omoletes recheadas de pão ralado, cascas de fruta ou bolachas maria, que eles comiam (de verdade). No fim, eu levava-lhes a conta e eles pagavem-me com notas que nós próprios tínhamos desenhado e recortado. Nesse tempo não havia ASAE nem livros de reclamações.

sábado, 21 de novembro de 2009

Esqueci-me de mencionar. Não estou ainda habituada a estas coisas. Mas este blog fez um ano no passado dia 18. Ainda é pequenino. Mas pronto, já tem pelo menos um aniversário na sua história. Obrigada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A minha tia (que era a costureira oficial lá de casa) fazia arranjos, bainhas e passajava as meias. Sim, deitar meias para o lixo num tempo em que as famílias eram numerosas, ainda que mais ou menos desafogadas, era impensável.
O problema com a minha tia é que ela fazia às meias aquilo que eu acho que se pode designar por passajadela de autor. Se a meia fosse azul, ela passajava de vermelho, se fosse amarela passajava de verde. Usava sempre uma cor contrastante, como que a deixar a sua assinatura na obra. Chegava mesmo ao requinte de malvadez de passajar a mesma meia de várias cores diferentes. Eu, pessoalmente, só me apetecia chorar quando pensava que ia ter que tirar os sapatos na aula de educação física, e acho que acabei por bater o record mundial de velocidade entre tirar os sapatos e calçar as sapatilhas só para ninguém ver as obras de arte costuradas nas minhas meias.
Hoje em dia, pensando melhor, acho que a minha tia foi a percursora do estilo "Desigual".

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cresci num tempo em que não havia pudor de tratar as pessoas pelos defeitos ou limitações que apresentavam. Não por maldade ou intenção de ferir, mas sim com a mesma naturalidade com que hoje chamamos Chico a um Francisco ou Fáfá a uma Fátima. Na minha rua, que era uma rua onde toda a gente se conhecia duma ponta à outra, havia um conjunto de pessoas das quais eu nunca soube o nome de baptismo. Era a "Mãos Aleijadinhas", o "Maneta", o "Gordo das Bicicletas", a "Dos Cães e dos Gatos" e o "Retornado". Que eu me lembre, eram estes.