quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O meu pai comprou a primeira constituição aprovada pela assembleia da república depois do 25 de Abril. Um dia chegou a casa e deu comigo muito refastelada no sofá da sala a lê-la. Eu, como achei que não estava a fazer nada de mal, nem me mexi. Mas curiosamente ele reagiu como se me tivesse apanhado a preparar um chuto de heroína.
- Que estás a fazer? - perguntou-me ríspido.
- A ler...
- Não! O que é que estás mesmo a fazer?
- A ler, já disse!
- A ler a constituição?! Achas que eu sou parvo ou nasci ontem? O que é que estavas mesmo a fazer? Mostra o que tens aí dentro!
E eu tive que o deixar ver com os seus próprios olhos que dentro do livro não tinha nenhuma carta de namorado nem nenhuma revista porno. Só depois me deixou em paz. Mas ainda assim, desconfiado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estava eu na fila da caixa do supermercado quando vi que, mais uma vez, tinha tido má pontaria. A senhora da frente tinha-se esquecido de pesar a fruta. E lá foi ela com os sacos na mão, enquanto o resto do pessoal rosnava qualquer coisa entre dentes e a menina da caixa brincava com a esferográfica a disfarçar o nervoso de ter uma data de marmanjos a olhar para ela na expectativa.
Ao voltar com a fruta pesada (lata das latas!) a senhora vinha nas calmas, como se estivesse a sair da casa de chá com as amigas numa tardinha de férias.
Quando já toda a gente franzia o sobrolho e se preparava para abrir as hostilidades com uma boca mais azeda, ela explicou com um sorriso:
- Vocês desculpem mas eu não podia ir a correr porque estou aflitinha para fazer xixi.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pela manhã, quando estava na pastelaria do costume a tomar o meu café, ouvia (porque os decibéis tornavam impossível não ouvir) a conversa de duas amigas na mesa ao lado:
- E "bai" eu "disse-le", oitocentos escudos à hora, "num" trabalho por menos!
- "Fizestes" muito bem! Querem a casa limpa limpem-na... ou "atão" paguem!
A dada altura uma delas lembrou-se que estava há demasiado tempo à espera da torrada, virou-se para trás e gritou para a menina que estava ao balcão, a uns cinco metros de distância:
- Oh menina "atão"?
E a menina, atrapalhada:
- Está quase...
- Tanto tempo! - continuou a queixosa - Eu já me tinha "bindo" duas "bezes" ou mais! Foda-se!

... é por isso que ser do Norte tem outro encanto...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Conta-se que um rapaz, há uns anos, entrou para a universidade numa cidade que desconhecia completamente e hospedou-se numa casa onde já morava um grupo daqueles armados em espertos ao estilo "comemos caloiros todos os dias ao pequeno-almoço".
Logo no primeiro dia, com o pretexto de o integrarem na vida da cidade e lhe darem a conhecer os hábitos e tradições locais (tão queridos!), ensinaram-lhe que o doce regional da terra era os "cusquíleos" e que estes eram realmente deliciosos.
Perante a curiosidade do rapaz e numa demonstração de boa vontade, puseram-lhe 5 contos na mão (ainda foi no tempo do dinheiro antigo) e disseram-lhe que fosse à pastelaria do rés do chão e comprasse meia dúzia deles para o lanche. Eram eles que ofereciam.
O rapaz lá foi, sem saber que tal doce não existia e muito menos que toda a gente na dita pastelaria conhecia a marosca pois já era hábito por lá aparecerem caloiros a pedir aquilo.
De facto, quando ele disse "Queria meia dúzia de cusquíleos" a risada foi geral no estabelecimento. E o pobre lá saiu de cabeça baixa, com vontade de se enfiar num buraco. Só que, num rasgo repentino de inteligência que só os caloiros têm porque depois, como todos sabemos, vamos ficando cada vez mais estúpidos, olhou para a nota que tinha na mão, fez uns rápidos cálculos mentais e voltou para trás.
-O que é que vendem aí que custe mais ou menos 8o0 escudos a unidade?
E lá lhe venderam uns bolos intragáveis feitos de figo ou qualquer coisa assim irreconhecível, que ele levou para casa. Entrou com ar satisfeito, pousou o embrulho e, perante o ar apatetado dos outros declarou:
-Cá estão os cusquíleos. Vamos lanchar?
-Mas... isso não existe...
-Não existe como? Eu pedi meia dúzia de cusquíleos e deram-me isto! E olhem! Foi uma sorte porque o dinheiro chegou por um triz!

É caso para dizer "Toma lá que já almoçaste!"... No caso concreto, cusquíleos.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Em 1970 pensei pela primeira vez no meu futuro longínquo de forma séria. Pensei no ano 2000 e como ia ser divertido mudar de século um ano depois. Haveria naves espaciais para ir a outros planetas? Como nos vestiríamos? As pessoas teriam carros voadores na garagem? A comida seria toda sintética? Como iriam ser os nossos penteados? Que música ouviríamos?
Depois parei um pouco para fazer contas de cabeça. Que idade iria eu ter no ano 2000? Oh não!!! 37!!!
Concluí com grande tristeza que ia ser tão velhinha que já não poderia apreciar nada, fosse o que fosse que se passasse na altura. Fiquei um bocadinho angustiada mas depois passou-me.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Quando eu era miúda (já não sei que idade tinha mas sei que era ignorante no que diz respeito às variantes linguísticas na península ibérica), havia uma canção chamada "Un Canto a Galicia", que era cantada em galego pelo Julio Iglesias. Eu... pensava que era ele a tentar cantar em português mas sem habilidade nenhuma. E convenci-me para sempre que os espanhóis são incapazes de aprender línguas. Nesta última parte não estava enganada.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vi com alguma antecedência uma senhora idosa, apoiada numa bengala que, parada no passeio com ar amedrontado, aguardava a oportunidade de atravessar a estrada. Travei e fiz-lhe sinal para que passasse. Ela assim fez e, enquanto atravessava muito devagarinho devido às dificuldades de locomoção, reparei na sua fisionomia amarga. Quando ela chegou sensivelmente ao meio da estrada parou. Pensei que estava cansada, mas não. Estava apenas (ou era mesmo) azeda. Nessa altura voltou-se na minha direcção e começou a ameaçar-me com a bengala no ar enquanto proferia palavras que eu não ouvi mas me pareciam pragas de bruxa.
É para eu aprender a ser como os outros todos que se borrifam para os velhinhos que querem atravessar a estrada em hora de ponta.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Há dias tão maus que nem histórias nos apetece contar.
Amanhã volto.
Desculpem.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Na zona de congelados dum super-mercado, um casal conversava sobre a banca dos gelados. Ele era alto, magrinho e usava uma volta de ouro sobre os pêlos do peito. Ela era uma pequena bolinha com pernas. Ele, com um gelado na mão, dava-lhe explicações sobre nutricionismo. Ela seguia-as atentamente.
- Estás a ver este gelado? Este podes comer sem engordar!
- Ai posso! - perguntava ela com olhos gulosos.
- Podes porque este é de praline (ele pronunciava pralaine). Sabes o que é pralaine? É inglês. Quer dizer "para a linha"!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Há uns anos atrás atendi uma senhora velhinha, de xaile negro que lhe cobria a figura, revelando apenas as mãos e um rosto pequenino. Notei que ambos tinham cicatrizes muito visíveis. A senhora estava completamente confusa e envergonhada. Não sabia ao que vinha nem o que tinha para tratar. Justificou-se:
- É que o meu marido é que tratava disto tudo sabe?
Depois de muito esforço e buscas no arquivo a fim de tentar descobrir o objectivo da sua visita, atrevi-me a perguntar-lhe:
- Mas porque não vem cá o marido da senhora?
- É que ele faleceu no mês passado menina.
Mentalmente castiguei-me – “Sua estúpida! Já meteste água!” – e tentei remediar, claro. Pedi-lhe desculpa, dei-lhe os sentimentos e rematei com aquela conversa de circunstância:
- Deve ser muito difícil para a senhora estar sozinha...
- Não! – atalhou ela apressada – O filha da puta já devia era ter ido há mais tempo! Batia-me todos os dias e duma vez até me obrigou a entrar no forno de lenha ainda cheio de brasas! Eu só pedia a Deus que ele morresse antes de mim nem que fosse só um dia... para eu poder saber o que é viver com descanso!... E Deus atendeu-me!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Uma amiga minha contou-me que foi a uma sex-shop e quando estava a ver os vibradores a dona aproximou-se e o diálogo foi qualquer coisa como isto:
- Posso ajudá-la?
- Não obrigada, estou só a ver.
- Se precisar de alguma coisa esteja à vontade.
- Bem... procuro um presente para uma despedida de solteira...
- Ah... então estes vibradores aqui são muito bons! É preciso é ter cuidado e nunca deixar as pilhas lá dentro. Eu por exemplo tiro-as sempre e o meu está impecável! Já a minha filha tinha o hábito de as deixar lá dentro e já teve que levar um novo...

domingo, 29 de novembro de 2009

E diz o homem de boné numa mão, de pé à minha frente, e com uma licença na outra mão estendida na minha direcção:
- Vocês fizeram aqui um colapso!