sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A senhora brasileira à minha frente ganhou finalmente coragem e pediu:
- Você escreve a carta p'ra mim?
Eu, ciente de que ela não era analfabeta e vendo a fila imensa de gente que ainda tinha para atender, recusei amavelmente:
- A senhora senta-se ali, calmamente, e escreve. Depois entrega-me. Se tiver alguma dúvida estou ao dispor.
- Mas - insistiu ela - eu vou escrever tudo errado!
- Tudo errado como?
- Errado! O que p'ra gente é certo p'ra vocês é errado!
- A senhora não vai escrever errado, vai escrever com as regras do português do Brasil. Isso não é errado, é só diferente!

Mentalmente, no entanto, o que me apetecia dizer-lhe não era bem isso. O que me apetecia dizer-lhe era mesmo:
-Oh minha! Se tu visses o que eu recebo aqui todos os dias escrito por portugueses de gema!... Ias achar que merecias o nobel da literatura!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O meu pai comprou a primeira constituição aprovada pela assembleia da república depois do 25 de Abril. Um dia chegou a casa e deu comigo muito refastelada no sofá da sala a lê-la. Eu, como achei que não estava a fazer nada de mal, nem me mexi. Mas curiosamente ele reagiu como se me tivesse apanhado a preparar um chuto de heroína.
- Que estás a fazer? - perguntou-me ríspido.
- A ler...
- Não! O que é que estás mesmo a fazer?
- A ler, já disse!
- A ler a constituição?! Achas que eu sou parvo ou nasci ontem? O que é que estavas mesmo a fazer? Mostra o que tens aí dentro!
E eu tive que o deixar ver com os seus próprios olhos que dentro do livro não tinha nenhuma carta de namorado nem nenhuma revista porno. Só depois me deixou em paz. Mas ainda assim, desconfiado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estava eu na fila da caixa do supermercado quando vi que, mais uma vez, tinha tido má pontaria. A senhora da frente tinha-se esquecido de pesar a fruta. E lá foi ela com os sacos na mão, enquanto o resto do pessoal rosnava qualquer coisa entre dentes e a menina da caixa brincava com a esferográfica a disfarçar o nervoso de ter uma data de marmanjos a olhar para ela na expectativa.
Ao voltar com a fruta pesada (lata das latas!) a senhora vinha nas calmas, como se estivesse a sair da casa de chá com as amigas numa tardinha de férias.
Quando já toda a gente franzia o sobrolho e se preparava para abrir as hostilidades com uma boca mais azeda, ela explicou com um sorriso:
- Vocês desculpem mas eu não podia ir a correr porque estou aflitinha para fazer xixi.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pela manhã, quando estava na pastelaria do costume a tomar o meu café, ouvia (porque os decibéis tornavam impossível não ouvir) a conversa de duas amigas na mesa ao lado:
- E "bai" eu "disse-le", oitocentos escudos à hora, "num" trabalho por menos!
- "Fizestes" muito bem! Querem a casa limpa limpem-na... ou "atão" paguem!
A dada altura uma delas lembrou-se que estava há demasiado tempo à espera da torrada, virou-se para trás e gritou para a menina que estava ao balcão, a uns cinco metros de distância:
- Oh menina "atão"?
E a menina, atrapalhada:
- Está quase...
- Tanto tempo! - continuou a queixosa - Eu já me tinha "bindo" duas "bezes" ou mais! Foda-se!

... é por isso que ser do Norte tem outro encanto...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Conta-se que um rapaz, há uns anos, entrou para a universidade numa cidade que desconhecia completamente e hospedou-se numa casa onde já morava um grupo daqueles armados em espertos ao estilo "comemos caloiros todos os dias ao pequeno-almoço".
Logo no primeiro dia, com o pretexto de o integrarem na vida da cidade e lhe darem a conhecer os hábitos e tradições locais (tão queridos!), ensinaram-lhe que o doce regional da terra era os "cusquíleos" e que estes eram realmente deliciosos.
Perante a curiosidade do rapaz e numa demonstração de boa vontade, puseram-lhe 5 contos na mão (ainda foi no tempo do dinheiro antigo) e disseram-lhe que fosse à pastelaria do rés do chão e comprasse meia dúzia deles para o lanche. Eram eles que ofereciam.
O rapaz lá foi, sem saber que tal doce não existia e muito menos que toda a gente na dita pastelaria conhecia a marosca pois já era hábito por lá aparecerem caloiros a pedir aquilo.
De facto, quando ele disse "Queria meia dúzia de cusquíleos" a risada foi geral no estabelecimento. E o pobre lá saiu de cabeça baixa, com vontade de se enfiar num buraco. Só que, num rasgo repentino de inteligência que só os caloiros têm porque depois, como todos sabemos, vamos ficando cada vez mais estúpidos, olhou para a nota que tinha na mão, fez uns rápidos cálculos mentais e voltou para trás.
-O que é que vendem aí que custe mais ou menos 8o0 escudos a unidade?
E lá lhe venderam uns bolos intragáveis feitos de figo ou qualquer coisa assim irreconhecível, que ele levou para casa. Entrou com ar satisfeito, pousou o embrulho e, perante o ar apatetado dos outros declarou:
-Cá estão os cusquíleos. Vamos lanchar?
-Mas... isso não existe...
-Não existe como? Eu pedi meia dúzia de cusquíleos e deram-me isto! E olhem! Foi uma sorte porque o dinheiro chegou por um triz!

É caso para dizer "Toma lá que já almoçaste!"... No caso concreto, cusquíleos.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Em 1970 pensei pela primeira vez no meu futuro longínquo de forma séria. Pensei no ano 2000 e como ia ser divertido mudar de século um ano depois. Haveria naves espaciais para ir a outros planetas? Como nos vestiríamos? As pessoas teriam carros voadores na garagem? A comida seria toda sintética? Como iriam ser os nossos penteados? Que música ouviríamos?
Depois parei um pouco para fazer contas de cabeça. Que idade iria eu ter no ano 2000? Oh não!!! 37!!!
Concluí com grande tristeza que ia ser tão velhinha que já não poderia apreciar nada, fosse o que fosse que se passasse na altura. Fiquei um bocadinho angustiada mas depois passou-me.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Quando eu era miúda (já não sei que idade tinha mas sei que era ignorante no que diz respeito às variantes linguísticas na península ibérica), havia uma canção chamada "Un Canto a Galicia", que era cantada em galego pelo Julio Iglesias. Eu... pensava que era ele a tentar cantar em português mas sem habilidade nenhuma. E convenci-me para sempre que os espanhóis são incapazes de aprender línguas. Nesta última parte não estava enganada.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vi com alguma antecedência uma senhora idosa, apoiada numa bengala que, parada no passeio com ar amedrontado, aguardava a oportunidade de atravessar a estrada. Travei e fiz-lhe sinal para que passasse. Ela assim fez e, enquanto atravessava muito devagarinho devido às dificuldades de locomoção, reparei na sua fisionomia amarga. Quando ela chegou sensivelmente ao meio da estrada parou. Pensei que estava cansada, mas não. Estava apenas (ou era mesmo) azeda. Nessa altura voltou-se na minha direcção e começou a ameaçar-me com a bengala no ar enquanto proferia palavras que eu não ouvi mas me pareciam pragas de bruxa.
É para eu aprender a ser como os outros todos que se borrifam para os velhinhos que querem atravessar a estrada em hora de ponta.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Há dias tão maus que nem histórias nos apetece contar.
Amanhã volto.
Desculpem.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Na zona de congelados dum super-mercado, um casal conversava sobre a banca dos gelados. Ele era alto, magrinho e usava uma volta de ouro sobre os pêlos do peito. Ela era uma pequena bolinha com pernas. Ele, com um gelado na mão, dava-lhe explicações sobre nutricionismo. Ela seguia-as atentamente.
- Estás a ver este gelado? Este podes comer sem engordar!
- Ai posso! - perguntava ela com olhos gulosos.
- Podes porque este é de praline (ele pronunciava pralaine). Sabes o que é pralaine? É inglês. Quer dizer "para a linha"!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Há uns anos atrás atendi uma senhora velhinha, de xaile negro que lhe cobria a figura, revelando apenas as mãos e um rosto pequenino. Notei que ambos tinham cicatrizes muito visíveis. A senhora estava completamente confusa e envergonhada. Não sabia ao que vinha nem o que tinha para tratar. Justificou-se:
- É que o meu marido é que tratava disto tudo sabe?
Depois de muito esforço e buscas no arquivo a fim de tentar descobrir o objectivo da sua visita, atrevi-me a perguntar-lhe:
- Mas porque não vem cá o marido da senhora?
- É que ele faleceu no mês passado menina.
Mentalmente castiguei-me – “Sua estúpida! Já meteste água!” – e tentei remediar, claro. Pedi-lhe desculpa, dei-lhe os sentimentos e rematei com aquela conversa de circunstância:
- Deve ser muito difícil para a senhora estar sozinha...
- Não! – atalhou ela apressada – O filha da puta já devia era ter ido há mais tempo! Batia-me todos os dias e duma vez até me obrigou a entrar no forno de lenha ainda cheio de brasas! Eu só pedia a Deus que ele morresse antes de mim nem que fosse só um dia... para eu poder saber o que é viver com descanso!... E Deus atendeu-me!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Uma amiga minha contou-me que foi a uma sex-shop e quando estava a ver os vibradores a dona aproximou-se e o diálogo foi qualquer coisa como isto:
- Posso ajudá-la?
- Não obrigada, estou só a ver.
- Se precisar de alguma coisa esteja à vontade.
- Bem... procuro um presente para uma despedida de solteira...
- Ah... então estes vibradores aqui são muito bons! É preciso é ter cuidado e nunca deixar as pilhas lá dentro. Eu por exemplo tiro-as sempre e o meu está impecável! Já a minha filha tinha o hábito de as deixar lá dentro e já teve que levar um novo...

domingo, 29 de novembro de 2009

E diz o homem de boné numa mão, de pé à minha frente, e com uma licença na outra mão estendida na minha direcção:
- Vocês fizeram aqui um colapso!

sábado, 28 de novembro de 2009

A mulher do bolo-doce percorria diariamente as ruas da cidade na sua carrinha branca. Conduzia muito devagar e, quando passava à porta das clientes habituais (como era o caso da minha avó), abrandava ainda mais, buzinava longamente, punha a cabeça de fora e gritava num vozeirão que só ela:
- Bolo-doooooooooooooooooooooce!!!
Dizia-se que, persistente, tinha feito exame de condução trinta vezes até os tipos se fartarem dela e lhe darem a carta de condução.
Ainda hoje, quando ouço alguém buzinar assim, mesmo que certamente não o faça com tão boas e doces intenções, ouço imediatamente na minha cabeça aquele longo pregão da mulher mais teimosa que conheci:
- Bolo-doooooooooooooooooooooce!!!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A minha filha tinha três anos quando, numa certa noite, ouvi um grande barulho vindo do quarto dela. Corri para lá e, quando abri a porta, dei com ela deitada no chão, embrulhada no edredon que pendia, choramingando levemente sem saber muito bem o que lhe tinha acontecido.
- Oh filha! O que te aconteceu? - perguntei enquanto a levantava do chão.
- Foi a cama! - repondeu-me ela queixosa - A cama acabou!
É um ponto de vista como qualquer outro...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O filho único de catorze anos da minha amiga arranjou a sua primeira namorada. A mãe descobriu, como sempre descobrem tudo as chatas das mães. E interrogou-o. Queria saber quem era, como era, qual o nome, que idade tinha. O miúdo, como sempre fazem todos os miúdos, fechou-se em copas e da boca dele não saiu um som. Mas a minha amiga não é das que desistem. O seu instinto maternal à mistura com o cabrão do sexto sentido que dizem que as mulheres têm, levou-a a concluir que se tratava duma colega da equipa feminina de andebol e não perdeu um minuto, tratou de ir assistir ao treino. Já no pavilhão, sentada na bancada a tentar esquadrinhar todas as raparigas que via, na tentativa de descobrir de quem se tratava, foi vista pelo filho que, nervoso, se apressou a ir ter com ela para a convencer a ir para casa:
- Mãe! O que fazes aqui???
- Vim conhecer a tua namorada! Qual é? Qual é?
E o rapaz, completamente à toa, aproximou-se e em surdina, suplicou:
- Está calada! A mãe dela está mesmo atrás de ti!
Sempre discreta, a minha amiga virou-se para trás e deu de caras com uma altiva mulher negra de turbante cor-de-laranja à volta da cabeça. Completamente surpresa, olhou o filho e exclamou sem preocupação nenhuma:
- A tua namorada é preta???

E pronto. Assim ficou o rapaz com uma história que há-de um dia contar aos netos ao serão, no meio de grande risota.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Saímos para caminhar um pouco aproveitando uma noite menos má neste outono que já começa a esfriar. A certa altura, numa rua pouco movimentada apenas com alguns bares e restaurantes, vimos adiante uma mulher muito jovem com aspecto preocupado que pareceu um pouco aliviada por nos ver. Quando nos aproximámos ela abordou-nos. Estava um bocadinho envergonhada, o que reforçou a ideia de que fez aquilo porque estava numa situação limite. Que tinha mesmo que abordar o primeiro estranho que aparecesse:
- Desculpem - disse ela com as mãos encrespadas junto à gola do casaco - eu sei que isto vai parecer um bocadinho estranho mas... podiam tirar aquela aranha do meu saco?
Olhámos na direcção que ela apontava e lá estava, atirado no chão, um saco de viagem sobre o qual passeava despreocupada uma pequena aranha, daquelas que o povo classificou como portadoras de dinheiro.
O meu marido enxotou a aranha com um jornal. Ela agradeceu. Eu, numa reacção primária e imediata, ri-me. Mas arrependi-me logo a seguir.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

De todas as histórias de que me lembro e conto, aos outros e a mim, não consigo identificar nenhuma que tenha contribuído para a minha maior fobia, que só os muito íntimos conhecem. Sei que vou viver assim até ao fim. A recuar, a afastar-me discretamente em determinadas circunstâncias, a disfarçar um horror tão ridículo quanto real, para mim. E não vale a pena andar a vasculhar nos armários da minha vida. Há coisas que se escondem sem remédio. Já me habituei.
Na verdade, como já devem ter visto, isto não é uma história. É só uma tentativa de descobrir se toda a gente tem segredos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quando nos mudámos para um apartamento, daqueles com quarto e casa de banho de criada ao pé da cozinha, a maior novidade foi a campainha de chamada. Para os meus pais, aquilo foi um objecto exótico que eles não tencionavam usar, para nós foi um fascínio e fonte de inúmeras e animadas brincadeiras. Uma delas era ver quem conseguia, em menos tempo, percorrer a casa toda a tocar a campainha de chamar a criada até todos os números terem caído no mostrador da cozinha. Eram cinco. Claro que hoje em dia continuamos a brincar, como todos os adultos fazem, mas perdemos a capacidade de abrir um sorriso sincero com estas coisas simples.

domingo, 22 de novembro de 2009

Quando os meus pais não estavam em casa, fazíamos um restaurante. As mesas eram os bancos da cozinha e as cadeiras eram cadeiras mesmo, mas daquelas miniatura, de madeira, que na altura se compravam nas feiras e romarias por cinco escudos. Eu era a dona do restaurante e acumulava com o cargo de cozinheira. Os meus irmãos eram os clientes. Eu ia ao frigorífico e fazia omoletes recheadas de pão ralado, cascas de fruta ou bolachas maria, que eles comiam (de verdade). No fim, eu levava-lhes a conta e eles pagavem-me com notas que nós próprios tínhamos desenhado e recortado. Nesse tempo não havia ASAE nem livros de reclamações.