sábado, 2 de janeiro de 2010

Há alturas em que nos estão a contar uma história e, depois dela acabar, nós ainda ficamos à espera do resto. Isso acontece porque na nossa cabeça a história não faz o mesmo sentido que faz na cabeça de quem conta. Era uma coisa que me acontecia frequentemente com a minha ex-sogra, senhora cujo habitat era (e é) um micro-cosmos onde os costumes são os de há muitos séculos.
- O Tio A****** casou com a Tia F******* - contava-me ela um dia - apesar do seu passado. Ela trabalhava num quiosque.
Eu fiquei calada com a mesma atenção com que estava no início, à espera de me ser revelada qualquer coisa fantástica como a Tia F******* gerir, a partir do quiosque, uma extensa rede de prostituição e tráfico humano. Mas afinal não. Era só mesmo aquilo.
Noutra ocasião ela contava-me que a Tia M**** foi afastada da família durante muitos anos porque se tinha enamorado dum advogado famoso na terra, com quem manteve uma relação. E lá fiquei eu mais uma vez com ar de parva à espera que me dissessem que esse advogado vivia uma vida dupla, tinha uma família completa com muitos filhinhos noutra cidade ou então que era suspeito de ser um perigoso serial-killer. Mais uma vez estava enganada. A história já tinha terminado e, naquele clã, fazia todo o sentido repudiar um dos seus por manter uma relação sem casar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Nas vésperas do Natal, no super-mercado, uma senhora com um carrinho de compras cheio de onde sobressaía um quadro negro daqueles com tripé para pôr no quarto das crianças, falava ao telemóvel num tom muito alto para que todos à volta pudessem ouvir:
- Comprei-lhe um quadro! - dizia ela - É muito bonito! Tem as letras e os números, e por trás é "de encontro ao placado"!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


Estamos em hibernação até ao próximo ano.
Para todos, um felicíííííssimo natal!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E depois, quando nos passeávamos fascinados pelos corredores do super-mercado, víamos aqui e ali umas esferas cor-de-laranja penduradas no tecto, parecidas com naves espaciais e donde pendia um letreiro que anunciava "Sorria, você está a ser filmado".
E nós sorríamos mesmo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quando as fundações do grande edifício começaram a nascer numa zona pacata da pacata cidade, toda a gente se interrogava sobre o que viria a ser aquilo. Logo logo, porém, se soube a verdade, porque já naquele tempo a coscuvilhice era um desporto tão praticado como agora: Era um super-mercado.
- O que é um super-mercado? - perguntava eu então sem que ninguém fosse capaz de me esclarecer convenientemente.
- É uma mercearia - explicou-me alguém que foi quem conseguiu ficar mais perto do conceito - mas tão grande, tão grande, que as pessoas perdem-se lá dentro!
Fiquei para ali a fazer exercícios mentais, mas não era nada fácil. Imaginava a mercearia da Ti Celeste com umas cem vezes o seu tamanho real. Tão grande que quem estivesse junto do balcão de madeira escura lustrosa, se olhasse para trás no sentido da porta veria um corredor imenso de pipas de vinho e, muito pequenina, a porta onde pendiam coloridas as fitas de plástico que impediam a entrada das moscas. Mesmo assim, custava-me acreditar que alguém se pudesse perder lá dentro.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Decidi que naquele ano ia descobrir o que era a minha prenda de natal sem ter que andar à procura pela casa toda, e afinei uma estratégia. Como sabia que a minha tia sabia o que era mas não me dizia, tentei por aí. Cheguei ao pé da minha mãe e anunciei-lhe:

- Já sei o que vou receber no natal!

- Não sabes nada!

- Sei sei! A Tia Zé disse-me! Eu chateei-a muito e ela disse-me!

- Grande malandra! Ela foi-te contar que te comprei um gira-discos?!

Fiquei muito orgulhosa do meu feito. Mas depois, no dia de Natal, aquilo já não teve a mesma piada não é?

sábado, 12 de dezembro de 2009

- A senhora da DGV - dizia-me ela com a mão direita no peito sobre o coração - é uma alma pura e boa como há poucas! Porra que eu até fico emocionada quando falo nisto, palavra de honra!
- Mas a senhora falou como a funcionária da DGV?
- Não - respondeu-me ela já a começar a chorar - mas ela escreveu-me uma carta tão linda!...
- A DGV escreveu-lhe uma carta bonita???!!!
- Sim! - respondeu ela já a limpar as lágrimas com um lenço de papel reutilizado - Ai, até me arrepio toda! Veja!

Estendeu-me um ofício do IMTT, ex-DGV. Era um texto lacónico, assinado pela responsável local, onde se informava que a destinatária deveria dirigir-se ao Registo Automóvel a fim de autorizar a mudança de proprietário dum veículo que se encontrava em seu nome para o nome doutra pessoa, cujo nome constava abaixo.

- É ou não é uma senhora honesta? - perguntou-me ela com os olhos vermelhos da emoção.

Eu, sem saber o que dizer perante um sentimento tão arrebatado, optei pelo silêncio.

- Sabe minha senhora, - continuou ela - eu ofereci em tempos uma mota ao meu ex-namorado, que vivia lá em casa. Só que depois a gente zangou-se, ele saiu de casa, mas deixou lá a mota.
- Sim...
- Entretanto apareceu lá uma mulher a dizer que me queria comprar a mota. Que me dava quinhentos euros por ela (era uma mota quase nova! Impecável!). Então eu disse "Não! Quinhentos não quero! Quero quatrocentos que foi o que me custou e eu não fico com o que é de ninguém só o que é meu!". Está-me a compreender?
- Sim...
- Então ela disse-me "Então dou-lhe quatrocentos, mas deixe-me levá-la a um mecânico meu amigo para ele ver", e eu deixei. E depois ela disse "Ah! Mas tem que me dar o livrete, porque posso apanhar a polícia pelo caminho", e eu deixei. Está-me a compreender?
- Sim...
- Então ela não apareceu mais nem me trouxe o dinheiro, e depois eu fiquei a saber que era a nova namorada do meu ex-namorado, está-me a compreender?
- Sim...
- E ele vai, foi à DGV para mudar a mota para nome dele, o malandro! Está-me a compreender?
- Sim...
- Mas a senhora da DGV, que é uma santa senhora, graças a Deus (ai que eu até fico arrepiada quando falo nisto!), botou a mão à consciência e mandou-me esta carta a avisar-me! Ainda há gente séria neste mundo, não é minha senhora?

É (pensei eu), ainda há gente séria. E gente ingénua. E gente ignorante. Muito. Graças a Deus...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A senhora brasileira à minha frente ganhou finalmente coragem e pediu:
- Você escreve a carta p'ra mim?
Eu, ciente de que ela não era analfabeta e vendo a fila imensa de gente que ainda tinha para atender, recusei amavelmente:
- A senhora senta-se ali, calmamente, e escreve. Depois entrega-me. Se tiver alguma dúvida estou ao dispor.
- Mas - insistiu ela - eu vou escrever tudo errado!
- Tudo errado como?
- Errado! O que p'ra gente é certo p'ra vocês é errado!
- A senhora não vai escrever errado, vai escrever com as regras do português do Brasil. Isso não é errado, é só diferente!

Mentalmente, no entanto, o que me apetecia dizer-lhe não era bem isso. O que me apetecia dizer-lhe era mesmo:
-Oh minha! Se tu visses o que eu recebo aqui todos os dias escrito por portugueses de gema!... Ias achar que merecias o nobel da literatura!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O meu pai comprou a primeira constituição aprovada pela assembleia da república depois do 25 de Abril. Um dia chegou a casa e deu comigo muito refastelada no sofá da sala a lê-la. Eu, como achei que não estava a fazer nada de mal, nem me mexi. Mas curiosamente ele reagiu como se me tivesse apanhado a preparar um chuto de heroína.
- Que estás a fazer? - perguntou-me ríspido.
- A ler...
- Não! O que é que estás mesmo a fazer?
- A ler, já disse!
- A ler a constituição?! Achas que eu sou parvo ou nasci ontem? O que é que estavas mesmo a fazer? Mostra o que tens aí dentro!
E eu tive que o deixar ver com os seus próprios olhos que dentro do livro não tinha nenhuma carta de namorado nem nenhuma revista porno. Só depois me deixou em paz. Mas ainda assim, desconfiado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estava eu na fila da caixa do supermercado quando vi que, mais uma vez, tinha tido má pontaria. A senhora da frente tinha-se esquecido de pesar a fruta. E lá foi ela com os sacos na mão, enquanto o resto do pessoal rosnava qualquer coisa entre dentes e a menina da caixa brincava com a esferográfica a disfarçar o nervoso de ter uma data de marmanjos a olhar para ela na expectativa.
Ao voltar com a fruta pesada (lata das latas!) a senhora vinha nas calmas, como se estivesse a sair da casa de chá com as amigas numa tardinha de férias.
Quando já toda a gente franzia o sobrolho e se preparava para abrir as hostilidades com uma boca mais azeda, ela explicou com um sorriso:
- Vocês desculpem mas eu não podia ir a correr porque estou aflitinha para fazer xixi.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pela manhã, quando estava na pastelaria do costume a tomar o meu café, ouvia (porque os decibéis tornavam impossível não ouvir) a conversa de duas amigas na mesa ao lado:
- E "bai" eu "disse-le", oitocentos escudos à hora, "num" trabalho por menos!
- "Fizestes" muito bem! Querem a casa limpa limpem-na... ou "atão" paguem!
A dada altura uma delas lembrou-se que estava há demasiado tempo à espera da torrada, virou-se para trás e gritou para a menina que estava ao balcão, a uns cinco metros de distância:
- Oh menina "atão"?
E a menina, atrapalhada:
- Está quase...
- Tanto tempo! - continuou a queixosa - Eu já me tinha "bindo" duas "bezes" ou mais! Foda-se!

... é por isso que ser do Norte tem outro encanto...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Conta-se que um rapaz, há uns anos, entrou para a universidade numa cidade que desconhecia completamente e hospedou-se numa casa onde já morava um grupo daqueles armados em espertos ao estilo "comemos caloiros todos os dias ao pequeno-almoço".
Logo no primeiro dia, com o pretexto de o integrarem na vida da cidade e lhe darem a conhecer os hábitos e tradições locais (tão queridos!), ensinaram-lhe que o doce regional da terra era os "cusquíleos" e que estes eram realmente deliciosos.
Perante a curiosidade do rapaz e numa demonstração de boa vontade, puseram-lhe 5 contos na mão (ainda foi no tempo do dinheiro antigo) e disseram-lhe que fosse à pastelaria do rés do chão e comprasse meia dúzia deles para o lanche. Eram eles que ofereciam.
O rapaz lá foi, sem saber que tal doce não existia e muito menos que toda a gente na dita pastelaria conhecia a marosca pois já era hábito por lá aparecerem caloiros a pedir aquilo.
De facto, quando ele disse "Queria meia dúzia de cusquíleos" a risada foi geral no estabelecimento. E o pobre lá saiu de cabeça baixa, com vontade de se enfiar num buraco. Só que, num rasgo repentino de inteligência que só os caloiros têm porque depois, como todos sabemos, vamos ficando cada vez mais estúpidos, olhou para a nota que tinha na mão, fez uns rápidos cálculos mentais e voltou para trás.
-O que é que vendem aí que custe mais ou menos 8o0 escudos a unidade?
E lá lhe venderam uns bolos intragáveis feitos de figo ou qualquer coisa assim irreconhecível, que ele levou para casa. Entrou com ar satisfeito, pousou o embrulho e, perante o ar apatetado dos outros declarou:
-Cá estão os cusquíleos. Vamos lanchar?
-Mas... isso não existe...
-Não existe como? Eu pedi meia dúzia de cusquíleos e deram-me isto! E olhem! Foi uma sorte porque o dinheiro chegou por um triz!

É caso para dizer "Toma lá que já almoçaste!"... No caso concreto, cusquíleos.