Nas excursões da escola primária costumávamos visitar igrejas e outros locais onde tivesse havido milagres da responsabilidade de divindades católicas, facto devidamente realçado pelas professoras do regime. Havia um em que a Nossa Senhora tinha feito fechar com tal força a porta da capela, que cortou rentinho um dedo ao malvado ladrão que nessa altura entrava no local. Ou saía. Já não me recordo. E para nos provar que era verdade, lá estava em exposição dentro dum frasco o dedo, pedaço de carne arroxeada e irreconhecível. Fiquei muito impressionada e, como era costume sempre que me ia meter em assados, desatei a fazer perguntas:
- Mas esse ladrão era pobre? Se calhar precisava. A Nossa Senhora foi má. A Nossa Senhora não podia simplesmente trancar a porta de tal maneira que ninguém entrasse? Era preciso cortar um dedo? A Nossa Senhora é má porquê?
Naquele tempo ficava-se de castigo por estes motivos e a professora passou o resto do passeio a olhar-me de lado.
Mas outra altura houve em que me correu bem. Foi na Nazaré. Quando me contaram que aquelas marcas na rocha à beira da falésia, que ninguém via mas todos imaginavam, eram as patas traseiras do cavalo de D. Fuas numa milagrosa travagem obra da virgem, pensei que nunca tinha visto milagre tão belo. Um cavaleiro à beira dum precipício, montado num elegante cavalo equilibrado só sobre as patas traseiras, numa pose majestosa e sem cair lá abaixo!... Uau!...
Só uma perguntinha. Pequenina:
- Como é que ele depois conseguiu fazer marcha-atrás e desmontar?
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês


