segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Nas excursões da escola primária costumávamos visitar igrejas e outros locais onde tivesse havido milagres da responsabilidade de divindades católicas, facto devidamente realçado pelas professoras do regime. Havia um em que a Nossa Senhora tinha feito fechar com tal força a porta da capela, que cortou rentinho um dedo ao malvado ladrão que nessa altura entrava no local. Ou saía. Já não me recordo. E para nos provar que era verdade, lá estava em exposição dentro dum frasco o dedo, pedaço de carne arroxeada e irreconhecível. Fiquei muito impressionada e, como era costume sempre que me ia meter em assados, desatei a fazer perguntas:
- Mas esse ladrão era pobre? Se calhar precisava. A Nossa Senhora foi má. A Nossa Senhora não podia simplesmente trancar a porta de tal maneira que ninguém entrasse? Era preciso cortar um dedo? A Nossa Senhora é má porquê?
Naquele tempo ficava-se de castigo por estes motivos e a professora passou o resto do passeio a olhar-me de lado.
Mas outra altura houve em que me correu bem. Foi na Nazaré. Quando me contaram que aquelas marcas na rocha à beira da falésia, que ninguém via mas todos imaginavam, eram as patas traseiras do cavalo de D. Fuas numa milagrosa travagem obra da virgem, pensei que nunca tinha visto milagre tão belo. Um cavaleiro à beira dum precipício, montado num elegante cavalo equilibrado só sobre as patas traseiras, numa pose majestosa e sem cair lá abaixo!... Uau!...
Só uma perguntinha. Pequenina:
- Como é que ele depois conseguiu fazer marcha-atrás e desmontar?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lembro-me da passagem de ano de 1969 para 1970. Não me lembro dela por nenhuma razão especial. Não foi diferente, nem pior, nem melhor do que qualquer outra. Lembro-me apenas que, quando estava a ver o programa de variedades com que essa noite a RTP brindou os telespectadores, pensei que já não me recordava da passagem de ano anterior e que por isso, ia fazer um esforço para me lembrar daquele momento até ser muito velhinha.
E é apenas do que me recordo: Duma rapariga a cantar num cenário de relógios que marcavam a meia-noite e de ter pensado que me ia lembrar daquilo para sempre. Nada mais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Há alturas em que nos estão a contar uma história e, depois dela acabar, nós ainda ficamos à espera do resto. Isso acontece porque na nossa cabeça a história não faz o mesmo sentido que faz na cabeça de quem conta. Era uma coisa que me acontecia frequentemente com a minha ex-sogra, senhora cujo habitat era (e é) um micro-cosmos onde os costumes são os de há muitos séculos.
- O Tio A****** casou com a Tia F******* - contava-me ela um dia - apesar do seu passado. Ela trabalhava num quiosque.
Eu fiquei calada com a mesma atenção com que estava no início, à espera de me ser revelada qualquer coisa fantástica como a Tia F******* gerir, a partir do quiosque, uma extensa rede de prostituição e tráfico humano. Mas afinal não. Era só mesmo aquilo.
Noutra ocasião ela contava-me que a Tia M**** foi afastada da família durante muitos anos porque se tinha enamorado dum advogado famoso na terra, com quem manteve uma relação. E lá fiquei eu mais uma vez com ar de parva à espera que me dissessem que esse advogado vivia uma vida dupla, tinha uma família completa com muitos filhinhos noutra cidade ou então que era suspeito de ser um perigoso serial-killer. Mais uma vez estava enganada. A história já tinha terminado e, naquele clã, fazia todo o sentido repudiar um dos seus por manter uma relação sem casar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Nas vésperas do Natal, no super-mercado, uma senhora com um carrinho de compras cheio de onde sobressaía um quadro negro daqueles com tripé para pôr no quarto das crianças, falava ao telemóvel num tom muito alto para que todos à volta pudessem ouvir:
- Comprei-lhe um quadro! - dizia ela - É muito bonito! Tem as letras e os números, e por trás é "de encontro ao placado"!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


Estamos em hibernação até ao próximo ano.
Para todos, um felicíííííssimo natal!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E depois, quando nos passeávamos fascinados pelos corredores do super-mercado, víamos aqui e ali umas esferas cor-de-laranja penduradas no tecto, parecidas com naves espaciais e donde pendia um letreiro que anunciava "Sorria, você está a ser filmado".
E nós sorríamos mesmo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quando as fundações do grande edifício começaram a nascer numa zona pacata da pacata cidade, toda a gente se interrogava sobre o que viria a ser aquilo. Logo logo, porém, se soube a verdade, porque já naquele tempo a coscuvilhice era um desporto tão praticado como agora: Era um super-mercado.
- O que é um super-mercado? - perguntava eu então sem que ninguém fosse capaz de me esclarecer convenientemente.
- É uma mercearia - explicou-me alguém que foi quem conseguiu ficar mais perto do conceito - mas tão grande, tão grande, que as pessoas perdem-se lá dentro!
Fiquei para ali a fazer exercícios mentais, mas não era nada fácil. Imaginava a mercearia da Ti Celeste com umas cem vezes o seu tamanho real. Tão grande que quem estivesse junto do balcão de madeira escura lustrosa, se olhasse para trás no sentido da porta veria um corredor imenso de pipas de vinho e, muito pequenina, a porta onde pendiam coloridas as fitas de plástico que impediam a entrada das moscas. Mesmo assim, custava-me acreditar que alguém se pudesse perder lá dentro.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Decidi que naquele ano ia descobrir o que era a minha prenda de natal sem ter que andar à procura pela casa toda, e afinei uma estratégia. Como sabia que a minha tia sabia o que era mas não me dizia, tentei por aí. Cheguei ao pé da minha mãe e anunciei-lhe:

- Já sei o que vou receber no natal!

- Não sabes nada!

- Sei sei! A Tia Zé disse-me! Eu chateei-a muito e ela disse-me!

- Grande malandra! Ela foi-te contar que te comprei um gira-discos?!

Fiquei muito orgulhosa do meu feito. Mas depois, no dia de Natal, aquilo já não teve a mesma piada não é?

sábado, 12 de dezembro de 2009

- A senhora da DGV - dizia-me ela com a mão direita no peito sobre o coração - é uma alma pura e boa como há poucas! Porra que eu até fico emocionada quando falo nisto, palavra de honra!
- Mas a senhora falou como a funcionária da DGV?
- Não - respondeu-me ela já a começar a chorar - mas ela escreveu-me uma carta tão linda!...
- A DGV escreveu-lhe uma carta bonita???!!!
- Sim! - respondeu ela já a limpar as lágrimas com um lenço de papel reutilizado - Ai, até me arrepio toda! Veja!

Estendeu-me um ofício do IMTT, ex-DGV. Era um texto lacónico, assinado pela responsável local, onde se informava que a destinatária deveria dirigir-se ao Registo Automóvel a fim de autorizar a mudança de proprietário dum veículo que se encontrava em seu nome para o nome doutra pessoa, cujo nome constava abaixo.

- É ou não é uma senhora honesta? - perguntou-me ela com os olhos vermelhos da emoção.

Eu, sem saber o que dizer perante um sentimento tão arrebatado, optei pelo silêncio.

- Sabe minha senhora, - continuou ela - eu ofereci em tempos uma mota ao meu ex-namorado, que vivia lá em casa. Só que depois a gente zangou-se, ele saiu de casa, mas deixou lá a mota.
- Sim...
- Entretanto apareceu lá uma mulher a dizer que me queria comprar a mota. Que me dava quinhentos euros por ela (era uma mota quase nova! Impecável!). Então eu disse "Não! Quinhentos não quero! Quero quatrocentos que foi o que me custou e eu não fico com o que é de ninguém só o que é meu!". Está-me a compreender?
- Sim...
- Então ela disse-me "Então dou-lhe quatrocentos, mas deixe-me levá-la a um mecânico meu amigo para ele ver", e eu deixei. E depois ela disse "Ah! Mas tem que me dar o livrete, porque posso apanhar a polícia pelo caminho", e eu deixei. Está-me a compreender?
- Sim...
- Então ela não apareceu mais nem me trouxe o dinheiro, e depois eu fiquei a saber que era a nova namorada do meu ex-namorado, está-me a compreender?
- Sim...
- E ele vai, foi à DGV para mudar a mota para nome dele, o malandro! Está-me a compreender?
- Sim...
- Mas a senhora da DGV, que é uma santa senhora, graças a Deus (ai que eu até fico arrepiada quando falo nisto!), botou a mão à consciência e mandou-me esta carta a avisar-me! Ainda há gente séria neste mundo, não é minha senhora?

É (pensei eu), ainda há gente séria. E gente ingénua. E gente ignorante. Muito. Graças a Deus...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A senhora brasileira à minha frente ganhou finalmente coragem e pediu:
- Você escreve a carta p'ra mim?
Eu, ciente de que ela não era analfabeta e vendo a fila imensa de gente que ainda tinha para atender, recusei amavelmente:
- A senhora senta-se ali, calmamente, e escreve. Depois entrega-me. Se tiver alguma dúvida estou ao dispor.
- Mas - insistiu ela - eu vou escrever tudo errado!
- Tudo errado como?
- Errado! O que p'ra gente é certo p'ra vocês é errado!
- A senhora não vai escrever errado, vai escrever com as regras do português do Brasil. Isso não é errado, é só diferente!

Mentalmente, no entanto, o que me apetecia dizer-lhe não era bem isso. O que me apetecia dizer-lhe era mesmo:
-Oh minha! Se tu visses o que eu recebo aqui todos os dias escrito por portugueses de gema!... Ias achar que merecias o nobel da literatura!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O meu pai comprou a primeira constituição aprovada pela assembleia da república depois do 25 de Abril. Um dia chegou a casa e deu comigo muito refastelada no sofá da sala a lê-la. Eu, como achei que não estava a fazer nada de mal, nem me mexi. Mas curiosamente ele reagiu como se me tivesse apanhado a preparar um chuto de heroína.
- Que estás a fazer? - perguntou-me ríspido.
- A ler...
- Não! O que é que estás mesmo a fazer?
- A ler, já disse!
- A ler a constituição?! Achas que eu sou parvo ou nasci ontem? O que é que estavas mesmo a fazer? Mostra o que tens aí dentro!
E eu tive que o deixar ver com os seus próprios olhos que dentro do livro não tinha nenhuma carta de namorado nem nenhuma revista porno. Só depois me deixou em paz. Mas ainda assim, desconfiado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Estava eu na fila da caixa do supermercado quando vi que, mais uma vez, tinha tido má pontaria. A senhora da frente tinha-se esquecido de pesar a fruta. E lá foi ela com os sacos na mão, enquanto o resto do pessoal rosnava qualquer coisa entre dentes e a menina da caixa brincava com a esferográfica a disfarçar o nervoso de ter uma data de marmanjos a olhar para ela na expectativa.
Ao voltar com a fruta pesada (lata das latas!) a senhora vinha nas calmas, como se estivesse a sair da casa de chá com as amigas numa tardinha de férias.
Quando já toda a gente franzia o sobrolho e se preparava para abrir as hostilidades com uma boca mais azeda, ela explicou com um sorriso:
- Vocês desculpem mas eu não podia ir a correr porque estou aflitinha para fazer xixi.