quarta-feira, 6 de abril de 2011

Não tenho nada contra estrangeiros, mas quando os atendo gosto que estejam sozinhos. Pronto. Quando vêm em pares, ou em trios, têm a desconfortável tendência de começar a comunicar entre si na sua língua. Os chineses fazem-no de forma particularmente provocadora. Não porque estejam deliberadamente a provocar mas porque a sua forma de falar inclui risos, vénias e entoações que nos levam sempre a desconfiar que não estão a dizer qualquer coisa do género: "Trouxeste o documento de identificação para preencher aqui isto?", mas antes qualquer coisa como: "Eh eh eh! Vamos intrujar mais esta?". Claro que o problema deve estar em mim e não neles... E é claro que quando eu estou no estrangeiro não falo inglês com o meu marido só para que à volta nos entendam. Será que pensam o mesmo de nós?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Foi assim de repente, apeteceu-me voltar. Acordei, estava sol, calcei uns sapatos altos, vesti-me de vermelho e decici que ia voltar. Embora nenhum destes factores tivesse nada a ver com nenhum dos restantes. Volto no entanto com o acordo ortográfico em vigor e com uma ligeira impressão de já não saber escrever português. O título deste blog tem um erro. Paciência. Estou há duas horas a tentar relembrar o login e a palavra-passe. Agora que consegui estou esgotada. Lutar com o mundo virtual não é brincadeira. Voltar voltar mesmo, volto amanhã... E vocês, ainda estarão aí?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Conhecemos pessoas de muitas maneiras. Conhecemo-las no trabalho, na rua, no café. Porque somos apresentadas ou nos apresentamos. Basicamente, conhecemos pessoas porque nos cruzamos com elas na vida. Mas conhecer pessoas não é só saber-lhes a cara, a voz, como se vestem, se são altas ou baixas, magras ou gordas. Conhecê-las é também isto que aconteceu aqui. As pessoas que aqui vêm e me comentam são tão minhas conhecidas como o senhor da pastelaria que me serve o café. Curiosamente, até acho que são mais. São quase íntimas, duma forma de ser íntimo que não existia antes de terem inventado estas geringonças com teclados e monitores. Por isso, quando aqui entrei depois de muito tempo sem ter aberto esta página nem o respectivo mail, senti-me a coisa mais miserável. Senti que, de facto, há pessoas que estão apreensivas com a minha ausência. Tanto como se eu tivesse deixado de aparecer no emprego ou nos jantares de família sem dizer nada. O que aconteceu foi que de um momento para o outro, deixei de ter histórias para contar dentro da minha cabeça. E quando isso aconteceu fiquei angustiada e deixei de vir aqui. Sentia-me mal com isso. Depois pensei em apagar o blog. Depois ainda pensei que não. Que ia esperar. Que podia ser que isso mudasse e então eu voltaria.
Não estou doente, não aconteceu nada que pudesse perturbar a minha vida a não ser perder a inspiração, se é que alguma vez tive alguma. Sei que ao ler isto, alguns de vocês terão vontade de me bater. Estão cheios de razão. Só posso pedir-vos que me perdoem.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

-Aqui onde diz na qualidade de, escrevo "boa"?
- Não. Escreve proprietário.
- Eu bem desconfiava...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ao meu lado, em frente a um espelho da mega-store, a senhora mais ou menos fortezinha experimentava um blusão, supervisionada pela empregada. Na verdade, parecia mais que estava dentro duma camisa de forças, pronta para ser levada numa ambulância.

- Não estará um bocadinho apertado? – perguntava ela – É capaz de ser melhor o tamanho L.

-Não! Imagina! – respondeu-lhe a empregada brasileira – Esse blusão não é para usar apertado até acima! Aperta só aqui em baixo, vendo?

Claro que se fosse portuguesa responderia exactamente o mesmo para dizer que só havia M. Só que era sem sotaque.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

- Os americanos, vou-lhe dizer uma coisa e a senhora pode acreditar à confiança… São umas bestas!

- Acha? – perguntei, já adivinhando qualquer coisa engraçada.

- São! E as pessoas cá fora nem sabem! Quem já lá esteve, como eu, é que sabe como as coisas são. E posso-lhe garantir, são uns estúpidos! Por exemplo, veja esta: “Make sure, sabe o que é que quer dizer “make sure”? Ter a certeza. Pois sabe como é que se traduz? Fazer certeza! Isto tem alguma lógica? Só na cabeça daqueles parvos! E por exemplo: “Let me know”, sabe o que é que quer dizer “Let me know”? Informa-me. Sabe como é que se traduz? Deixa-me saber! Por amor de Deus? Porque eles não falam como as pessoas normais??? A maior parte das pessoas nem sabe estas coisas, a senhora não sabia pois não?

Ainda estive para o deixar saber que sou professora de inglês, embora não praticante. Mas para quê “desenganá-lo”?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mesmo no meio da minha explicação sobre o procedimento para pedir autorização de venda ambulante, o homenzinho pequenino de boné e camisa de flanela aos quadrados olhou para o seu próprio ombro e, visivelmente irritado, ralhou:
- Shhhhhhh! Está calado!
Eu, sem ver ninguém ali por perto, parei por momentos, surpresa. Entretanto e como a atenção dele já se tinha virado novamente para a minha pessoa, continuei. Mas ele interrompeu mais uma vez e mais uma vez voltado para o seu próprio ombro:
- Já te disse para estares calado! Não vês que a senhora está a falar? Ai!
E depois para mim:
- A senhora desculpe.
Se eu me ri? Não. Não me ri. Há coisas delirantemente cómicas que não dão para rir.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Quando precisam, as pessoas conseguem ser cheias de recursos. Como uma amiga minha que, tendo combinado um encontro com alguém que não o marido e tendo saído de casa sob a desculpa de ir jantar com amigas, começou a ter uma sensação estranha de estar a ser seguida. Não tinha visto ninguém, não tinha ouvido nada, mas qualquer coisa, talvez aquela a que chamam o sexto sentido mas que neste caso também se pode chamar culpa, lhe dizia que não estava só enquanto fazia o percurso até ao hotel. Então, teve uma ideia. Ligou ao marido, pôs uma voz de pânico verdadeiro e disse:
- Estás em casa??? - nem deixou responder - É que eu tenho a certeza que me esqueci do ferro ligado em cima duma peça de roupa e a casa vai arder! E agora???
Tinha que resultar. E resultou.
Acho que é a isto que também se aplica aquele provérbio: "A necessidade aguça o engenho".

domingo, 10 de janeiro de 2010

A minha filha tinha quatro anos e tinha feito um disparate qualquer de que não me recordo, só sei que estava a repreendê-la. Lembro-me da cena porque ela me respondeu, seriíssima:
- E tu? Nunca te enganas? Não? És como o Cavaco Silva?

sábado, 9 de janeiro de 2010

Se por acaso a minha mãe descobria que eu tinha saído de casa sem fazer a cama, estava o caldo entornado. Só que havia um problema, eu odiava fazer a cama, odiava arrumar o quarto, odiava tudo o que me pudesse cheirar levemente a trabalho doméstico. Então um dia tive uma ideia brilhante, daquelas que até se nos acende uma lampadazinha a pairar acima da massa encefálica: Ia deixar de ter que fazer a cama!
Durante uma semana dormi no chão, em cima do tapete, coberta com o meu casaco comprido. Aguentei-me pelo menos até andar toda partidinha das costas como se tivesse tido cinquenta aulas seguidas de educação física após as férias grandes.
Depois verguei, que uma rapariga tem limites. E lá comecei a fazer a cama todos os dias antes de ir para a escola.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De repente ela irrompia num riso tão compulsivo que tinha que tirar os óculos e limpar os olhos com um lencinho. Pelo meio das gargalhadas saíam uns "Ais" assim como quem se queixava de ter chegado a um limite.
- O que é que se passa D. E****? - perguntávamos nós, mas sabendo bem o que se passava.
Então ela pegava na deixa e lia em voz alta a anedota familiar que estava a ler na Dica da Semana que tinha escondida na gaveta da secretária. E nunca, mas nunca, reparou que nós não achávamos piada nenhuma.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Há um velhinho muito velhinho, daqueles para quem nós olhamos e pensamos "quem me dera chegar àquela idade sem fazer xixi nas calças", que costuma ir ao mesmo restaurante que eu. Vai sozinho, o que é indicador de que vive sem companhia. Não sei o nome dele, mas chamo-lhe mentalmente o senhor do leite-creme.
Senta-se sempre ao balcão, num daqueles bancos altos que não são para todos e janta no meio de grandes conversas com os empregados. Quando chega ao fim pergunta o que há de sobremesa:
- Há um leite-cremezinho como o senhor gosta!
- Ah! Hoje não quero leite-creme!
- Não quer? Pronto, o senhor é que sabe! Então temos mousse de chocolate, maçã assada, s'ladinha de fruta, baba de camelo e tarte de ovos moles.
- Nem sei...
- Uma maçãzinha assada?
- Ah!... Não...
- Uma moussezinha de chocolate?
- Ah!... Não...
- Então, uma tartezinha? Está muito boa!
- Ah!... Não...
- Então uma s'adinha de fruta!
- Ah!... Não... Olhe... traga-me um leite-creme para variar!