quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Foi há dias que a minha mãe, num almoço de família, me atirou à cara com o desvelo duma mãe orgulhosa, que quando eu tinha doze anos poupava a minha semanada para comprar as Selecções do Reader's Digest. Eu que, como toda a gente, vou guardando ao longo da vida ficheiros no arquivo morto, reagi àquilo com um esgar de horror. Selecções do Reader's Digest?! Eu?!
Mais tarde, já mais calma, fui à cata do ficheiro perdido. E, para minha desgraça, ele lá estava a piscar-me o olho no meio de imensa tralha esquecida e cheia de pó. É verdade, eu passei horas naquela idade a deliciar-me com história de meninos que tinham nascido sem pernas nem braços, ceguinhos e com a língua de fora, com histórias de famílias que tinham sobrevivido a desgraças inimagináveis e corajosos lutadores pela liberdade que fugiram de países comunistas só com meia carcaça e um baralho de cartas.
As Selecções do Reader's Digest eram o meu Reality TV na altura.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A minha aldeia foi talvez uma das primeiras neste país que, pela mão do padre, teve direito a coisas que agora são banais: Uma creche para deixar as crianças enquanto as mães trabalhavam, um auditório para teatro e outros espectáculos, um recinto desportivo e uma biblioteca. Por questões de temperamento nunca me aproximei muito do campo de andebol. Ainda hoje guardo desses lugares uma distância respeitosa. Frequentava sim o auditório, a maior parte das vezes como pequena candidata a estrela em teatrinhos de escola, mas acima de tudo frequentava a biblioteca, onde trabalhavam por turnos jovens voluntários que estudavam na cidade vizinha. Praticamente todas as semanas eu levava um livro para casa e devolvia o anterior. O pior era quando lá estava o Henrique! O chato do bem intencionado Henrique! Mal eu entrava, em busca de mais um livro de histórias de fadas e princesas encantadas, ele dirigia-se logo a mim, como se eu fosse uma doente que ele tinha apostado em curar:
- Hoje tenho ali um livro bom para ti! Vais gostar!
E entregava-me qualquer coisa didáctica ou então uma daquelas histórias que começavam a estar na moda na altura, em que não acontecia absolutamente nada a não ser um menino que ia para a escola e encontrava um cãozinho e o cãozinho ladrava e depois iam os dois muito contentes pelo caminho e pronto. Eu folheava aquilo, mais por delicadeza do que por interesse, e ia à socapa trocar por um livro a sério. Quando ia fazer a ficha, lá tinha que ouvir a reprimenda:
- Vais levar isto? Tu devias ler livros melhores, com mais qualidade!
Dah! Como é que eu ia explicar àquele projecto de intelectual da revolução que só estava interessada em histórias onde acontecessem coisas? Como é que eu podia fazê-lo entender que para chatice já bastava o dia-a-dia na escola? Que o que eu queria era história de bruxas terríveis, feitiços inacreditáveis, mundos imaginários, fadas intangíveis, princesas deslumbrantes em castelos singulares, monstros ameaçadores e poderes mágicos nunca vistos?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A mulher gorda, de cabelo muito oleoso escorrido e a cara escondida atrás duma plantação de borbulhas purulentas entrou, tirou tiquet e sentou-se à espera de vez. Apesar da alta temperatura que fazia, ela vinha de botas com atacadores por cima dumas peúgas de homem e uma gabardine bege que a fazia parecer imensa. Notámos que os restantes utentes, embora discretamente, começavam a olhar e a comentar a singular figura. Alguns minutos depois, indiferente a tudo, ela abriu a carteira de plástico preto e, com os seus óculos fundo de garrafa, aproximou-a do rosto e perscrutou o seu interior em busca dum lenço de pano sebento que tirou para fora e desdobrou, exibindo perante todos os restos de matérias viscosas secas de dias anteriores. Então, calmamente e com ambas as mãos, posicionou o lenço como se fosse uma rede de circo e começou a puxar a expectoração mais profunda, com um ruído que fazia lembrar uma batedeira a trabalhar em velocidade máxima numa massa líquida. No outro lado da sala, uma rapariga jovem levou instintivamente a mão à boca para evitar um vómito iminente e fugiu a correr para a casa de banho. Os outros viravam a cara com uma expressão de nojo. Nós sentíamo-nos como jogadores de roleta russa, sabendo que aquela bala iria fatalmente disparar para um. Qual seria?
Depois da operação de desentupimento, a mulher voltou a guardar o lenço na carteira e tirou, desta vez, um pequeno maço de notas que correspondia ao valor da taxa que vinha pagar nos nossos serviços. Logo a seguir, com o indicador direito em riste, começou a explorar o interior das narinas. Quando tirou o dedo, notámos que trazia uma pequena matéria esverdeada e elástica que ela examinou e colou numa das notas com um movimento de fricção que repetiu duas ou três vezes. A essa altura, já cada um de nós considerava mentalmente a hipótese de se atirar para o chão e simular um enfarte repentino só para não ter que a atender.
Finalmente, ao toque dum número, ela levantou-se e dirigiu-se à mesa dois. Pobre E*****! Tinha-lhe calhado o brinde! Pobre E*****!
No fim do atendimento, deixei-a ir lá fora fumar um cigarro e dar uma volta para espairecer. Ela merecia!

domingo, 6 de setembro de 2009

O homem fazia lembrar muito vagamente uma personagem dum recente anúncio de telemóveis, que anda na praia a urrar dum lado para o outro. Era seguramente mais novo do que eu, o que com o evoluir da conversa me veio a surpreender profundamente. Sentou-se à minha frente e eu assustei-me um bocadinho. Mas só um bocadinho.

ELE: Librete!

EU: Como?

ELE: Librete!

EU (a fazer exercícios mentais de relaxamento): Vamos lá ver, o que é que o senhor pretende? É alguma coisa relacionada com um ciclomotor, certo?

ELE: Deram-ma!

EU: Deram-lhe um ciclomotor, é isso? E o senhor quer regularizar a situação, é isso?

ELE: Mudar de nome!

EU: Muito bem. Tem alguma coisa aí que eu possa ver? Algum documento?

Ele sacou dum papel muito encardido, rasgado de outro maior, cheio de números rabiscados e rasurados.

EU: Isto aqui é a matrícula?

ELE: Motor! – e apontou para outro número mais abaixo.

EU: Sim, mas isto é a matrícula não é?

ELE: Hu!

EU: Pronto, estou a ver que isto é a matrícula. Só que há um problema, esta matrícula não é daqui. O senhor tem que ir a O******* do ******.

ELE: Mas eu não sei!

EU: Pode ir de comboio. O senhor é de cá?

ELE: Sou de C******** de B****.

EU: Sabe ir daqui para a estação?

ELE: Eu não sei ler. Vim de mota. Eu perdi-me c*ralho!

A partir daí, aquele homem grosseiro de mãos calejadas e olhos pequeninos e juntos, desatou num pranto à minha frente e, enquanto que as lágrimas lhe rolavam pela barba mal feita, repetiu as mesmas duas frases: - “Eu perdi-me c*ralho!”, “Eu não sei ler e perdi-me!”

Fui à internet e imprimi-lhe um mapa com o percurso assinalado. Indiquei-lhe a direcção do primeiro ponto e aconselhei-o a ir perguntando às pessoas pelo caminho. Fiquei amarga para o resto do dia. Isto não devia acontecer, não depois de terem inventado a inteligência artificial.

sábado, 5 de setembro de 2009

Por ter dúvidas quanto ao destino de alguns documentos para os quais eu não via qualquer utilidade, telefonei a um órgão de tutela a fim de me informar sobre o procedimento correcto: Arquivo ou destruição dos mesmos. A senhora que me atendeu respondeu-me muito arejada:

- É para destruir! Nós aqui destruímos isso tudo! São coisas que não têm utilidade nenhuma. Então porquê ficarem a ocupar espaço no arquivo?

- Tem razão – respondi eu – era o que eu pensava. Vou então pegar nisto tudo, rasgar e a seguir reciclar.

- É isso mesmo! Basta fazer um auto de destruição!

- Um quê?!

- Um auto de destruição! – respondeu ela como se eu fosse muito estúpida - É um auto que se elabora, onde se diz que nesta data foi destruído o documento tal e tal, e descreve o documento, vai a assinar ao superior hierárquico, regista-se e depois arquiva-se! Mais nada!

- Mas…

- Sim?

- Não… nada… Obrigada. Boa tarde…

- De nada! Boa tarde!


Isto é mais ou menos lavar a loiça toda para depois a meter na máquina. Digo eu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


Recebi um desafio, que veio daqui : Dar cartões vermelhos, o sonho de qualquer pessoa! Desde que, claro esses cartões se traduzissem mesmo em expulsão do jogo, isso é que era! Não é o caso, mas vamos fazer de conta.


1. O primeiro cartão vai para a Manuela Ferreira Leite, a mulher que quer pôr toda a gente a procriar de luz apagada e camisa de dormir até aos pés. Xôôôôôô!!!

2. O segundo cartão vai para o Paulo Portas, para o seu penteado estilo capachinho e para a dentadura branqueada e o ar de quem se julga inteligente. Xôôôôô!!!

3. O terceiro cartão vai para o Mário Nogueira. Faz-me lembrar um porquinho e é o mestre da arruaça. Vive à custa do estado e cospe no prato onde come. Não presta. Xôôôô!!!

4. O quarto cartão vai para a pescada cozida. Ninguém devia ser obrigado a comer pescada cozida, nunca!!!

5. O quinto cartão vai para o meu frigorífico que avariou, o cabrão ingrato! Depois de tudo o que fiz por ele!

6. O sexto cartão vai para a Carolina Patrocínio. Estava com algumas dúvidas nesta porque se as críticas deixassem marca esta miúda já andava toda negrinha. Mas que é estúpida é.

7. O sétimo cartão vai para a gripe A. Será que se a gente lhe der um cartão vermelho ela vai embora? Não custa tentar.

8. O oitavo cartão vai para os espirros. Odeio espirrar! Cada vez que espirro fico zangadíssima, e prio que tudo, não sei bem com quem.

9. O nono cartão vai para o "Cinco para a Meia Noite". Já chega!!!!!!

10. O décimo cartão vai para a república. A única coisa boa que trouxe foi um feriado a 5 de Outubro.

Pronto. E agora é suposto passar a pasta, por isso cá vai:

Emiele

MFC

Papagaio

Maria Besuga

Paula


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Duas trintonas loiras falsas, de jeans dois números abaixo do que deviam usar e sapatos para chegar às prateleiras de cima dos armários, conversavam com um ar consternadíssimo de funeral, na área de alimentação do centro comercial, com muitos sacos de saldos pousados nas cadeiras ao lado e cada uma com um café à frente:
- A Joana faz anos hoje.
- Pois faz, eu sei...
- Faz quarenta.
- Eu sei...
- Já falaste com ela hoje?
- Não, e até estou sem coragem. Nem sei como a enfrentar. Ainda nem lhe dei os parabéns.
- Nem eu, estou com o mesmo problema.
- Ela deve estar a passar o pior dia da vida dela!
- Coitada!...
- Pois é, coitada!...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ouvida no cabeleireireiro, enquanto fingia que lia uma revista cor-de-rosa.

- Oh D. A***! Mas aquele senhor não é seu tio?
- Não, aquele senhor é meu pai! Ele é tio mas é das minhas irmãs!

Por acaso, as charadas com graus de parentesco sempre me fizeram muita confusão. Esta, no entanto, deixou-me baralhada das ideias até agora.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

ELA: Ontem tive cá um azar!
EU: Então?
ELA: Apareceu-me lá o J**** a convidar-me para sair, e eu não pude ir...
EU: Porquê?
ELA: Estava toda enrolada em película aderente.
EU: Para quê???
ELA: É uma receita que me deram para emagrecer. Enrolas-te toda em película aderente e deixas-te ficar assim umas horas. Depois tiras. Só que dá uma trabalheira a tirar... Não dava para ele ficar lá em baixo à espera... e também não dava para ele subir e ficar lá em casa à minha espera. Não lhe ia abrir a porta toda enrolada em película aderente!
EU: Cá para mim, andaste a enrolar o cérebro em película aderente.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Paula teve direito a fato de sevilhana no carnaval. Vermelho-vivo, às bolinhas brancas, cheio de folhos nas mangas e na saia, tudo rematado com o charme dum leque de plástico, duma mantilha de nylon e, oh sonho!..., duma maquilhagem a condizer, com baton encarnado e um sinal negro na bochecha. Fui para casa a correr passar a mensagem à minha mãe. Eu também queria ir de sevilhana como a Paula!
- Tu não vais. - respondeu-me ela - Isso é vulgar e ordinário e impróprio para miúdas da vossa idade.
Eu ainda ia perguntar qual era a idade própria para ir de sevilhana, mas a prudência recomendou-me que não o fizesse. Há que não esquecer que, naquele tempo, ser espanhola significava ser mulher de mau porte e uma ameaça para as lusas esposas. A minha mãe estava mesmo a sério.
Ficou decidido que eu iria de camponesa da Beira Baixa, de saia rodada, blusa de chita, um lenço enfiado na cabeça, um avental e uma espécie de saca do pão na mão. E no dia em que fomos ambas à costureira fazer a prova final, lado a lado, a Paula deslumbrante no seu vestido cheio de salero e eu com ar de quem ia dar de comer às vacas, quando olhei para ela e vi disparar dos seus olhos um raio de gozo pela minha triste figura, jurei que, nem que levasse cem anos, havia de me vingar. Como eu odiei a Paula nesse dia meu Deus!

domingo, 30 de agosto de 2009

E quando o tempo piorava, quando vinha uma daquelas mini-tempestades que varriam tudo a vento, era certinho. Ficávamos sem televisão.
Depois, lá ia o homem da casa para cima do telhado endireitar a antena. E era aí que se vivia um verdadeiro espírito de entreajuda familiar: A mãe e os avós ficavam em frente à televisão a fazer a supervisão técnica, e os filhos saíam para o quintal servindo de meio de comunicação. O pai ia virando a antena, muito devagarinho e perguntava:
- Está bom?
E os filhos perguntavam lá para dentro:
- Está bom?
Ao que a mãe e os avós respondiam:
- Não!!!
E gritavam os filhos lá para cima:
- Não!!!
Até que às tantas alguém gritava lá de dentro:
- Assim! Assim!
E os filhos outra vez:
- Assim! Assim!
E respondia o pai:
- Mas assim não dá senão tenho que ficar cá em cima a segurar!!!
E desta forma viajavam mensagens entre a sala de estar e o telhado até haver televisão outra vez. A maior parte das vezes, debaixo de mau tempo.

sábado, 29 de agosto de 2009

A senhora, grande em todas as direcções, sentou-se à minha frente e eu tive a sensação de que ocupava a mesa toda. Vinha agastadíssima:
- Ai que bom! Aqui dentro está tão fresquinho! Que sorte vocês têm, lá fora está um calor que não se aguenta!
Na, verdade, estavam apenas 26 graus no exterior e 22 no nosso espaço. Eu respondi-lhe:
- Eu ainda nem tive oportunidade de sentir calor hoje, tenho estado sempre aqui. Mas também lhe digo, incomoda-me muito mais o frio.
Ela ficou de repente mais intimista. Chegou-se à frente, pôs a mão em cima do meu braço e confessou:
- Tem razão! tem toda a razão! Eu com frio, nem me mexo! E quando vou para a cama, se não calçar umas peúgas do meu marido... nem durmo!