quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Mais tarde, já mais calma, fui à cata do ficheiro perdido. E, para minha desgraça, ele lá estava a piscar-me o olho no meio de imensa tralha esquecida e cheia de pó. É verdade, eu passei horas naquela idade a deliciar-me com história de meninos que tinham nascido sem pernas nem braços, ceguinhos e com a língua de fora, com histórias de famílias que tinham sobrevivido a desgraças inimagináveis e corajosos lutadores pela liberdade que fugiram de países comunistas só com meia carcaça e um baralho de cartas.
As Selecções do Reader's Digest eram o meu Reality TV na altura.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
- Hoje tenho ali um livro bom para ti! Vais gostar!
E entregava-me qualquer coisa didáctica ou então uma daquelas histórias que começavam a estar na moda na altura, em que não acontecia absolutamente nada a não ser um menino que ia para a escola e encontrava um cãozinho e o cãozinho ladrava e depois iam os dois muito contentes pelo caminho e pronto. Eu folheava aquilo, mais por delicadeza do que por interesse, e ia à socapa trocar por um livro a sério. Quando ia fazer a ficha, lá tinha que ouvir a reprimenda:
- Vais levar isto? Tu devias ler livros melhores, com mais qualidade!
Dah! Como é que eu ia explicar àquele projecto de intelectual da revolução que só estava interessada em histórias onde acontecessem coisas? Como é que eu podia fazê-lo entender que para chatice já bastava o dia-a-dia na escola? Que o que eu queria era história de bruxas terríveis, feitiços inacreditáveis, mundos imaginários, fadas intangíveis, princesas deslumbrantes em castelos singulares, monstros ameaçadores e poderes mágicos nunca vistos?
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Depois da operação de desentupimento, a mulher voltou a guardar o lenço na carteira e tirou, desta vez, um pequeno maço de notas que correspondia ao valor da taxa que vinha pagar nos nossos serviços. Logo a seguir, com o indicador direito em riste, começou a explorar o interior das narinas. Quando tirou o dedo, notámos que trazia uma pequena matéria esverdeada e elástica que ela examinou e colou numa das notas com um movimento de fricção que repetiu duas ou três vezes. A essa altura, já cada um de nós considerava mentalmente a hipótese de se atirar para o chão e simular um enfarte repentino só para não ter que a atender.
Finalmente, ao toque dum número, ela levantou-se e dirigiu-se à mesa dois. Pobre E*****! Tinha-lhe calhado o brinde! Pobre E*****!
No fim do atendimento, deixei-a ir lá fora fumar um cigarro e dar uma volta para espairecer. Ela merecia!
domingo, 6 de setembro de 2009
O homem fazia lembrar muito vagamente uma personagem dum recente anúncio de telemóveis, que anda na praia a urrar dum lado para o outro. Era seguramente mais novo do que eu, o que com o evoluir da conversa me veio a surpreender profundamente. Sentou-se à minha frente e eu assustei-me um bocadinho. Mas só um bocadinho.
ELE: Librete!
EU: Como?
ELE: Librete!
EU (a fazer exercícios mentais de relaxamento): Vamos lá ver, o que é que o senhor pretende? É alguma coisa relacionada com um ciclomotor, certo?
ELE: Deram-ma!
EU: Deram-lhe um ciclomotor, é isso? E o senhor quer regularizar a situação, é isso?
ELE: Mudar de nome!
EU: Muito bem. Tem alguma coisa aí que eu possa ver? Algum documento?
Ele sacou dum papel muito encardido, rasgado de outro maior, cheio de números rabiscados e rasurados.
EU: Isto aqui é a matrícula?
ELE: Motor! – e apontou para outro número mais abaixo.
EU: Sim, mas isto é a matrícula não é?
ELE: Hu!
EU: Pronto, estou a ver que isto é a matrícula. Só que há um problema, esta matrícula não é daqui. O senhor tem que ir a O******* do ******.
ELE: Mas eu não sei!
EU: Pode ir de comboio. O senhor é de cá?
ELE: Sou de C******** de B****.
EU: Sabe ir daqui para a estação?
ELE: Eu não sei ler. Vim de mota. Eu perdi-me c*ralho!
A partir daí, aquele homem grosseiro de mãos calejadas e olhos pequeninos e juntos, desatou num pranto à minha frente e, enquanto que as lágrimas lhe rolavam pela barba mal feita, repetiu as mesmas duas frases: - “Eu perdi-me c*ralho!”, “Eu não sei ler e perdi-me!”
Fui à internet e imprimi-lhe um mapa com o percurso assinalado. Indiquei-lhe a direcção do primeiro ponto e aconselhei-o a ir perguntando às pessoas pelo caminho. Fiquei amarga para o resto do dia. Isto não devia acontecer, não depois de terem inventado a inteligência artificial.
sábado, 5 de setembro de 2009
Por ter dúvidas quanto ao destino de alguns documentos para os quais eu não via qualquer utilidade, telefonei a um órgão de tutela a fim de me informar sobre o procedimento correcto: Arquivo ou destruição dos mesmos. A senhora que me atendeu respondeu-me muito arejada:
- É para destruir! Nós aqui destruímos isso tudo! São coisas que não têm utilidade nenhuma. Então porquê ficarem a ocupar espaço no arquivo?
- Tem razão – respondi eu – era o que eu pensava. Vou então pegar nisto tudo, rasgar e a seguir reciclar.
- É isso mesmo! Basta fazer um auto de destruição!
- Um quê?!
- Um auto de destruição! – respondeu ela como se eu fosse muito estúpida - É um auto que se elabora, onde se diz que nesta data foi destruído o documento tal e tal, e descreve o documento, vai a assinar ao superior hierárquico, regista-se e depois arquiva-se! Mais nada!
- Mas…
- Sim?
- Não… nada… Obrigada. Boa tarde…
- De nada! Boa tarde!
Isto é mais ou menos lavar a loiça toda para depois a meter na máquina. Digo eu.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Recebi um desafio, que veio daqui : Dar cartões vermelhos, o sonho de qualquer pessoa! Desde que, claro esses cartões se traduzissem mesmo em expulsão do jogo, isso é que era! Não é o caso, mas vamos fazer de conta.
1. O primeiro cartão vai para a Manuela Ferreira Leite, a mulher que quer pôr toda a gente a procriar de luz apagada e camisa de dormir até aos pés. Xôôôôôô!!!
2. O segundo cartão vai para o Paulo Portas, para o seu penteado estilo capachinho e para a dentadura branqueada e o ar de quem se julga inteligente. Xôôôôô!!!
3. O terceiro cartão vai para o Mário Nogueira. Faz-me lembrar um porquinho e é o mestre da arruaça. Vive à custa do estado e cospe no prato onde come. Não presta. Xôôôô!!!
4. O quarto cartão vai para a pescada cozida. Ninguém devia ser obrigado a comer pescada cozida, nunca!!!
5. O quinto cartão vai para o meu frigorífico que avariou, o cabrão ingrato! Depois de tudo o que fiz por ele!
6. O sexto cartão vai para a Carolina Patrocínio. Estava com algumas dúvidas nesta porque se as críticas deixassem marca esta miúda já andava toda negrinha. Mas que é estúpida é.
7. O sétimo cartão vai para a gripe A. Será que se a gente lhe der um cartão vermelho ela vai embora? Não custa tentar.
8. O oitavo cartão vai para os espirros. Odeio espirrar! Cada vez que espirro fico zangadíssima, e prio que tudo, não sei bem com quem.
9. O nono cartão vai para o "Cinco para a Meia Noite". Já chega!!!!!!
10. O décimo cartão vai para a república. A única coisa boa que trouxe foi um feriado a 5 de Outubro.
Pronto. E agora é suposto passar a pasta, por isso cá vai:
Emiele
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
- A Joana faz anos hoje.
- Pois faz, eu sei...
- Faz quarenta.
- Eu sei...
- Já falaste com ela hoje?
- Não, e até estou sem coragem. Nem sei como a enfrentar. Ainda nem lhe dei os parabéns.
- Nem eu, estou com o mesmo problema.
- Ela deve estar a passar o pior dia da vida dela!
- Coitada!...
- Pois é, coitada!...
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
- Oh D. A***! Mas aquele senhor não é seu tio?
- Não, aquele senhor é meu pai! Ele é tio mas é das minhas irmãs!
Por acaso, as charadas com graus de parentesco sempre me fizeram muita confusão. Esta, no entanto, deixou-me baralhada das ideias até agora.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
EU: Então?
ELA: Apareceu-me lá o J**** a convidar-me para sair, e eu não pude ir...
EU: Porquê?
ELA: Estava toda enrolada em película aderente.
EU: Para quê???
ELA: É uma receita que me deram para emagrecer. Enrolas-te toda em película aderente e deixas-te ficar assim umas horas. Depois tiras. Só que dá uma trabalheira a tirar... Não dava para ele ficar lá em baixo à espera... e também não dava para ele subir e ficar lá em casa à minha espera. Não lhe ia abrir a porta toda enrolada em película aderente!
EU: Cá para mim, andaste a enrolar o cérebro em película aderente.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
- Tu não vais. - respondeu-me ela - Isso é vulgar e ordinário e impróprio para miúdas da vossa idade.
Eu ainda ia perguntar qual era a idade própria para ir de sevilhana, mas a prudência recomendou-me que não o fizesse. Há que não esquecer que, naquele tempo, ser espanhola significava ser mulher de mau porte e uma ameaça para as lusas esposas. A minha mãe estava mesmo a sério.
Ficou decidido que eu iria de camponesa da Beira Baixa, de saia rodada, blusa de chita, um lenço enfiado na cabeça, um avental e uma espécie de saca do pão na mão. E no dia em que fomos ambas à costureira fazer a prova final, lado a lado, a Paula deslumbrante no seu vestido cheio de salero e eu com ar de quem ia dar de comer às vacas, quando olhei para ela e vi disparar dos seus olhos um raio de gozo pela minha triste figura, jurei que, nem que levasse cem anos, havia de me vingar. Como eu odiei a Paula nesse dia meu Deus!
domingo, 30 de agosto de 2009
Depois, lá ia o homem da casa para cima do telhado endireitar a antena. E era aí que se vivia um verdadeiro espírito de entreajuda familiar: A mãe e os avós ficavam em frente à televisão a fazer a supervisão técnica, e os filhos saíam para o quintal servindo de meio de comunicação. O pai ia virando a antena, muito devagarinho e perguntava:
- Está bom?
E os filhos perguntavam lá para dentro:
- Está bom?
Ao que a mãe e os avós respondiam:
- Não!!!
E gritavam os filhos lá para cima:
- Não!!!
Até que às tantas alguém gritava lá de dentro:
- Assim! Assim!
E os filhos outra vez:
- Assim! Assim!
E respondia o pai:
- Mas assim não dá senão tenho que ficar cá em cima a segurar!!!
E desta forma viajavam mensagens entre a sala de estar e o telhado até haver televisão outra vez. A maior parte das vezes, debaixo de mau tempo.
sábado, 29 de agosto de 2009
- Ai que bom! Aqui dentro está tão fresquinho! Que sorte vocês têm, lá fora está um calor que não se aguenta!
Na, verdade, estavam apenas 26 graus no exterior e 22 no nosso espaço. Eu respondi-lhe:
- Eu ainda nem tive oportunidade de sentir calor hoje, tenho estado sempre aqui. Mas também lhe digo, incomoda-me muito mais o frio.
Ela ficou de repente mais intimista. Chegou-se à frente, pôs a mão em cima do meu braço e confessou:
- Tem razão! tem toda a razão! Eu com frio, nem me mexo! E quando vou para a cama, se não calçar umas peúgas do meu marido... nem durmo!
