terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Conhecemos pessoas de muitas maneiras. Conhecemo-las no trabalho, na rua, no café. Porque somos apresentadas ou nos apresentamos. Basicamente, conhecemos pessoas porque nos cruzamos com elas na vida. Mas conhecer pessoas não é só saber-lhes a cara, a voz, como se vestem, se são altas ou baixas, magras ou gordas. Conhecê-las é também isto que aconteceu aqui. As pessoas que aqui vêm e me comentam são tão minhas conhecidas como o senhor da pastelaria que me serve o café. Curiosamente, até acho que são mais. São quase íntimas, duma forma de ser íntimo que não existia antes de terem inventado estas geringonças com teclados e monitores. Por isso, quando aqui entrei depois de muito tempo sem ter aberto esta página nem o respectivo mail, senti-me a coisa mais miserável. Senti que, de facto, há pessoas que estão apreensivas com a minha ausência. Tanto como se eu tivesse deixado de aparecer no emprego ou nos jantares de família sem dizer nada. O que aconteceu foi que de um momento para o outro, deixei de ter histórias para contar dentro da minha cabeça. E quando isso aconteceu fiquei angustiada e deixei de vir aqui. Sentia-me mal com isso. Depois pensei em apagar o blog. Depois ainda pensei que não. Que ia esperar. Que podia ser que isso mudasse e então eu voltaria.
Não estou doente, não aconteceu nada que pudesse perturbar a minha vida a não ser perder a inspiração, se é que alguma vez tive alguma. Sei que ao ler isto, alguns de vocês terão vontade de me bater. Estão cheios de razão. Só posso pedir-vos que me perdoem.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

-Aqui onde diz na qualidade de, escrevo "boa"?
- Não. Escreve proprietário.
- Eu bem desconfiava...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ao meu lado, em frente a um espelho da mega-store, a senhora mais ou menos fortezinha experimentava um blusão, supervisionada pela empregada. Na verdade, parecia mais que estava dentro duma camisa de forças, pronta para ser levada numa ambulância.

- Não estará um bocadinho apertado? – perguntava ela – É capaz de ser melhor o tamanho L.

-Não! Imagina! – respondeu-lhe a empregada brasileira – Esse blusão não é para usar apertado até acima! Aperta só aqui em baixo, tá vendo?

Claro que se fosse portuguesa responderia exactamente o mesmo para dizer que só havia M. Só que era sem sotaque.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

- Os americanos, vou-lhe dizer uma coisa e a senhora pode acreditar à confiança… São umas bestas!

- Acha? – perguntei, já adivinhando qualquer coisa engraçada.

- São! E as pessoas cá fora nem sabem! Quem já lá esteve, como eu, é que sabe como as coisas são. E posso-lhe garantir, são uns estúpidos! Por exemplo, veja esta: “Make sure”, sabe o que é que quer dizer “make sure”? Ter a certeza. Pois sabe como é que se traduz? Fazer certeza! Isto tem alguma lógica? Só na cabeça daqueles parvos! E por exemplo: “Let me know”, sabe o que é que quer dizer “Let me know”? Informa-me. Sabe como é que se traduz? Deixa-me saber! Por amor de Deus? Porque eles não falam como as pessoas normais??? A maior parte das pessoas nem sabe estas coisas, a senhora não sabia pois não?

Ainda estive para o deixar saber que sou professora de inglês, embora não praticante. Mas para quê “desenganá-lo”?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mesmo no meio da minha explicação sobre o procedimento para pedir autorização de venda ambulante, o homenzinho pequenino de boné e camisa de flanela aos quadrados olhou para o seu próprio ombro e, visivelmente irritado, ralhou:
- Shhhhhhh! Está calado!
Eu, sem ver ninguém ali por perto, parei por momentos, surpresa. Entretanto e como a atenção dele já se tinha virado novamente para a minha pessoa, continuei. Mas ele interrompeu mais uma vez e mais uma vez voltado para o seu próprio ombro:
- Já te disse para estares calado! Não vês que a senhora está a falar? Ai!
E depois para mim:
- A senhora desculpe.
Se eu me ri? Não. Não me ri. Há coisas delirantemente cómicas que não dão para rir.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Quando precisam, as pessoas conseguem ser cheias de recursos. Como uma amiga minha que, tendo combinado um encontro com alguém que não o marido e tendo saído de casa sob a desculpa de ir jantar com amigas, começou a ter uma sensação estranha de estar a ser seguida. Não tinha visto ninguém, não tinha ouvido nada, mas qualquer coisa, talvez aquela a que chamam o sexto sentido mas que neste caso também se pode chamar culpa, lhe dizia que não estava só enquanto fazia o percurso até ao hotel. Então, teve uma ideia. Ligou ao marido, pôs uma voz de pânico verdadeiro e disse:
- Estás em casa??? - nem deixou responder - É que eu tenho a certeza que me esqueci do ferro ligado em cima duma peça de roupa e a casa vai arder! E agora???
Tinha que resultar. E resultou.
Acho que é a isto que também se aplica aquele provérbio: "A necessidade aguça o engenho".

domingo, 10 de janeiro de 2010

A minha filha tinha quatro anos e tinha feito um disparate qualquer de que não me recordo, só sei que estava a repreendê-la. Lembro-me da cena porque ela me respondeu, seriíssima:
- E tu? Nunca te enganas? Não? És como o Cavaco Silva?

sábado, 9 de janeiro de 2010

Se por acaso a minha mãe descobria que eu tinha saído de casa sem fazer a cama, estava o caldo entornado. Só que havia um problema, eu odiava fazer a cama, odiava arrumar o quarto, odiava tudo o que me pudesse cheirar levemente a trabalho doméstico. Então um dia tive uma ideia brilhante, daquelas que até se nos acende uma lampadazinha a pairar acima da massa encefálica: Ia deixar de ter que fazer a cama!
Durante uma semana dormi no chão, em cima do tapete, coberta com o meu casaco comprido. Aguentei-me pelo menos até andar toda partidinha das costas como se tivesse tido cinquenta aulas seguidas de educação física após as férias grandes.
Depois verguei, que uma rapariga tem limites. E lá comecei a fazer a cama todos os dias antes de ir para a escola.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De repente ela irrompia num riso tão compulsivo que tinha que tirar os óculos e limpar os olhos com um lencinho. Pelo meio das gargalhadas saíam uns "Ais" assim como quem se queixava de ter chegado a um limite.
- O que é que se passa D. E****? - perguntávamos nós, mas sabendo bem o que se passava.
Então ela pegava na deixa e lia em voz alta a anedota familiar que estava a ler na Dica da Semana que tinha escondida na gaveta da secretária. E nunca, mas nunca, reparou que nós não achávamos piada nenhuma.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Há um velhinho muito velhinho, daqueles para quem nós olhamos e pensamos "quem me dera chegar àquela idade sem fazer xixi nas calças", que costuma ir ao mesmo restaurante que eu. Vai sozinho, o que é indicador de que vive sem companhia. Não sei o nome dele, mas chamo-lhe mentalmente o senhor do leite-creme.
Senta-se sempre ao balcão, num daqueles bancos altos que não são para todos e janta no meio de grandes conversas com os empregados. Quando chega ao fim pergunta o que há de sobremesa:
- Há um leite-cremezinho como o senhor gosta!
- Ah! Hoje não quero leite-creme!
- Não quer? Pronto, o senhor é que sabe! Então temos mousse de chocolate, maçã assada, s'ladinha de fruta, baba de camelo e tarte de ovos moles.
- Nem sei...
- Uma maçãzinha assada?
- Ah!... Não...
- Uma moussezinha de chocolate?
- Ah!... Não...
- Então, uma tartezinha? Está muito boa!
- Ah!... Não...
- Então uma s'adinha de fruta!
- Ah!... Não... Olhe... traga-me um leite-creme para variar!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A minha preferida era a Pipi das Meias Altas. Vivia sozinha e o pai só aparecia de vez em quando para lhe dar dinheiro. Não havia ninguém para a mandar arrumar as coisas depois de brincar.Tinha a força de dez homens e a agilidade dum macaco. Também tinha um macaco. E um cavalo. Não ia à escola e saltava à vontade em cima dos sofás. Só comprava chocolates e rebuçados. Fumava charros com os amigos deitada na relva do jardim. Era um péssimo exemplo para todas as crianças porque felizmente nesse tempo ainda não se tinha inventado as coisas "educativas". Depois foi a tristeza. Veio a Heidi e o Marco, a Abelha Maia e os Moscãoteiros. E até mesmo a Pipi em versão mais moderna já se portava quase bem.
Curiosamente, a geração da primeira Pipi saiu muito mais educada do que as que lhe seguiram.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Abro o frasco e inspiro. O cheiro do doce de tomate!...
O dia em que se fazia doce de tomate lá em casa era para nós uma festa tão animada como o natal ou os aniversários. Distribuídos em alguidares de plástico por toda a cozinha, havia quilos e quilos de tomates encarnados de maduros que a minha mãe mergulhava em água a ferver para tirar a pele que se encolhia e encaracolava e parecia magia. Quando fiquei uma "mulherzinha", não sei ao certo que idade tinha mas foi assim que me explicaram, fui autorizada a ajudar nesta operação que já era capaz de realizar sem queimar os dedos. A seguir tirava-se-lhes as graínhas e cortavam-se aos pedaços. Depois, iam ao lume com o açúcar e o cheiro ia enchendo a casa toda, devagarinho. Lembro-me de tudo só naquele cheiro.
No fim era altura de provar antes de guardar em frascos. Estava muito quente e era preciso soprar até se conseguir degustar sem queimar a língua. Eu queria sempre provar o doce de tomate enquanto estava quente. Era quando o cheiro já tinha invadido os nossos sentidos todos e dava muita, muita vontade. Depois, no resto do ano, nem me lembrava que havia doce de tomate lá em casa. Até porque não gostava. E ainda não gosto.