sábado, 14 de fevereiro de 2009

Comprei um vinho branco para cozinhar. O mais barato, como sempre. E quando, já em casa, abri a garrafa, soltou-se dela um cheiro a infância: A loja do Sr. Serafim. Ficava na esquina da rua onde eu morava, agora é um parque de estacionamento. Era um lojinha escura onde eu ia comprar tomate ou feijão verde ou outra coisa qualquer que a minha mãe precisasse numa emergência. Uma lojinha dividida em duas partes, em que na da frente, a mulher do Sr Serafim, uma mulheraça grande de cabeleira farta de caracóis negro-azulado, vendia mercearia às mulheres, e na de trás, mais recatada, o Sr. Serafim vendia vinho aos homens em copos de vidro grosso e baço pelo tempo. Uma passagem em arco de madeira muito velha e carcomida separava as duas alas. Mas mesmo assim, podia ver-se lá no fundo os grandes pipos e os banquinhos onde eles se sentavam para beber e jogar dominó numa mesa de oleado. Ouvia-se indistintamente as vozes e as gargalhadas e o cheiro era sempre a vinho que tinha envelhecido depois de cair no chão por lavar e lá ter ficado.
Ah! Já não usei o vinho que tinha comprado.

7 comentários:

A Senhora disse...

Puxa... Até eu senti o cheiro e saudades deles!:)

Monday disse...

essas coisas que lembram infância são sempre deliciosas ...

mfc disse...

Que memórias boas...
Um dia convido-te para almoçar e escolho um vinho de trás da orelha para voltares a gostar dele!

Castanha Pilada disse...

E neste caso, senhora, o cheiro não era nada bom!

Monday, no geral são sim...

mfc, mas achas que eu bebo coca-cola? :))))

Emiele disse...

Olha que eu creio que é «científico» o sentido do cheiro é o que está mais fortemente relacionado com a memória. a gente pode esquecer muita coisa, mas que é reavivada quando sentimos de novo o cheiro.
Muito boa a tua história.

Vap disse...

Engraçado, na minha rua, no Porto, tinha uma "loja" igual a essa.
Era o "Presuntinho" ficava na Rua de Santo Ildefonso.
De repente também me veio à memória o cheiro do vinho derramado no chão sujo.

Castanha Pilada disse...

Emiele, não sei dessa parte científica. Mas faz muito sentido sim.

O Presuntinho era muito mais carinhoso!!! :)))