terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Num tempo tão velho que já nem é o meu, que já tenho uma estadia razoável sobre a terra para me lembrar de coisas bem estranhas, naquele tempo em que a virgindade das noivas tinha uma cotação real no mercado de valores, aconteceu esta história.
Na noite do seu casamento, a C****, virgem de corpo mas não tanto de mente, que naquele tempo a cabeça já vagueava tanto como hoje ou talvez mais, retirou-se para o quarto de hotel com o seu recém-marido, como ditavam os costumes e sempre se fazia. Ansiosa e excitada com as descobertas que a noite lhe reservaria, trancou-se na casa de banho para se arranjar, munida de todos os segredos e truques de todas as amigas mais experientes (leia-se casadas). O perfume, a lingerie, a camisa de dormir, os cremes e até o tempo em demasia a preparar-se para impacientar o amante e se "fazer cara" uma última vez, tudo lhe tinha sido recomendado e explicado ao pormenor. Uma hora depois de entrar, a C**** saiu da casa de banho triunfante mas tímida, radiante nas suas vestes brancas, pronta para enfrentar a primeira e a última das noites de sonho antes de se tornar doméstica e parideira, como também era costume nesse tempo. Só que, ao contrário de tudo quanto lhe tinham prometido, logo que passou ao quarto, a C**** teve uma visão de horror. Cansado e gasto pelo dia agitado, pela comida em exagero, pela bebida a mais, pela cerimónia, por tudo, o marido, com o nó da gravata desapertado, deitado de costas na cama, dormia profunda e sonoramente, de tal maneira que nem quando ela bateu propositadamente a porta da casa de banho ele acordou.
Depois de alguns minutos ali especada, ridiculamente aperaltada como se fosse fazer um close-up num filme sobre a noiva de Drácula, a C**** decidiu-se. Voltou para a casa de banho e vestiu-se para sair. Depois, sentou-se numa cadeira ao lado da cama e esperou, horas a fio, que o marido acordasse. Finalmente, quando o sol já entrava pela janela, ele acordou. Olhou para ela e sorriu, como se nada fosse. Ela, seriíssima e adivinhando o que lhe ia na cabeça, levantou-se e disse-lhe, secamente:
- Que bom que já acordaste, querido! Então prepara-te e vamos sair. Já é dia!
Calcorrearam toda a cidade a visitar museus, monumentos, jardins, tudo o que havia para ver, e ele sem perceber muito bem o que se passava. Já de noite regressaram ao hotel e ela fez-lhe saber que, coitado, devia estar muito cansado, que dormisse que ela já vinha, e trancou-se novamente na casa de banho mas desta vez para ela própria dormir, encostada na banheira.

- Aquele cabrão pensava que se safava assim! - contava a C**** em grupos de amigos, muitos anos depois, sempre no meio de gargalhadas - Andou mais de quinze dias até me conseguir pôr as mãos em cima! A vingança duma mulher rejeitada é terrível!

13 comentários:

A Senhora disse...

Fico imaginando ele, sem entender absolutamente nada, achando que tinha casado com uma maluca! :)))))

E no entanto... Terrivelmente certa!!! :))))

Miepeee disse...

Ahahahaha, fabuloso!
Grande C***** :)

Escrevendo na Pele disse...

Pôxa vida, nem sei o que dizer. Rsrsrsrs, fiquei aqui numa tremenda expectativa como se a noiva fosse eu! Bjs.

Castanha Pilada disse...

Senhora, os homens nunca percebem nada do que lhes acontece, valha-me Deus! Lol!

Miepee, naquele tempo é que elas eram f*didas! Essa é que é essa! Lol!

Escrevendo na Pele, é que isto era uma história de suspense! Uhhh!!!

Mai disse...

Um bom suspense em tom de castanha...
mulheres gostam de 'vingancinhas'...
Mas perdem elas um bom tempo.
Já não perco, tempo é ouro. Dormir em banheira?
nananina...

Anónimo disse...

Peço desculpa por vir ocupar um espaço que é seu, com um assunto que não tem nada a ver com o teor do “post”, mas garanto que é por uma boa causa: a DEFESA DA CULTURA POPULAR. Permita-me que aqui publicite os VII JOGOS FLORAIS DE AVIS, cujo regulamento se encontra disponível em www.aca.com.sapo.pt e cujas dúvidas podem ser esclarecidas pelo 969015106.
Grato pela amabilidade, queira receber saudações culturais do
Fernando Máximo/Avis

kuka disse...

Essa C**** teve uma sorte do caraças. Casou com um homem muito bondoso. "nesse tempo" não se podia dar a esse luxo. Tinha que o gramar. Nem que fosse à porrada.
Pelo menos é o que tenho "ouvisto" dizer.

Taralhoca disse...

Não importa em que tempo seja cá "nozes" gostamos de ser valorizadas. E nunca deixámos de ser vingativas (sempre com justa causa, obviamente)

Nós, Os Cachorros!!! disse...

Amei esta história!!!

mfc disse...

A vingança tanto se serve fria... como 15 dias depois!

Castanha Pilada disse...

Mai, uma boa vingança nunca é perda de tempo!!! Lol!!!

Fernando, sempre às ordens, jogos florais é comigo! :)))

Kuka, acho, não tenho a certeza, que nesse tempo já havia gajos decentes.

Taralhoca, está tudo dito! :)))

Obrigada Nós os Cachorros! :)))

mfc, como é que aquilo correu 15 dias depois não sei...

Emiele disse...

:)
Assim é que é! Definir logo as regras no início, ou a coisa descamba logo para o torto.
A história é óptima.
Kuka, olha que isto se calhar não foi assim também há tanto tempo como isso, e nem sempre as coisas se passavam 'à porrada' - coisa que ainda hoje como sabemos se passa muito, e em várias classes sociais... Sempre houve de tudo.
Falando um pouco a sério sobre uma história a brincar, o certo é que a pedra de toque numa relação é o respeito mútuo. A noiva sentiu-se 'desrespeitada' com aquela bebedeira num dia importante e a resposta foi excelente!

Castanha Pilada disse...

O Kuka é um radical!