terça-feira, 3 de março de 2009

Cresci, até à minha pré-adolescência, num meio rural, mas protegida como qualquer menina urbana mimada. Não me era permitido sair dos muros da nossa propriedade a não ser para ir à escola e à missa, onde os meus horários de ida e volta eram controlados ao minuto. Por isso, eu não conhecia nenhum dos segredos que as crianças rurais conheciam. Sabia tocar um instrumento musical, pois tinha um professor particular para isso, sabia o que era uma televisão, um aspirador, uma máquina de lavar e um frigorífico, coisas que para as minhas colegas eram apenas mitos de que tinham ouvido falar vagamente. Sabia comer de faca e garfo, tinha uma casa de banho com banheira e água quente corrente, coisas quase desconhecidas na aldeia.
Desconhecia totalmente o que era a vida do seu início até ao seu fim porque, ao contrário das outras crianças que corriam livres pelos campos, eu nunca tinha visto os animais do rebanho a acasalar, nem um vitelo nascer, nem o ritual de espetar uma faca na jugular dum porco, nem a vida a jorrar-lhe de lá de dentro em forma de sangue para alimentar os homens.
Quando tinha nove anos, eu ainda pensava que as crianças se mandavam vir de França embrulhadas numa embalagem endereçada. E quando as minhas colegas ignorantes tinham, à minha frente, conversas que ouviam aos adultos do seu meio, que viviam as suas vidas com a simplicidade da dos animais, sem tocarem instrumentos musicais nem usarem electrodomésticos, eu nunca percebia nada. Depois, ia para casa perguntar à minha mãe o que queria dizer "alcançar um bebé", "parir", "desonrar e casar", "por-se nela", "servir-se dela" e outras coisas normais na vida das pessoas duma aldeia do Portugalzinho cinzento de então, ao que ela me respondia sempre que tinha tempo. Tinha tempo...

9 comentários:

A Senhora disse...

É tão bom ter uma mãe que tem tempo embora mime a gente... :)
Eu sempre me lembro de quando perguntei à minha sobre sexo oral e anal...:)))
Bons tempos... :)

Emiele disse...

Eu era menina de cidade e não dava para «ver» essas coisas que os miúdos do campo aprendiam de pequenos. E na minha casa também não se explicava nada bem explicado, mas sou mais velha do que tu e realmente mantive-me longe das «verdades da vida» até muito tarde.
Contudo essa dos bebés perguntei directamente ao meu pai, numa de patriotismo, porque achava escandaloso que viessem de Paris. Fui muito frontal a pô-lo entre a espada e a parede: se nasciam numa árvore porque é que não se trazia uns ramos dessa árvore para plantar cá, e se eram feitos numa fábrica, porque é que não se montava uma fábrica dessas também cá?! Acredita que ainda me lembro da conversa, porque já tinha aí os meus 5 ou 6 anos, e foi ele que me esclareceu sem muitos pormenores mas sem mentir.

Saltapocinhas disse...

ufa!
eu estava do lado de fora do muro, felizmente!!

Monday disse...

o duro é que ainda hoje essa coisa de ter tempo perdura ... e não é nas aldeias, não ...

mfc disse...

Acho que todos vivemos dentro desse muro!

Gi disse...

E depois, como aconteceu ao meu irmão, foi pai adolescente e deixou de ter tempo.

Castanha Pilada disse...

Senhora, essa conversa das revistas pornográficas com a tua mão marcou-te mesmo, lol!

Tem graça Emiele, nunca cheguei a pensar nisso do ponto de vista do patriotismo. Mas não está mal pensado não senhora, é como as campanhas do que é nacional é bom.

Saltapocinhas, sorte tua!

Sim Monday, perdura, mas agora é mais quando eles perguntam sobre outas coisas. Tabus há sempre.

mfc, a Saltapocinhas diz que não...

Pois Gi, também eu fui... quer dizer, não pái. Mãe. :)))

Nós, Os Cachorros!!! disse...

Passaste isto na infância... e eu agora...
Aqui a maior parte das pessoas não connecem muitas coisas a que vivi no Brasil...
Tive uma infância e adolescencia privilegiada, coisa que a maioria dos brasileiros que veio para cá não tiveram...
Sua maioria veio do interior dos estados e da roça...
Não tenho minha mãe para perguntar certas coisas que vejo e escuto pela vida, mas posso lhe dizer que as vezes me sinto um alien... rs

Castanha Pilada disse...

Há sempre alguma altura da vida em que nos sentimos aliens :)