segunda-feira, 18 de maio de 2009

A C****** chamou-nos propositadamente lá a casa para sermos testemunhas da desgraça que lhe tinha acontecido.
- Vejam! - disse ela assim que chegámos, apontando para um canto do quarto.
Aí, um objecto em faiança vidrada representava grosseiramente um casal de namorados, com o olhar posto no horizonte e segurando, cada um, a ponta dum arco composto por flores cor-de-rosa e brancas. Ela era loura mulher-a-dias e ele, ajoelhado, vestia um fato de primeira-comunhão com gravata azul-bebé. A composição estava em cima duma coluna grega também em faiança, também cor-de-rosa mas com umas pinceladas de dourado. Na verdade eu nunca tinha visto uma coisa tão feia desde as viagens que fazia em miúda no comboio-fantasma.
- E agora, o que é que eu faço a isto? - perguntou ela desesperada.
- Não podes... deixar tombar acidentalmente a limpar o pó? Esconder no sotão?
- Nem pensar! Conheço muito bem a minha madrinha! Vai andar sempre na minha casa a ver se eu tenho a prenda de casamento que ela me deu em local bem visível! E esta porcaria deve ter custado uma pequena fortuna!
- E trocar?
- Ela ofendia-se de morte! Além do que, na loja onde ela comprou isto, não deve haver nada melhor!
- Então não sei - e todas acenaram com a cabeça em jeito de pesar - estás mesmo lixada...

Algum tempo depois, vim a saber que a C****** tinha a escultura de faiança atrás duma porta, bem escondida, e sempre que a madrinha aparecia de surpresa alguém ia a correr puxar aquilo para um local de honra. Aí ela, orgulhosa, dizia sempre:
- Ainda bem que gostaste! Quando fizeres anos dou-te outra muito linda que lá há. É um rajá sentado num elefante dourado! Tens a casa tão pobrezinha mulher!
Não sei se cumpriu a ameaça.

7 comentários:

Saltapocinhas disse...

Também tenho alguns mamarrachos... mas enfiei-os todos num caixote, longe das vistas...

bell disse...

Bem feita, mais valia ter sido sincera, agora não se livra dos mamarrachos.

Emiele disse...

Mas a sinceridade é difícil, Bell.
Eu ia antes por uma «diplomacia cínica», do tipo «é muito lindo mas não diz com a minha casa, fica muito melhor na sua» ou coisa assim. É que o partir podia ter o problema de a madrinha o ir substituir por outro igual.
Lembro-me que em caso de uns tios meus havia «uma coisa» chamada por todos de 'o monstro' que era para pôr em cima da secretária, de bronze ou lá o que era, que era um conjunto com tinteiro, porta-canetas, mata borrão, faca de papel, (eu já nem sei, tudo o que se usava numa secretária antigamente) encaixado numa única estrutura 'artística' enorme e pesadíssima.
E essa nem se partia...

A Senhora disse...

Eu tenho uma salinha especial para isso... :) Bem lá no fundo da casa... :))

beijinhos

Castanha Pilada disse...

Saltapocinhas, é porque não tens uma madrinha daquelas.

bell, e coragem?

Estou a ver Emiele, optavas pela solução política ;)

Senhora, grande luxo hein? Onde há casas desse tamanho?

Mariquinhas disse...

Esta história fez-me lembrar um elefante (também em faiança,objecto enorme e feio) que a minha sogra tinha em cima do guarda-fatos do seu quarto de cama.Ela dizia que era para dar sorte e que não havia ninguém (na época)que não tivesse como prenda de casamento um elefante.
A minha sobrinha gostava muito e depois da avó morrer fez questão de o herdar (já crescida), dizia que agora estava na moda o "Kitsch" e que tinha muito valor,todos concordamos e a moça ficou feliz!
Há sacrifícios que podem vir a compensar!
Estou ser calculista e mázinha.
Os meus "tarecos" dou para o bazar da Igreja mas, não tenho madrinhas...

Castanha Pilada disse...

A C****** também tinha um elefante prometido, que bom! :)))