segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Eu, os meus irmãos e mais alguns miúdos da vizinhança decidimos fazer uma aposta para ver quem era mais corajoso: Descer de bicicleta um morro de uns três ou quatro metros de altura, quase a pique, que tinha ficado ali depois dumas obras. Os miúdos aproximaram-se mas olharam cá para baixo e tiveram medo. Tentaram várias vezes e desistiram. Mas eu, que era a mais velha, não podia deixar os meus créditos por mãos alheias. Subi a pulso com a minha bicicleta pelo lado mais fácil e depois de a montar, aproximei-me do lado mais íngreme. Quando olhei cá para baixo tive a sensação de estar à entrada do inferno e embrulhou-se-me o estômago.
- Isto? Isto é canja! - disse eu - Vocês é que são uns mariquinhas!
Nos olhos deles, vi um misto de revolta pelo meu insulto e admiração pela minha ousadia. Já não havia como voltar atrás. Mentalmente, contei até três, afastei as pernas pois não valia a pena dar aos pedais naquela desgraça, respirei fundo e lancei-me. Com o balanço brutal que apanhei, só parei uns bons metros à frente, no meio dum emaranhado de silvas, com bicicleta e tudo. Depois, só me lembro de olhar em volta e ver os meus irmãos assustados a olhar para mim do lado de fora das silvas, como que a pensar que, se eu morresse ou saísse dali com alguma coisa partida era uma chatice pois teriam que confessar o que andávamos a fazer.
Com algum esforço e completamente cravada de espinhos, repleta de arranhões pelo corpo todo, consegui sair dali e tirar a bicicleta. Entrei em casa às escondidas e fui para o meu quarto arrancar espinhos, pôr mercurocromo nas feridas e mudar de roupa. Parecia que tinha sido atacada por uma crise fortíssima de sarampo. No entanto, que eu me lembre, ninguém lá em casa me perguntou o que tinha acontecido. Eram mesmo outros tempos...

11 comentários:

mariabesuga disse...

Um cadinho endiabrada não, dona Castanha Pilada?!...

Rimou mas juro que não foi de propósito.

Deliciosas estórias.
Beijinhos

(e os meninos passaram a respeitar-te mais ou nem assim?!...)

Lumitoca disse...

não há nada que chegue a lembranças de grandes aventuras e de medos vencidos, mesmo quando correm menos bem

A Senhora disse...

Uau! Eu tenho uma história tão parecida que fiquei quase arrepiada!
No meu caso foi descer de uma árvore numa corda de nylon, sentada num pauzinho. Antes tinha sido aquelas descidas como soldados atravessando precipícios.
Tenho a cicatriz até hoje na perna. Mas não chorei! :)

Isso que é infância! :))

Taralhoca disse...

:)))))))))))))))))
Era eu pequena demais para lembrar os detalhes, seguia atrás do meu primo vereda adiante, ele de bicicleta, quando o dito tropeça e me cai para a barroca ao lado. Barroca essa com dois metros de altura. Felizmente cheinha de silvas. Não partiu a cabeça, mas ficou todo esgadanhado, o que constatámos depois que as minhas tias o puxassem de lá para fora. E não foi pior porque eu corri tão depressa quanto as minhas pequenas pernas o permitiam para as chamar.

Castanha Pilada disse...

Não mariabesuga, eu já disse aqui uma vez, a minha mãe ainda hoje diz que eu era uma santa! Por isso era. Mainada.

Lumitoca, esta cena dava um filme. Uma curta-metragem, vá.

Senhora, eu também não chorei. Era o que faltava!

Taralhoca, começo a achar que cair nas silvas é um ritual iniciático. Lol!

Emiele disse...

Valente e orgulhosa!!!
Palmas!

Cá eu, também era um tanto orgulhosa, assim de «não dar nunca o braço a torcer» mesmo que uma coisa doesse, ou no fundo visse que não tinha razão, mantinha-me na minha. mas avarias dessas não me lembro de ter feito.
Pais simpáticos que tiveste, heim?...

Emiele disse...

Ah, ainda não respondi à cadeia das 3 promessas, mas não está esquecida...

mariabesuga disse...

Bom vinha dizer-te que tens lá um selinho "seu blog é viciante" mas já ficas com ele a duplicar e já lá foste dizer isso...
então... olha desejo-te:
DIA FELIZ!!!...

isto não é a gritar é para se ver melhor :)

Mariquinhas disse...

Pois é, tal como tu, também fiz algumas avarias (não tão masgestosas lol) e vivenciei outras que só se poderiam aconter quando crescemos em espaços "abertos"- "uma infância feliz" como disse a Senhora. Já o meu filho mais velho, embora com o previlégio de passar férias todos os anos nos Açores,não teve tanto espaço e lembro-me que o Jardim em lisboa da Casa da moeda ( lá perto vivia a minha mãe) era o seu quintal e dos amigos e de ele dizer, com alguma frustação -"não tenho uma cicatriz como os meus primos, sou mesmo um menino de cidade" - era, também, o que lhe diziam os primos dos Açores, todos orgulhosos dos seus feitos, como tu :))
Outra coisa que me fazia impressão, enquanto lá vivi e já nos últimos anos, era ver os meninos festejarem o aniversário nas pizarias dos centros comerciais em espaços exíguos e descaracterizados - as alternativas seriam para bolsas mais recheadas.
Nota-reparei que viste o filme:))
Obrigada!

Saltapocinhas disse...

Eu fazia isso com os meus primos e chamavamos-lhe "cursos de coragem"!
Também era (ainda sou, sniiif) a mais velha e por isso não podia dar parte de fraca... e por isso também me aconteceram alguns acidentes.
Se fosse agora lá ias tu ao programa do Goucha contar a tua história e meter em tribunal os gajos das obras!

Castanha Pilada disse...

Emiele, em certas coisas os meus pais permanecem um mistério para mim.

mariabesuga, dois é melhor que um!

Mariquinhas, esta em particular já aconteceu na cidade. Numa zona que agora é de ruas iguais e apartamentos. Começavam na altura a ser construídos.
Nota: Vi o filme e achei que tens um óptimo ar :)

Saltapocinhas, acho que para o lado dos gajos das obras aquilo já prescreveu.