terça-feira, 8 de setembro de 2009

A minha aldeia foi talvez uma das primeiras neste país que, pela mão do padre, teve direito a coisas que agora são banais: Uma creche para deixar as crianças enquanto as mães trabalhavam, um auditório para teatro e outros espectáculos, um recinto desportivo e uma biblioteca. Por questões de temperamento nunca me aproximei muito do campo de andebol. Ainda hoje guardo desses lugares uma distância respeitosa. Frequentava sim o auditório, a maior parte das vezes como pequena candidata a estrela em teatrinhos de escola, mas acima de tudo frequentava a biblioteca, onde trabalhavam por turnos jovens voluntários que estudavam na cidade vizinha. Praticamente todas as semanas eu levava um livro para casa e devolvia o anterior. O pior era quando lá estava o Henrique! O chato do bem intencionado Henrique! Mal eu entrava, em busca de mais um livro de histórias de fadas e princesas encantadas, ele dirigia-se logo a mim, como se eu fosse uma doente que ele tinha apostado em curar:
- Hoje tenho ali um livro bom para ti! Vais gostar!
E entregava-me qualquer coisa didáctica ou então uma daquelas histórias que começavam a estar na moda na altura, em que não acontecia absolutamente nada a não ser um menino que ia para a escola e encontrava um cãozinho e o cãozinho ladrava e depois iam os dois muito contentes pelo caminho e pronto. Eu folheava aquilo, mais por delicadeza do que por interesse, e ia à socapa trocar por um livro a sério. Quando ia fazer a ficha, lá tinha que ouvir a reprimenda:
- Vais levar isto? Tu devias ler livros melhores, com mais qualidade!
Dah! Como é que eu ia explicar àquele projecto de intelectual da revolução que só estava interessada em histórias onde acontecessem coisas? Como é que eu podia fazê-lo entender que para chatice já bastava o dia-a-dia na escola? Que o que eu queria era história de bruxas terríveis, feitiços inacreditáveis, mundos imaginários, fadas intangíveis, princesas deslumbrantes em castelos singulares, monstros ameaçadores e poderes mágicos nunca vistos?

10 comentários:

Paula Raposo disse...

Por vezes não nos fazemos entender, é uma verdade. Beijinhos.

Saltapocinhas disse...

(ainda agoniada pela leitura do post anterior...)

Eu ia à biblioteca itinerante e o velhote (gostava de nos agarrar, agora tenho a certeza de que era pedófilo!!)nunca me queria deixar trazer os livros todos que eu queria (5 ou 6). Dizia ele que eu não lia aquilo tudo! E eu lia aquilo tudo em 2 ou 3 dias e depois passava o resto da quinzena a reler.
Até que resolvi o meu problema: arrebanhei para a biblioteca uns garotos da vizinhança. Eles traziam os livros que depois deixavam na minha casa!

Sininho disse...

ainda hoje existem pessoas que por não terem vida propria vivem as vidas dos que as rodeiam...
bjs

Castanha Pilada disse...

Paula, é mesmo.

Saltapocinhas, grande sortuda! Eu só trazia um por semana... e ainda tinha que me bater por ele!

Sininho, nem sei se é por isso, mas há pessoas de facto muito preocupadas com a vida dos outros.

Mariquinhas disse...

E, não sendo assim, não te chamavas Castanha pilada e, não tinhas um blog
com "histórias" incrivéis e, a gente não se divertia tanto e,;))
Obrigada Castanha e muita saúde!

A Senhora disse...

Eu tinha a biblioteca do meu avô. Toda semana roubava dois dele. Quando ele percebeu, disse que quando morresse me deixaria de herança (como de fato deixou), mas antes disso que eu devolvesse os livros e jamais levasse "Os Miseráveis". Nas férias eu passava horas lendo... adorava! E não tinha ninguém para dizer qual era o melhor. Só descobria depois. :)

Emiele disse...

No meu tempo de criança creio que nem havia ainda bibliotecas itinerantes, mas a verdade é que lá em casa existiam milhares de livros (dos que não eram para a minha idade...) bastantes (dos que eram para a minha idade...) e ainda por cima os meus pais não regateavam a compra desses bens. Eu tinha uma estantezinha no meu quarto com muito mais livros do que qualquer criança que conhecesse! Mas além disso, comecei já aí aos 8 anos a comprar uns em segunda mão numa espécie de alfarrabista lá no meu bairro. Menina sortuda, eu!

Kruzes Kanhoto disse...

Ou seja, um livro todo revolucionário.

Mariquinhas disse...

E, não fosse - se não tivesse sido assim e não "sendo" ,neste caso;))

Castanha Pilada disse...

Mariquinhas, obrigada! Até fico "embaçada"!

Senhora, pode até ser um lugar-comum, mas na verdade é um privilégio poder passar a infância rodeado de livros.

Emiele, na minha casa não havia tantos assim, mas também não me posso queixar.

Kruzes, houve uma certa moda do "nem coiso nem sai de cima" nos livros para crianças, tadinhas!