domingo, 6 de setembro de 2009

O homem fazia lembrar muito vagamente uma personagem dum recente anúncio de telemóveis, que anda na praia a urrar dum lado para o outro. Era seguramente mais novo do que eu, o que com o evoluir da conversa me veio a surpreender profundamente. Sentou-se à minha frente e eu assustei-me um bocadinho. Mas só um bocadinho.

ELE: Librete!

EU: Como?

ELE: Librete!

EU (a fazer exercícios mentais de relaxamento): Vamos lá ver, o que é que o senhor pretende? É alguma coisa relacionada com um ciclomotor, certo?

ELE: Deram-ma!

EU: Deram-lhe um ciclomotor, é isso? E o senhor quer regularizar a situação, é isso?

ELE: Mudar de nome!

EU: Muito bem. Tem alguma coisa aí que eu possa ver? Algum documento?

Ele sacou dum papel muito encardido, rasgado de outro maior, cheio de números rabiscados e rasurados.

EU: Isto aqui é a matrícula?

ELE: Motor! – e apontou para outro número mais abaixo.

EU: Sim, mas isto é a matrícula não é?

ELE: Hu!

EU: Pronto, estou a ver que isto é a matrícula. Só que há um problema, esta matrícula não é daqui. O senhor tem que ir a O******* do ******.

ELE: Mas eu não sei!

EU: Pode ir de comboio. O senhor é de cá?

ELE: Sou de C******** de B****.

EU: Sabe ir daqui para a estação?

ELE: Eu não sei ler. Vim de mota. Eu perdi-me c*ralho!

A partir daí, aquele homem grosseiro de mãos calejadas e olhos pequeninos e juntos, desatou num pranto à minha frente e, enquanto que as lágrimas lhe rolavam pela barba mal feita, repetiu as mesmas duas frases: - “Eu perdi-me c*ralho!”, “Eu não sei ler e perdi-me!”

Fui à internet e imprimi-lhe um mapa com o percurso assinalado. Indiquei-lhe a direcção do primeiro ponto e aconselhei-o a ir perguntando às pessoas pelo caminho. Fiquei amarga para o resto do dia. Isto não devia acontecer, não depois de terem inventado a inteligência artificial.

11 comentários:

mfc disse...

Ficam-te bem esses sentimentos!

Tu és bonita...

Paula Raposo disse...

Uma situação muito triste, mesmo! Beijos.

A Senhora disse...

Essas situaçòes são de nos "quebrar as pernas", e mesmo que sejamos capazes de resolve-las satisfatoriamente, o resto do dia vamos estar com as "pernas" doloridas.

Castanha Pilada disse...

mfc, não sei se estás a gozar com o pagode ou não mas... é verdade. Até eu tenho sentimentos, lol!

Paula, triste duma maneira perturbadora. Demais.

Senhora, a expressão é essa mesmo. Quebrar as pernas.

Emiele disse...

Uma história desconcertante. Quando se começa a ler estamos com um sorriso.
E quando se termina está-se mas é com um nó na garganta....

Gaita!

Lumitoca disse...

mais triste ainda seria ficar insensível

Mariquinhas disse...

P+++a, que cena!
Nesta sociedade que vivemos "de faz de conta", infelizmente, a tendência será , cada vez mais,cruzarmos com "inadaptados" por - analfabetismo, iliteracia, timidez,aspecto físico v/s a histeria duma sociedade que se vai tornando, desenfreadamente, liberal - esquecendo-se que, não tem muito tempo, era profundamente rural.

Castanha Pilada disse...

Emiele, eu fiquei. Juro.

Lumitoca, quem ficaria?

Mariquinhas, essa é que é uma verdade...

Gi disse...

Sabias que hoje é o Dia Mundia da iliteracia? Em Portugal 9 em cada 100 não sabem ler! E nestes 10 anos apenas se conseguiu reduzir a taxa em 2% ... cá por mim porque muitos dos que não sabem ler e escrever morreram.
Realmente ler é a maior liberdade reservada a um indivíduo!

mfc disse...

Não estava nada a brincar!
Desta vez estava a comentar a sério.

Um beijo.

Castanha Pilada disse...

Gi, e nem sei se isso será falha dos governos ou nossa. Há quem diga que somos por natureza uma raça ajericada.

Mfc, beijinho de volta. Apanha aí. :)