sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Uma das experiências mais traumáticas que tive nos meus contactos com a igreja foi o baptizado da minha filha mais velha, ao qual tive que aceder por grande pressão do pai e respectiva família. Na altura pensei que, não trazendo nada de bom, mal também não faria. Pensar assim é uma das defesas possíveis do derrotado. E foi imbuída desse espírito que eu me dispus a dominar o meu estômago e frequentar as reuniões de preparação para o evento, na sé catedral da paróquia mais "bem" da cidade. Logo na primeira sessão, tivemos direito a um casal de beatos que piedosamente acedeu a partilhar connosco a sua imensa experiência e sabedoria de família cristã. E lá estava eu, sentadita numa cadeira a ouvir a récita e na verdade à espera que acabasse para ir embora. Só que aquilo que me fizeram nesse dia foi muito, mas muito pior do que poderia ter imaginado! Foi medonho! Não é que o prelector tinha escrito um texto sobre "a família e a educação dos filhos na doutrina cristã", com frases do género "quem vive em Deus escolhe amar" e "um coração decidido a amar acolhe Deus no seu seio" e outras que não me lembro, e foi ler aquilo enquanto a mulher, ao fundo, fazia avançar uma demonstração de slides com fotografias deles próprios?! Sim, juro! Fotos deles num churrasco, fotos deles a dar banho ao cão, fotos do casamento deles!... Tudo isto ao ritmo monocórdico dum texto imbecil lido por um lerdo! E acreditem, se se tratasse de duas pessoas de aparência normal, ainda mal o menos! O problema é que ele tinha os dentes de fora e uma franja e ela, era gorda, usava collants brancos e vivia permanentemente com um sorriso estúpido na cara, como se lhe estivessem a fazer cócegas e tinha um penteado em forma de capacete! Eu comecei a ver a minha vida a andar para trás e tentei pensar em coisas muito tristes. Baixei os olhos de modo a ver apenas os meus próprios joelhos e concentrei-me no funeral da minha mãe que até hoje felizmente ainda não morreu. Tentei ver-me a seguir o carro fúnebre com lágrimas nos olhos. A minha mãe, coitadinha, que não tinha visto crescer a netinha!... E acreditem, eu estava mesmo quase a conseguir. Se não fosse o palerma ter elevado a voz, a um determinado ponto da prelecção, e ter dito com elevação poética que "a família cristã é aquela em que Deus é reconhecido como objecto supremo" enquanto mostrava uma fotografia dele e da mulher a comer arroz de frango num piquenique, eu tinha conseguido chegar ao fim sem me rir. Assim, não deu. Nessa altura eu desmanchei-me numa gargalhada que já estava apertada na garganta desde que a minha mãe tinha ficado tuberculosa coitadinha... uma daquelas gargalhadas que quer sair mas ao mesmo tempo não quer e acaba por adquirir a forma dum cruzamento entre riso e espirro.
Toda a gente ficou a olhar para mim enjoadíssima, fiquei mal vista, e a minha sogra nunca me perdoou.

7 comentários:

Paula Raposo disse...

Quando se fazem coisas contra vontade é sempre complicado!! Beijinhos. Vou estar ausente uns dias.

A Senhora disse...

:)))))
A descrição do casal é tão minuciosa que eu voltei a leitura só para "ver" a cena toda. :))

Dessa, de batismo, escapei maravilhosamente. E por pouco, muito pouco, a sogra fica magoada comigo.

bjs

mfc disse...

Fizeste muitíssimo bem... não era caso para menos!

divagacoesaoluar disse...

Castanha! Nem imagina como me ri a ler este post. Adorei o truque do funeral da mãe. "gargalhada que já estava apertada na garganta desde que a minha mãe tinha ficado tuberculosa coitadinha..." Lindo!! :D

Castanha Pilada disse...

Paula, é muito difícil :)

Senhora, eu não escapei a quase nenhuma destas cenas. Até pela igreja casei... uma vez!

mfc, fiz muito bem desmanchar-me e fazer figura de parva???

Divagações, eu uso muito esse truque, mas nem sempre funciona.

Mariquinhas disse...

Castanha, eu estive uns dias sem comentar, mas fui lendo, hoje com mais vagar, não resisto a dizer-lhe - a Castanha, conhecedora e praticante do "método", tem tudo para ser uma grande actriz e mais, da minha experiência e do que me contam, seriam poucos os actores que resistiriam a tal "provação" sem desatarem a rir "a bandeiras despregadas":))
A história é extraordinária, surrealista...a fonte (de inspiração), deu uma ajudinha - lá isso...:))

(o meu percurso foi muito semelhante nessas andanças - só baptizei o 1º mas, só por causa da sogra, o pai da criança, aí, estava inocente)

Castanha Pilada disse...

Ui! Eu como actriz ia ser um espectáculo! Lol!