Foi numa aldeia com o ridículo nome de "Palhaço", recentemente elevada à categoria de vila, que eu contactei pela primeira vez com a realidade da violência doméstica. Íamos lá de quando em quando visitar um casal amigo dos meus pais, e a conversa dos adultos girava sempre à volta do mesmo: Ele batia nela. Ela começava por se queixar que ainda no dia anterior tinha apanhado porque ele não tinha gostado da sopa ou qualquer coisa insignificante do género. Depois, ficava a ouvir os meus pais a dar-lhe conselhos, do tipo não faça isso, porque isso não se faz, é mau para as crianças, e a sua mulher é uma senhora tão trabalhadeira, tão limpa, tão boa mãe e dona-de-casa, que não merece. Ele, sem olhar directamente para as pessoas, ficava a ouvir, de cara fechada, sempre a rosnar baixinho qualquer coisa que ninguém entendia. Fumava e esfregava as mãos uma na outra, com uma raiva contida que era um indício claro, até para mim que era ainda criança, que mal nós saíssemos dali ele iria mais uma vez vingar-se do mundo naquela mulher pequenina e muito morena, conformada, que se queixava aos amigos como quem reza um terço.
Eu, pela minha parte, tinha algumas questões a rondar-me o cérebro, mas como sabia que naquele caso era suposto pôr-me a um canto a brincar e fazer de conta que não tinha ouvido nada, nunca as colocava em voz alta:
- Porque é que os adultos batem uns nos outros sem ser nos filmes de porrada?
- Porque é que as pessoas casam umas com as outras para andar à pancada?
- Se ela não fosse limpa, boa mãe e boa dona-de-casa, já merecia que lhe batessem?
Durante muitos anos, associei o coreto e o largo de Palhaço a coisas tristes, e nunca me apetecia lá ir.
Margarida Espantada
Há 3 meses