quarta-feira, 3 de junho de 2009

Contou esta história de forma constante ao longo dos anos. E sempre com o mesmo ar indignado. Por vezes contava-a na presença do marido, como que em busca duma validação e dum apoio. Invariavelmente, ele dava uma risada pálida (uma única, nunca duas seguidas) e continuava a ler o jornal ou apenas a olhar para ele, que era uma maneira de dizer que não o chateassem mais com aquilo. É assim que os recordo.
Contava ela então que quando se casaram, no início dos anos cinquenta, foram passar a lua-de-mel a Lisboa, sítio onde nenhum tinha estado ainda e para onde a viagem representava, naquele tempo, um investimento considerável, em tempo, dinheiro e energia. Contava também que, como vivia na capital uma prima distante que não tinha sido convidada para o casamento, levaram na mala um pouco de bolo de noiva coberto a açúcar glacé e com bolinhas prateadas para a presentear. Quando chegaram a Lisboa era já noite. Não havia auto-estradas nem alfas. Então foram directamente para o hotel e guardaram o bolo no armário, dentro do prato e tapado com um paninho de bordado inglês. Na manhã seguinte saíram para o pequeno-almoço. Quando regressaram, o quarto já havia sido limpo e o bolo tinha desaparecido, bem como o prato e o paninho. "Aquela gente de Lisboa" - rematava sempre ela - "não deve lá ter bolos em condições, aquilo lá nada presta para nada! Por isso roubaram-nos o nosso!"
Quem ouvia a história sorria sempre um pouco, condescendente. Taditos!...

10 comentários:

Paula Raposo disse...

Existem pessoas que estão anos e anos a contar a mesma história! Contentes....beijos para ti.

Castanha Pilada disse...

Se calhar estamos todos. Só que não damos pelas nossas. :)))

Emiele disse...

Foi mesmo há muitos anos, com certeza!!!
E não havia 'livro de reclamações'...
Mas não há direito. Uma 'atençãozinha' dessas e o serviço de quartos ou lá o que foi a desvir sabe-se lá para onde.

Eu acho que também nunca me ia esquecer!!!

Taralhoca disse...

Se fosse só os bolos que limpassem dos quartos de hotel não seria mau. Sobretudo porque eu faço sempre questão de guardar os meus dentro da barriga.

VAP disse...

Essa fez-me lembrar a história de um Colega a quem lhe ofereceram uma galinha viva que ele deixou na mala do carro e nunca mais se lembrou do bicho até ao dia em que já não conseguiu entrar no carro.

Mariquinhas disse...

Essa senhora, sobretudo, não gostou de ter vindo a Lisboa!

Miepeee disse...

Pois sim, ela nao deve ter levado bolo nenhum...ahah

Castanha Pilada disse...

Emiele, eu não sei é como é que alguém se lembra se levar bolo num pratinho na lua de mel, mas deve ter alguma lógica que me escapa.

Taralhoca, por acaso nunca me limparam nada de quartos de hotel Será que um dia tenho azar?

Vap, que horror!!! Isso é que é uma história e tanto!

Mariquinhas, nem sei bem explicar as pessoas que tratam Lisboa como um mito. Ainda se tivesse sido, sei lá, em Nova York... ou na infernal cidade do México...

Miepeee, se fosse eu não levava.

Saltapocinhas disse...

levaram o bolo no pratinho porque naquele tempo não havia taparuére nem papel de alumínio.

E eu também não perdoava se me comessem o bolo!! jamé!!

Castanha Pilada disse...

Eu continuo a não perceber porque é que se leva bolo na lua de mel...