terça-feira, 30 de junho de 2009

Foi numa aldeia com o ridículo nome de "Palhaço", recentemente elevada à categoria de vila, que eu contactei pela primeira vez com a realidade da violência doméstica. Íamos lá de quando em quando visitar um casal amigo dos meus pais, e a conversa dos adultos girava sempre à volta do mesmo: Ele batia nela. Ela começava por se queixar que ainda no dia anterior tinha apanhado porque ele não tinha gostado da sopa ou qualquer coisa insignificante do género. Depois, ficava a ouvir os meus pais a dar-lhe conselhos, do tipo não faça isso, porque isso não se faz, é mau para as crianças, e a sua mulher é uma senhora tão trabalhadeira, tão limpa, tão boa mãe e dona-de-casa, que não merece. Ele, sem olhar directamente para as pessoas, ficava a ouvir, de cara fechada, sempre a rosnar baixinho qualquer coisa que ninguém entendia. Fumava e esfregava as mãos uma na outra, com uma raiva contida que era um indício claro, até para mim que era ainda criança, que mal nós saíssemos dali ele iria mais uma vez vingar-se do mundo naquela mulher pequenina e muito morena, conformada, que se queixava aos amigos como quem reza um terço.

Eu, pela minha parte, tinha algumas questões a rondar-me o cérebro, mas como sabia que naquele caso era suposto pôr-me a um canto a brincar e fazer de conta que não tinha ouvido nada, nunca as colocava em voz alta:

- Porque é que os adultos batem uns nos outros sem ser nos filmes de porrada?

- Porque é que as pessoas casam umas com as outras para andar à pancada?

- Se ela não fosse limpa, boa mãe e boa dona-de-casa, já merecia que lhe batessem?



Durante muitos anos, associei o coreto e o largo de Palhaço a coisas tristes, e nunca me apetecia lá ir.

8 comentários:

Saltapocinhas disse...

Não é Palhaço, é Palhaça!!
E é uma aldeia (ou vila) muito agradável! Já lá trabalhei e gostei da terra e das pessoas.
Mas às vezes é assim; temos preconceitos por coisas que nos lembramos de quando éramos pequenas!

Mariquinhas disse...

Essa dura realidade da "violência doméstica" dá muito que pensar...Ainda hoje em dia eu tenho dificuldade em perceber, pelo menos, as duas primeiras questões que a Castanha colocava, a si própria, ainda muito pequena. À terceira (a Castanha, sobretudo nessa, já revelava uma grande profundidade de pensamento) eu respondo -não! Isso de "ser má mãe", será sempre uma questão a ser avaliada e julgada por outros meios e por quem revele competência e não por um marido/pai de perfil tão desequilibrado, quando ao resto "ser limpa e boa dona de casa" é muito subjectivo e tarefa a ser partilhada pelo casal (coisa que ainda estamos muito longe de ser prática comum a todos, mas, resolver isso, à porrada nunca).
Compreendo perfeitamente a sua rejeição, na altura, ao lugar de "Palhaça"!

Emiele disse...

É um aperto no coração.
Apesar de tudo, hoje as coisas estão diferentes, não que não exista (e de que forma!) essa violência dentro de portas, mas as vítimas estão menos resignadas e já fazem queixa.
E e a 'aceitação social' dessa chaga que é revoltante. Eu ainda me lembro de também ser criança ou pelo menos bem novinha e ouvir uma mulher que se lamuriava a outra dizendo «Ele deve ter outra, já não gosta de mim! Já nem me bate!» Sei que na altura julguei ter ouvido mal!
Para mim a questão nem é a dor física, é sobretudo a humilhação e a falta de respeito. E é essa falta de respeito que não consigo aceitar!

Paula Raposo disse...

Não sabia que existia uma vila com esse nome. As 3 questões que colocas, são aquelas que eu também coloco. Repugna-me qualquer tipo de violência. Beijos.

Castanha Pilada disse...

Oh Saltapocinhas, tu não me digas que eu me enganei no nome da terra sem querer! Lolll!

Mariquinhas, essas coisa das qualidades femininas que era obrigatório ter e condenavam quem as não tivesse a merecer qualquer coisa, começou-me a enervar muito cedo, de facto.

Emiele, é verdade que está diferente. Os homens (alguns, claro), continuam umas bestas, mas as mulheres já não acham que seja o destino levar com eles.

Paula, não existe. Eu estava aqui a fazer um exercício de camuflagem geográfica mas a Saltapocinhas denunciou-me, eh eh...

mariabesuga disse...

Pois "alguns" "homens" vão continuar a ser sempre umas bestas. Está-lhes na massa do sangue como se dizia lá na minha terra de peças dessa natureza.
Quanto a mulheres asseadas e bem comportadas e boas mães eu conheço-as lá na minha terra e noutras que de boas tudo que eram viraram "desleixadas" até de si próprias de tanto esforço mal apreciado e tanto levar pancada dos maridos e da vida que passa a a ser a delas de quando se casam com eles.
Também em miúda assisti a cenas meio macacas desse género meio camufladas e a mulher fugia para casa de alguém de família mesmo já sabendo que ele a iria buscar e chegaria a casa e levaria outra carga...

Castanha Pilada disse...

E não se pode atropelá-los com camiões?

Saltapocinhas disse...

Ops!!!
:(