quinta-feira, 11 de junho de 2009

A minha casa de infância, onde agora se erguem blocos de apartamentos, era o símbolo vivo do fim duma era e do começo de outra. Só mais tarde me consciencializei disso.
Era uma casa rural, daquelas com uma porta que só se abria na páscoa para entrar o prior e um portão ao lado que dava para o quintal, sempre aberto a todos os que quisessem vir perguntar se havia um pé de salsa, e que era na prática a entrada da residência.
Ficava à beira duma estrada nacional que atravessava uma aldeia às portas da cidade. Por isso, ainda passavam por lá pachorrentos carros de bois, que deixavam à sua passagem suculentos montes gigantescos de bosta campesina. Também passavam carros, que começavam na altura a vulgarizar-se. E tal como hoje, já os homens da classe média (as mulheres que tinham carta ainda eram motivo de animada discussão) faziam do acelerador uma compensação das suas frustrações diárias. E era essa alternância constante entre bois e máquinas na minha rua que provocava grandes disparos de bosta fresca contra as paredes das casas, cujas fachadas era necessário mandar lavar com frequência.
É verdade. A frontaria da minha casa de infância, sempre cagada por pneus que chiavam por cima da bosta fresca, era o símbolo vivo do fim do Portugal rural do livro da terceira classe.

7 comentários:

Paula Raposo disse...

Calculo que fosse mesmo assim como contas, na aldeia. São preciosas as tuas histórias. Obrigada por as partilhares aqui, connosco. Beijinhos.

Castanha Pilada disse...

Era assim mesmo Paula. :)))

A Senhora disse...

Eu achando tão lindinha e fresca a paisagem e memória... e daí... daí o carro passa por cima da bosta e suja tudo! :) Muito malvada! :))

beijinhos

Mariquinhas disse...

A casa e toda a "envolvência" são-me muito familiar e o livro da 3ª classe (no "Estado Novo", os livros escolares, passavam por várias gerações), terá sido o mesmo que o meu (eu fiz a 3ª classe em 1965, ups, já revelei a minha idade)?! Há uns 5 anos, um amigo meu, por graça, ofereceu ao meu filho mais novo uma reedição desse mesmo livro, deixo uma pequena passagem:"A Joaninha, logo que se levanta, lava-se, penteia-se, veste-se e calça-se. Quando vai dar os bons-dias aos pais, quase sempre a mãe lhe compõe um pouco melhor o laço da cabeça. Reza as suas orações, almoça e vai para a escola. Pobrezinha, mas muito lavada, vestido sem nódoas nem rasgões, é um encanto vê-la... (lição “A Joaninha”, pag.11)
(Hoje em dia essas "casinhas" são tão apreciadas.)

Castanha Pilada disse...

Lol Senhora, a vida tem destas coisas.

Foi exactamente o mesmo livro Mariquinhas. Que aliás já tinha sido o mesmo da minha mãe. E eu só fiz a terceira uns anitos mais tarde, não muitos. :)

Emiele disse...

Começo a entender porque não aprecias assim tanto o campo...
Não cheira assim tão bem, nalguns sítios
:)

Castanha Pilada disse...

Mas eu até aprecio! De fugida!