segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Paula teve direito a fato de sevilhana no carnaval. Vermelho-vivo, às bolinhas brancas, cheio de folhos nas mangas e na saia, tudo rematado com o charme dum leque de plástico, duma mantilha de nylon e, oh sonho!..., duma maquilhagem a condizer, com baton encarnado e um sinal negro na bochecha. Fui para casa a correr passar a mensagem à minha mãe. Eu também queria ir de sevilhana como a Paula!
- Tu não vais. - respondeu-me ela - Isso é vulgar e ordinário e impróprio para miúdas da vossa idade.
Eu ainda ia perguntar qual era a idade própria para ir de sevilhana, mas a prudência recomendou-me que não o fizesse. Há que não esquecer que, naquele tempo, ser espanhola significava ser mulher de mau porte e uma ameaça para as lusas esposas. A minha mãe estava mesmo a sério.
Ficou decidido que eu iria de camponesa da Beira Baixa, de saia rodada, blusa de chita, um lenço enfiado na cabeça, um avental e uma espécie de saca do pão na mão. E no dia em que fomos ambas à costureira fazer a prova final, lado a lado, a Paula deslumbrante no seu vestido cheio de salero e eu com ar de quem ia dar de comer às vacas, quando olhei para ela e vi disparar dos seus olhos um raio de gozo pela minha triste figura, jurei que, nem que levasse cem anos, havia de me vingar. Como eu odiei a Paula nesse dia meu Deus!

8 comentários:

Paula Raposo disse...

Fizeste-me recuar muitos anos...eu mascarei-me uma vez de japonesa (com um cabeleira linda de lã feita pela minha avó) e uma maquilhagem que deu direito a ter os olhos em bico! Não muito vulgar na altura, olhos verdes e em bico.
De outra vez foi de holandesa...de socas e tudo.
Não me lembro de mais. Detesto o Carnaval. Só isso.
Beijos.

Mariquinhas disse...

Eu tanbém estava proibida de tal fantasias, devaneios próprios da idade;))
Mais tarde fiz ver aos meus pais
que aquelas atitudes só geravam inveja, eles já tinham reparado mas, a crítica social falava mais alto, mesmo assim surtiu efeito, as minhas irmâs mais novas é que lucraram com isso, que eu já não tirei partido, ironia no mínimo... LOL

mariabesuga disse...

E já cumpriste a ameaça... promessa?!?!?!...
Já te vestiste de Sevilhana em alguma circunstância?!?!?!...
Devias!...

Nós lá em casa não nos mascarávamos. Quando muito um lençol para assustar a quem nos abrisse a porta à noite...

Beijinho Castanha.

R. disse...

Eheh, eu fui todo orgulhoso de pirata, com pouco mais do que um lenço na cabeça e uma espadit de faz-de-conta. :)

Castanho, dá uma olhada aqui, p.f.

http://o-gato-do-castelo.blogspot.com/2009/08/eu-dou-cartao-vermelho.html

R.

Castanha Pilada disse...

Paula, o meu ano de glória foi quando fui de princesa. Com anquinhas e tudo! Um delírio! Eu adorava simplesmente o canaval!

Mariquinhas, é sempre assim. Os mais novos é que tiram partido das árduas lutas dos mais velhos. Que se há-de fazer?

Não Maria, nunca cheguei a vestir-me de sevilhana. E acho que agora dava um bocado nas vistas...

R, pouco mais que um lenço na cabeça? Essa sim foi ousada, lol!

A Senhora disse...

Inacreditavelmente, todos os carnavais nós viajávamos. Isso, até bem pouco tempo, antes de me casar. Aliás, minha última viagem de carnaval foi justamente para Portugal. :)
E até meus seis anos diziam que se eu colocasse uma pena na cabeça já estaria fantasiada. :)

Emiele disse...

Olá Castanha Pilada!!!
Posso finalmente ler-te e deixar aqui os meus testemunhos, e é interessante relembrar um tempo em que os fatos de Carnaval não eram comprados feitos!
Como estamos aqui a falar das nossas experiências, gostei de quase todas as fatiotas ( e como dizes e quem por aqui passa também) havia nessa altura o costume de nos vestirmos com fatos regionais, que creio passou completamente de moda. O meu primeiro, era muito pequenina, foi de minhota, que é muito garrido, com aqueles bordados todos, os lenços, aventais, xailes. O que mais me enlevou foi de fada, e foi uma surpresa porque foi feito às escondidas. E o mais desconsolado foi de dama-antiga, porque o que eu queria era de saia de balão de cetim e toda cheia de brilhantes e os meus pais arranjaram uma saia comprida mas sem balão nenhum, e escura, e o fato era todos muito discreto. Até não era feio, mas nada do que eu tinha sonhado...
De «espanhola» nunca me lembrei, mas era bonito «holandesa» com a toca engomada. Também nunca aconteceu.

Que saudades.

Castanha Pilada disse...

Senhora, aqui o carnaval nunca caiu com tanta força em cima da gente como aí. Eu cá gostava. A potes!

Emiele, já todas gramámos fatos regionais, é a conclusão a que se chega. Menos mal que nunca fui de minhota, odiava aquelas cenas penduradas ao pescoço.