terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tinha catorze anos quando um colega me emprestou "O Último Tango em Paris", numa edição de bolso que ele tinha roubado ao pai e já tinha rodado meio liceu. Era um livro "lido", não um livro daqueles em bom estado, bom para ter na estante da sala. Estava gasto e via-se bem que muitos dedos tinham passado por aquelas folhas e muitos olhos tinham devorado aquelas letras. Os cantos exibiam uma ligeira curvatura e as folhas tinham amarelecido. Por qualquer motivo que não sei explicar, é mais convidativo ler um livro assim com aspecto de ter acabado de sair do alfarrabista do que um com aspecto de ter acabado de sair da livraria. Mas por isso mesmo, o benemérito que emprestava o livro à comunidade escolar vivia no dilema entre voltar a arrumá-lo no sítio de onde o tinha tirado e ser apanhado ou não o voltar a arrumar e ser apanhado na mesma quando o pai se desse ao trabalho de os contar.
No dia em que me coube a mim a vez de o ler, fui para a cama mais cedo, fechei a porta à chave e disse a todos que estava muito cansada porque tinha tido dois testes. Pela noite dentro, umas vezes espantada, outras incrédula, fiz uma das minhas primeiras incursões ao mundo desconhecido dos adultos. Mas nenhuma cena me deixou tão escandalizada como aquela já clássica da manteiga. Não sei quantas vezes voltei atrás para a ler de novo, na esperança de que afinal tivesse lido mal e não fosse aquilo. Mas não, era mesmo aquilo.
No dia seguinte, ensonada pela directa, entrei às oito e meia na aula de francês. Olhei para professora quarentona e com uns óculos na ponta do nariz. Era a primeira adulta que via sem ser os meus pais, que esses não faziam de certeza absoluta aquelas coisas. Senti uma desconfiança nova.

3 comentários:

Mariquinhas disse...

Não é justo, logo quando já te estavas a render à "evidência", aparecer-te mais "essa" - realmente, esse livro foi um grande desassossego na tua vida e em tantas outras:))
(o último parágrafo é "a cereja no topo do bolo" - surpreendeu-me e foi até às lágrimas)
Eu não tinha lido livro, nem nunca o li, quando vi o filme - agora fiquei a perceber melhor a escolha de Maria Shneider e Marlon Brando, pelo realizador,para protagonistas:))

Emiele disse...

Por acaso também só vi o filme, ainda estava muuito censurado cá. Mas já era mais crescidinha, e gostava muito dos filmes do Bertolucci.
Imagino que para uma menina de 14 anos todas aquelas cenas (e não apenas essa, olha que há outras também delicadas, quando ele lhe manda cortar as unhas...) sejam uma revolução.

Castanha Pilada disse...

Mariquinhas, eu li o livro e mais tarde vi o filme. O livro é muito mais intenso. Ou então eu era muito mais susceptível :)

Emiele, essa das unhas é cruel. Nunca se manda uma mulher cortar as unhas rentes. Nunca! :)))