quinta-feira, 9 de julho de 2009

Esperei o meu primeiro irmão com impaciência. Por um lado, porque precisava de alguém para brincar, por outro porque precisava de alguém para brincar, já! Mas na verdade, com o avanço de quatro anos que eu levava do futuro rebento, era com alguma apreensão que via a possível falta de capacidade do dito para me vir a acompanhar, visto que ainda iria passar por aquelas fases chatas das fraldas, de não saber andar e só dormir, de não saber falar mas só chorar e de passar a vida com a chupeta na boca, enquanto que eu não parava de crescer. Para minimizar o prejuízo que todas estas evidências me trariam, desejava que pelo menos saísse rapariga, já que não conhecia nenhum rapaz que fosse suficientemente competente para montar uma casinha de brincar, vestir as bonecas, pô-las por ordem para o chá da tarde ou fingir que uma panelinha de plástico cheia de pedras e terra era uma sopa. Curiosamente, os meus pais passavam a vida a desejar que fosse um rapaz. Logo eles, que até aí sempre me tinham feito as vontades! Falavam com os amigos e os vizinhos e diziam que gostavam de ter "um casalinho", coisa que eu achava estranha por não ter a menor intenção de vir a casar com o meu irmão.
Finalmente, quando chegou a hora, o destino confirmou que todos os deuses estavam contra mim, nasceu mesmo um rapaz! Pior ainda! Embora eu esperasse pacientemente dia após dia que ele saísse daquela espécie de coma consciente em que os bebés vivem mergulhados para o ensinar a brincar às casinhas e a andar de triciclo, ele não aparentava qualquer sintoma de progresso. Como se não bastasse, a minha mãe passou a andar obcecada por aquela cagona criatura e deixou, como por magia, de me fazer as vontades. Por isso, resolvi tomar o assunto nas minhas próprias mãos: Um belo dia em que todos os adultos da casa estavam distraídos, aproximei-me do casulo de rendas e folhinhos onde a entidade dormia descansada e de consciência tranquila como se não tivesse culpa de nenhum dos cataclismos que se passavam à sua volta e tentei desmontá-la como fazia às bonecas de que já estava farta. Não consegui. Ainda eu estava no princípio da missão, a tentar separar a mão direita do braço, quando os berros histéricos daquela coisa atraíram a atenção de toda a gente que acorreu em seu auxílio. Fiquei de castigo, e que me lembre foi a primeira vez que tal aconteceu. Passei muitos dias e meses a perguntar a mim mesma se não seria possível devolver aquela encomenda à cegonha francesa que a tinha trazido. Foi preciso passar alguns anos para que eu me habituasse ao novo ser sem ter vontade de o tele-transportar para marte.

15 comentários:

Paula Raposo disse...

Revi-me um pouco na situação. Seis anos e meio depois de mim nascia o meu único irmão. Eu queria uma menina. Quando me disseram que era um rapaz eu disse: bahh! e nem olhei para ele.
Hoje somos os melhores amigos do mundo!! Beijinhos

mariabesuga disse...

eu também tive um irmão mas hoje já não tenho. ficámos sem ele quando tinha vinte e quatro anos.

éramos seis raparigas lá em casa e o meu pai não desistiu enquanto não "fez" também um rapaz. aí parou.

o rapaz foi para todas nós um bocado o ai jesus como se costuma dizer, ou costumava lá na minha terra. até me parece que já disse isso aqui.

bell disse...

Desmontar o bebé, que ideia!!

Eu sou a mais nova, nunca vivi essa situação.

Castanha Pilada disse...

Paula, eu depois desse ainda tive mais. E sem dúvida que, hoje em dia, jamais quereria desmontar um deles. :)))

mariabesuga, essa história é bem mais triste. A minha é só pateta. Ir embora com 24 anos não é nada justo.

bell, e será que nunca te quiseram desmontar a ti? ;)

Emiele disse...

:))
Essa ideia sensacional nunca tinha ainda ouvido, apesar de conhecer muitas formas de 'descartar' irmãos que quando aparecem nunca são bem vindos porque não servem para nada. A verdade é que o filho ou filha mais velhos são 'filhos únicos' até à chegado do outro e é chato der desalojado desse poleiro. E mesmo os que pensam «vai ser bom para brincar comigo» não estão a ver que até terem brincadeiras de jeito vai faltar muito tempo!!!
Não tenho essa experiência que sou filha única, mas assisti a muitas cenas desse tipo - a tua foi mais engraçada!

Taralhoca disse...

Eu fui filha única durante dois anos e meio e já andava fartinha de o ser. Não tive de insistir muito com os meus pais para que me fizessem a vontade. Pais que, ao igual de toda a família, estavam convencidos que me iam oferecer um menino (paranóia dos casalinhos, uma vez mais). E eu convenci-me do mesmo. Quando no dia cheguei ao hospital e me disseram que tinha nascido uma menina tive um desgosto... Como é que uma menina ia jogar à bola comigo? O desgosto passou-me passado dois minutos e ainda não voltou a bater-me à porta.
Mas não perdi a esperança de que me arranjassem um menino, agora contando com a ajuda de uma irmã na campanha.
Nada feito. Os pais não quiseram arranjar às meninas um nenuco para brincar.

Monday disse...

desmontar a entidade foi uma das melhores que já li nos últimos tempos ...

só não entendo como os seus digníssimos progenitores não entenderam o que fazias ... lol

ah, adultos! tão toscos!

Castanha Pilada disse...

Emiele, por isso é que os irmãos deviam vir logo em fornadas múltiplas, como os gémeos!

Ainda bem Taralhoca, coitada da criança a fazer de Nenuco de duas irmãs mais velhas!

Monday, não entendem nada! Lol!

A Senhora disse...

Os meus já entenderam o que ocorria - eu fui muito explicita. Bati na cabeça de minha irmã com a mamadeira de vidro e ainda disse : não gosto de você!

Claro que gosto dela, mas... ela nunca soube enteder a irmã supercriativaemandona que ela tinha. :))

bjs

Castanha Pilada disse...

Esse também é um problema dos irmãos mais novos.

Mariquinhas disse...

Lol, eu teria várias "entidades" para "desmontar" e "devolver"!!!
Eu sou a terceira mais velha de seis irmãos e a mais velha de três raparigas, viemos em "fornadas múltiplas" como alvitrou a Castanha e hoje eu comungo da mesma opinião, mas, na altura não achei graça nenhuma, não cheguei a desfrutar dos meus pais só para mim, aliás eu tive que ajudar a minha mãe a criar os mais novos, o que concorreu para a minha iniciação, na longa caminhada de luta pela emancipação e igualdade de direitos para a mulher e alguns "enxota-moscas" por ser muito refilona... eheheh!
Também devido a esta experiência, fiz um planeamento familiar desastroso, os meus filhos são os quatro muito espaçados, não aconselho a ninguém.

R. disse...

Eu conheço bem a situação... vista do avesso! :)

Sou o irmão mais novo (cinco anos) da minha (única) irmã! EU é que sofria às mãos da mana enquanto ela insistia em brincar comigo tal e qual como brincava com as bonecas. :D

R.

Gi disse...

Nada como ter um filh oa seguir ao outro ( caso dos meus pais e meu caso).

Castanha Pilada disse...

Mariquinhas, também eu acabei por ter três filhos. E se somermos os do segundo casamento, são cinco!!!

Tadinho do R... Lol!

Gi, assim tipo... seguidinho? Fogo!

Sofia MQ disse...

Eu tinha dois anos quando nasceu o meu único irmão. Não me lembro de nada, mas reza a lenda que fiz um grande xixi na alcofa dele! Talvez tenha sido por vingança que, anos mais tarde, ele achou por bem desenhar bigode e barba no meu nenuco...
Atenção, quando fiz o xixi ele NÃO estava na alcofa!!!