Mesmo já com oitenta e dois anos feitos, ela recusava-se a aceitar que era velha. Referia-se às pessoas da mesma idade chamando-lhes "os velhotes coitados", e no dia do seu aniversário, ano após ano, dizia sempre a todos que fazia 69. E não, não era por malícia. Todos à sua volta duvidavam até da sua capacidade para alimentar qualquer tipo de brejeirice. Era porque na sua cabeça, a linha que traçava a fronteira entre a juventude e a velhice estava aí.
Mas a maior preocupação de todos era a noite de fim de ano. Mais concretamente o momento da passagem para o ano seguinte, à meia-noite em ponto. Porque nessa altura, desse para onde desse, ela fazia questão de subir a um banquinho para comer doze passas e formular doze desejos. Durante anos, lembro-me de passar esse momento específico à volta dum banco com mais cinco ou seis pessoas, à espera que ela, invariavelmente, se desequilibrasse e caísse. Alguém sempre a amparou e, também invariavelmente, ela fazia a observação "Não sei como é que isto me aconteceu!". Até hoje, nunca partiu uma perna.
Margarida Espantada
Há 3 meses