quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Quando eu era criança, mesmo criança, morava numa aldeia onde quase ninguém tinha, pasme-se, casa de banho. Portanto, aquele compartimento com uma banheira, uma retrete, uma bidé, um lavatório e água corrente quente e fria. Isso. Na minha casa havia uma por isso, para mim, era uma coisa tão normal como respirar ou existir. Fiquei a saber que não era assim tão normal para toda a gente quando um dia fui brincar para casa duma colega depois da escola. Foi quando lhe disse que queria fazer xixi e lhe perguntei onde era a casa de banho. Ela levou-me então numa pequena viagem a pé por entre couves, milho e campos de batatas, até se avistar uma pequena cabana de madeira com cerca de um metro quadrado. Quando lá chegámos, ela abriu a porta e disse-me:
- É aqui.
Eu, completamente sem palavras, olhava para um local escuro, mal-cheiroso até à náusea, com uma espécie de banco de madeira no qual havia um buraco redondo, um pano branco que já era castanho pendurado por um prego e milhares, milhares de moscas a sobrevoar furiosamente tudo aquilo.
- Ah! - disse eu - Tenho que ir para casa! Estou atrasada!
E corri, deixando a minha colega à porta da retrete rural a olhar para mim sem perceber o que se passava. Corri até chegar à minha casa, sem parar, e era seguramente uma distância de um quilómetro. Não sei porquê, mas corri sem me cansar nem olhar para trás, como se fugisse dum perigo terrível.

17 comentários:

Lumitoca disse...

eh eh tenho uma casa numa aldeia, que a minha mui querida avó me deixou, que ainda tem uma retrete dessas. Quando fizer obras, se calhar restauro aquilo para ficar como memória...

Castanha Pilada disse...

Boa ideia! e com uma placa tipo museu!

kuka disse...

E tinham uma barraca?
Conheci (muitas) casas onde as necessidades eram feitas no estábulo. Depois pegavas numa forquilha e juntamente com as palhas mandavas tudo para a estrumeira.
Esses da barraca de madeira deviam ser ricos.

Kruzes Kanhoto disse...

O pior é que, infelizmente, ainda hoje nem toda a gente dispõe de casa de banho. E muitos desses casos estão nas zonas antigas e/ou degradadas das cidades.

Castanha Pilada disse...

Kuka, o que é que pensas? Também cheguei a ver isso!

Kruzes, hoje, convenhamos, será mais raro.

Monday disse...

é, moça, quando a gente pensa que está em 2008 ... rssss

Dantins disse...

Na casa dos meus avos também existia uma casa de banho dessas, mas só era utilizada pelo meu avo. Felizmente, para mim, já tinha uma casa de banho "dita normal" apenas com um senão: não existia banheira, somente um duche com água fria. Então, o sistema para tomar banho, era ir buscar um alguidar (onde eu só cabia por partes) e transportar água da panela do fogão a lenha para o banho. O ritual era tão demorado que no inverno quando começava a tomar banho já a água estava quase fria.
Curiosamente, tenho saudades :)

Gi disse...

Ainda hoje, neste país, assistes a "coisas" destasv e não é nos museus.

Emiele disse...

Conheci uma dessas numa «casa de férias» numa aldeia, mas há...... nem digo os anos! Há muitos! O buraco dessa sanita improvisada dava directamente para uma espécie de lixeira.
Pela mesma época, também passei por uma outra casa de familiares vivendo em aldeia, mas onde a parte das lavagens era num quarto em casa, a 'sanita' ou lá o que era, é que era também longe numa espécie de bacio com um metro de altura e com uma tampa que se voltava a por depois de o usarmos. Imagino que algumas vezes por dia fossem enterrar aquela porcaria.
Mas fossas e coisas dessas são realmente modernices que não se imaginavam nessa altura.

Taralhoca disse...

Eu sou menina mal habituada. Na casa dos avós, desde que sou gente, sempre houve WC forradinha a azulejo e com tudo o que faz falta. Infelizmente esquentador não havia. Preferíamos baldes de água quente ao chuveiro de água fria. Mesmo no Verão o chuveiro ficava pendurado. O banho era no terraço, à mangueirada.
Mas se bem me recordo na casa dos avós do meu primo, onde dormimos algumas vezes, também funcionava o sitema da cabaninha. O WC era cá fora, mas tinha sanita e papel higiénico, portanto já era uma cabaninha pró moderno.

Poppie disse...

Também cresci numa aldeia, que apesar de não muito longe de uma cidade (pequena), umas quantas casas também não tinham ainda casa de banho. A minha escola primária não tinha casa de banho. Valia-me a casa da minha avó mesmo em frente. Não me espanta em nada essa não existência de coisas que consideramos quase como garantidas e parte integrante da nossa comodidade. Por muito que possamos pensar que situações dessas não são toleráveis num país dito desenvolvido, eles existiam e ainda continuam a existir. Espantou-me sim quando cheguei a Lisboa e fiquei a conhecer a realidade de alguns bairros mais antigos. Dos balneários públicos a servirem uma parte alargada da população, das casas sem condições… por detrás das fachadas bonitas e pitorescas dos prédios escondem-se coisas que não imaginamos. Os cartões postais da cidade não mostram para além das paredes.

Miepeee disse...

Na casa da minha avo materna havia uma sanita num dos quarto, deve ter sido a primeira suite em Portugal....ahahahaha

kuka disse...

O meu tio materno arrendou uma casa na rua do salitre, mesmo junto ao parque Mayer, em cujo rés do chão,funcionava a fábrica de caramelos"vaquinha". Em 1973 esta casa, e as contíguas, não tinham casa de banho. Existia na cozinha uma pia para despejos e que servia para todo o serviço. É bastante provável que ainda existam muitas destas casas em Lisboa.

A Senhora disse...

Na minha casa sempre teve casa de banho (banheiro). Então, um dia fui fazer tarefa escolar na casa de uma coleguinha, distante da escola e da minha casa. La, apesar de bem pobrezinha, também tinha banheiro, mas nào tinha papel higiênico, mas jornal. Fiquei aflita, porque não sabia como usar "aquilo". Quando voltei para casa, no caminho parei em um mercado para saber o preço do papel higiênico e fui enfurecida para casa. Como é que ela tinha dinheiro para comprar lanches todos os dias e não tinha dinheiro para comprar papel higiênico que era muito mais barato?!

Castanha Pilada disse...

Monday, é. Mas naquele tempo, não digo quando foi, ainda não era 2008. :)))

Dantins, essa dos banhos para mim seria fatal! Fatal! É que tenho pavor de água fria, mesmo no verão!

Gi, mas por acaso podiam fazer um museu destas coisas pitorescas.

Emiele, escapou-me essa da tampa. Pois era! Havia uma tampa!

Taralhoca, a essas cabaninhas, se bem me lembro, chamava-se "ir ao aido".

Poppie, a escla primária onde andei também era uma miséria em termos de instalações sanitárias. Mas não tão mau como a cabana da minha colega.

Miepee, altamente!!! Lol!!!

Kuka, espera aí! Quer dizer que se podia estar a lavar a loiça e a ***** ao mesmo tempo???!!!

Senhora, tens que ver o lado bem! Os rabos deles eram muito mais informados!

mfc disse...

pois... e esses tempos não foram há muito!
Também tive a sorte de sempre ter em casa uma verdadeira casa de banho.
Mas numa casa de férias numa aldeia... era exactamente como a descreves!

Castanha Pilada disse...

:)