sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

- Ficas aqui sentadinha e não sais!
Eu tinha quatro anos mas a minha mãe sabia que eu não sairia dali. E nesse tempo não se ouvia falar em rapto de crianças. Fiquei à espera, sentada na soleira da porta gigantesca dum prédio velho e degradado. Também não saberia onde ir. Não conhecia aquele bairro, nem aquela cidade, nem as pessoas que passavam e olhavam curiosas para uma miúda forasteira de saia de pregas e sapatinhos de verniz.
O assunto que a minha mãe tinha ido tratar com a amiga que tinha vindo no comboio connosco não era apropriado para crianças. Não era suposto eu saber do que se tratava e muito menos assistir. Só que eu sabia muito bem. As crianças, quando querem, são os seres mais atentos do mundo a pequenos sinais, pequenas frases e ao que está para além delas.
Esperei obediente. Quando elas voltaram, a amiga da minha mãe vinha a sangrar do nariz e o vestido estava descosido de lado. Consequências do ajuste de contas que tinha ido fazer com a amante do marido, caixeiro-viajante. Não perguntei nada porque nada me diriam a não ser mentir. Eu sabia.

6 comentários:

Miepeee disse...

As criancas sao muito espertas, tomam atencao a tudo, aquela ideia de que elas nao percebem porque sao pequenas esta completamente errada.

Monday disse...

me lembrou da minha infância, quando era bem pequenino ... mas a gente ficava morrendo de medo de esperar a mãe, se ela sumisse do alcance da vista ...

Castanha Pilada disse...

É isso Miepee.

Monday, eu era muito bem comportada.

Emiele disse...

Uma recordação vivissima, e muito bem contada, amiga.
É fácil «ver-se» a cena.

E, de qualquer modo marcou-te para a lembrares, se se passou aos teus 4 anos; muita gente não consegue recordar até tão atrás.

A Senhora disse...

menina,lindinha!

eu ouvi outro dia história parecida. e daí. só que pegaram a mulher errada... :)

Castanha Pilada disse...

Emiele, eu lembro-me muito vagamente disto. Lembro-me de estar sentada durante o que me pareceram séculos, até pensar que tinha sido abandonada. Claro que a minha memória tem sido avivada pela minha mãe, que me contou a história mais tarde.

Lol Senhora!!! Não pode!!!