segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Era uma quinta imensa, que há muitos anos não via caseiro nem cuidados, com uma casa rural no meio. O mato crescia por todo o lado e as plantas trepadeiras subiam as caleiras e as árvores. O ar de abandono conferia ao local um aspecto de cenário natural para um filme fantástico. Era aí, rodeada de objectos com memórias longínquas, que vivia uma das famílias mais singulares que tive a oportunidade de conhecer: A mãe viúva, já octogenária, e três filhas entre os cinquentas e os sessentas. Duas solteiras e uma vergonhosamente abandonada pelo marido, que com ela não tinha ficado mais do que dois dias, nunca ninguém soube porquê. As quatro, carrancudas e ciosas das suas virtudes, transformavam definitivamente o lugar já de si inóspito numa lenda viva. Não havia alma na aldeia que dali se aproximasse sem se benzer, receosa das histórias que se contavam sobre as "quatro bruxas". Mas houve sim, uma alma forasteira que se aproximou, movida, não pela fama de feitiçaria, mas pelos rumores de ali haver fortuna. Contra todas as expectativas, um solteirão vindo de longe seduziu a filha mais nova e logo casou com ela. Ninguém queria acreditar que a um homem assim, de cabelo pintado, gravatas brilhantes e que era visto a fumar charutos na "esplanada" do tasco da aldeia, tinha sido franqueada a entrada da residência misteriosa.
Algum tempo depois do casamento, quando lá fui uma vez em visita (sim, eram minhas tias por afinidade), a matriarca mostrava-se agastada e sofredora. Mal nos abriu a porta, segredou-nos que nos ia mostrar uma coisa. Levou-nos por corredores labirínticos até chegar à sala principal da casa:
- Vejam-me só isto! - disse ela enquanto apontava para uma parede, desviando o olhar.
De facto, a mesma estava coberta de calendários daqueles que vemos nas oficinas e nos camiões, com mulheres nuas e sorridentes, de todos os formatos, tamanhos e cores, por entre as imagens sacras e as fotos antigas de família. O mesmo acontecia na casa de banho, na cozinha e em vários quartos.
- Que mal fiz eu a Deus para me entrar agora isto pela porta dentro? - insistiu ela benzendo-se - E a ******* que não tem mão nele!...
Perante aquele espectáculo, eu não consegui fazer mais do que acenar com a cabeça dando-lhe razão e rir-me por dentro até às lágrimas com o ridículo da situação. Os restantes presentes, também. Aliás, durante alguns anos, não se falava doutra coisa em serões e reuniões familiares.

9 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Prsumo que, ao fim de tantos anos, a +++++++ não quisesse mesmo ter mão nele!

Castanha Pilada disse...

Lol, nunca desvendei esse mistério na sua totalidade. Aquilo ali havia muitas incongruências! :)))

Monday disse...

imagens santas e peladonas juntas? é, deve ter sido uma cena e tanto ... ainda mais se tratando de tão jovens senhoras ...

Mai disse...

Bem...há controvérsias...
'um cravo no santo e outro na ferradura...' 'um olho no santo e outro no diabo...' e por ai vai...
Coitado deixa.....

Emiele disse...

Oh Castanha!!! Passar de repente de uma cena de Garcia Lorca para um espectáculo do Quim Barreiros deve ter sido de trocar os olhos!?!!! :)

Taralhoca disse...

O lugar podia ser fantasmagórico por fora, mas era por dentro que era assombrado... :))))))))))))

Gi disse...

Mas aquilo eram mapas de estrada, até para ela!

A Senhora disse...

Acho mais que ele estava dando "aulas"! :)))
As imagens sacras eram meros detalhes... Já estavam lá. :)))

Castanha Pilada disse...

Monday, FOI uma cena e tanto, acredita.

Mai, é isso, uma metáfora das contradições da vida em si mesma! :)))

Emiele, grande resumo, foi isso mesmo! :)))

Taralhoca, era por fora e por dentro.

Gi, mas ela estava um bocado perdida...

Senhora, o homem era um daqueles cromos. Um daqueles cromos!