domingo, 4 de janeiro de 2009

Morava num apartamento no coração da cidade. Por isso, o sonho da minha avó era comprar uma "quintinha", onde pudesse criar animais e cultivar feijões, milho, batatas e couves. Nunca chegou a fazê-lo, por isso também nunca chegámos a saber se teria mesmo vocação para se levantar de madrugada um dia após o outro para trabalhar o campo, sem perder a perserverança nem a pachorra. Mas isso era um pormenor.
Um belo dia, quando se passeava de carro pelos arredores com a filha mais velha (a minha mãe) e a bisneta mais nova (a minha filha), viu ao longe uma placa perto duma casa pobrezinha e velha a cair de podre rodeada de terra com uma hortinha. Não se conseguia decifrar completamente o que dizia, mas a primeira palavra era certamente "vende-se". Quis lá ir. Apesar do caminho se apresentar íngreme, insistiu. Era aí que finalmente cumpriria o seu sonho. Estacionaram o carro o melhor que puderam, entre silvas e lama, e puseram-se a caminho a pé. Entusiasmada, a minha avó já fazia planos sobre o restauro da casinha e a sua ampliação, a cor da pintura exterior e o jardinzinho à porta.
Entretanto, à entrada do casebre já se tinha posto de atalaia um homem rude, com uma barriga flácida a sair por baixo duma camisola interior de cavas e um palito que mastigava ao canto da boca que mal se notava, coberta pelo bigode. Curioso, via aproximar-se um grupo de duas mulheres e uma criança com ares de dondocas de cidade, sem perceber muito bem o que quereriam dele.
A uns dez metros, porém, elas conseguiram ler toda a mensagem escrita na placa que tinham vislumbrado ao longe: Vende-se isca e serradela.

14 comentários:

A Senhora disse...

Daí percebe-se o poder de sua avó! :))
Se fosse a minha, com certeza nunca saberíamos o que tinha naquela placa! :))

Patricia Lousinha disse...

:)

Monday disse...

bom, ao menos de curiosidade não morreram ... pois se lá não fossem, com certeza é o que aconteceria ...

papagaio disse...

as saudades que tenho de me levantar com o sol para ir ao feijao a batata....ainda me lembro do dia que gamei meia duzia de sacas de batata ao velhote para apanhar o comboio para lisboa desde mirandela na minha adolescençia e agora so o faço em pequenas ferias de verao

Taralhoca disse...

Na cidade petisco da aldeia é produto gourmet, sempre que servido em doses pequeninas.
A avó não ficou com a casa, mas se ficou com fome foi só porque quis...

Gi disse...

E o casebre foi o isco. ;)

Castanha Pilada disse...

A minha avó era fogo Senhora!

Patrícia, e havias de ter visto quando elas viraram costas e voltaram para o carro como quem não quer a coisa. Eu também gostava de ter visto.

Pois... Monday... grandes cuscas.

Papagaio, fiquei com uma dúvida. Como se corre para o comboio com meia dúzia de sacas de batatas? Dá jeito?

A minha avó, Taralhoca, era uma lírica. Acho que tenho a quem sair.

Gi, elas foram Toinas. Pelo que me contaram era mesmo um casebre.

mfc disse...

Serradela é a bicha da pedra... um isco fantástico para a a pesca!
Diz-me lá onde é que eu vou já lá!

Castanha Pilada disse...

É algures entre Viana do Castelo e o Cabo da Roca.

Emiele disse...

Que grande pesca!...
E foi uma pena, já agora tinha graça saber-se do talento para a agricultura da tua avó. falas, falas mas se aqui tem dado hoje eras uma latifundiária!!!

Patricia Lousinha disse...

Eu que tenho muitos pescadores na "família", asseguro que em Aveiro e arredores, a serradela pulula, mfc!

Castanha Pilada disse...

Emiele, tenho um palpite que não. A avaliar pelos meus genes, não.

E em mais sítios Patrícia, e em mais sítios!

mfc disse...

Num me digas que é em Ábeiro?!

Castanha Pilada disse...

Onde fica isso?