quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fui uma aluna da instrução primária exemplar, aplicada, que ia acreditando em tudo o que me vendiam. Acreditava no império português, nos heróis e na grandiosidade da pátria. Sabia (e ainda sei) cantar o hino nacional sem desafinar e rezar o pai-nosso. A primeira atitude rebelde que tive, e nem sabia que a estava a ter, foi quando a professora nos ensinou, solene, que os homens são muito mais úteis à sociedade do que as mulheres. Senti-me ferida, como se me tivessem acabado de insultar com um nome muito muito feio que eu não tinha autorização para pronunciar. Falei, pela primeira vez, sem pedir autorização para tal. Disse à professora que não era nada disso, que nós éramos capazes de fazer tudo o que os homens faziam. Que queria estudar e ter um profissão e não ser inútil. Que ela não devia dizer aquelas coisas porque também era mulher e era professora. E não, não o disse por desafio que eu não sabia o que era, disse-o porque fiquei mesmo muito ofendida. A professora mandou-me levantar e ficar de pé ao lado da secretária, que era nesse tempo a posição oficial em quer éramos interrogados na escola. Depois perguntou-me:
-A menina já viu uma mulher general?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher juiz?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher ministro?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher construir casas? Barcos? Automóveis?
-Não minha senhora.
-Então cale-se e não perturbe a classe.

Apeteceu-me chorar. Durante o resto dia e por mais alguns anos.

16 comentários:

A Senhora disse...

Acho que foram essas, mais ou menos, as perguntas que o pai dela fez para ela quando esta se atreveu a ser alguém na vida. Certas coisas entranham, o que, graças a Deus, não aconteceu com você! Uff! :)

Miepeee disse...

Felizmente esses anos fazem parte do passado em virtude de muitas criancas como tu nao se conformarem :)
Grande castanha assim e que e !

Kruzes Kanhoto disse...

A professora da primária que eu frequentei não fazia distinção de sexos. Pelo menos no que diz respeito à distribuição de reguada...Levava tudo por igual.

Saltapocinhas disse...

gostei de "a menina!"
olha eu a tratar os meus alunos por "a menina"!!
Eu não suporto machismo, principalmente se vier de mulheres...
Mas pronto, presumo que era outra época e outra maneira de pensar...

Castanha Pilada disse...

Senhora, nunca tinha pensado nisso, mas de facto alguém teve que lhe meter essa treta toda na cabeça.

Miepee, eu sou da geração das calças à boca de sino carago! :)))

Kruzes, a minha fazia. Só as meninas é que levavam reguada... porque também só lá havia meninas.

Presumes bem Saltapocinhas.

Monday disse...

ainda bem que ela não é professora hoje ... em algumas escolas daqui, não seria questionada, apanhava mesmo ... rsss

Monday disse...

Ah, moça, aproveitando a visita aqui, caso não conheça, gostaria de te convidar para conhecer o meu outro blog, além do Ménage (que aliás, não é meu, lá sou convidado): The Monday Blog - http://mondaynightandday.blogspot.com
lá tem mais poesias e comecei com textos agora, também. se quiser dar uma passadinha, a vontade. mas não se sinta na obrigação, por favor, é apenas um convite de quem gosta muita do que você escreve ...

Taralhoca disse...

A professora não teria já uma certa idade? Não estaria já um bocadinho esquecida, mais a dar para o caduca? É que não chegou a completar o pensamento, por lapso certamente.
"Nunca viu, mas há-de ver!"

Assinado: estudante do tempo em que as mulheres já podiam ser tudo e as réguas fora de moda.

Castanha Pilada disse...

Monday, claro que vou! Prepara aí um chazinho e uns biscoitos! :))) E mais, hoje em dia, por aqui, também apanharia :)))

Não Taralhoca, era uma trintona. Acho que naquele tempo toda a gente era caduca desde a hora em que nascia.

mário disse...

Tambem sou do tempo da régua,do unisexo na aula,do ponteiro nas orelhas...mas essa prof aprendeu com os maus exemplos da humanidade

Escrevendo na Pele disse...

Nossa, me deu uma certa tristeza agora... mas... que bom que isso ficou lá atrás, né? E você, como uma boa mulher atualizada que és, certamente fizeste jus à sua reivindicação, pois não? Beijos daqui!!

Castanha Pilada disse...

Mário, nesse tempo parece que aprendiam todos caramba!

Escrevendo na Pele, eu tenho uma profissão completamente feminina. Mas na boa, o importante não é propriamente fazer, é saber que posso fazer se quiser. Beijo. :)

Emiele disse...

Gostei da Saltapocinhas!
O pior é que apesar de serem mesmo «outros tempos» há modos de pensar que não assim tão, tão diferentes! E o que mais impressão me fez é quando apanho com um modo de ver a vida completamente conservador, em gente de 20 anos! Olhem que há...

Castanha Pilada disse...

Há. Mas não têm expressão hoje. Digo eu.

Nós, Os Cachorros!!! disse...

Li seu relato e o reli...
Lembrei-me muito de minha mãe...
Filha de japoneses, desde pequena tinha que aceitar ser "menos" que seus irmãos homens...
Ela não aceitou, sempre foi terrivel, mas passou por muitas coisas ruins para conseguir sua liberdade...
Em minha família os grandes feitos, as grandes pessoas sempre foram as mulheres...
Desde minha Avó Paterna como minha Mama.
Moro num país que ainda coloca a mulher em segundo plano e não acho isso justo.
Sempre que posso defendo-as, não para me gabar e sim porque acredito que as mulheres sejam muito mais fortes do que os homens...
Abraxos

Castanha Pilada disse...

:)))